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23.06.2017


Liberação de hormônios para bovinos ainda causa controvérsias, diz cientista

Associações da classe produtiva ainda reivindicam a liberação de uso de implantes anabólicos em bovinos de corte e de leite.

 

 

Volta e meia, a aplicação de hormônios na criação do gado de corte e de leite gera algum tipo de polêmica e muitas controvérsias, aqui e lá fora. Mas são poucos aqueles que debatem o assunto do ponto de vista das comprovações científicas, que atestem se, de fato, sua utilização causaria algum tipo de problema ao animal e ao ser humano. É o que analisa o agrônomo Sergio Raposo de Medeiros, mestre e doutor em Ciência Animal e Pastagens e pesquisador da Embrapa Gado de Corte (MS).

 

“Um ponto que voltou à tona, como uma das reivindicações de algumas associações de classe relacionadas à produção de carne bovina, é a liberação do uso de implantes anabólicos, popularmente referidos como hormônios”, informa o especialista.

 

De acordo com ele, tais compostos anabólicos são amplamente utilizados nos Estados Unidos desde a década de 50, sem um relato sequer de problemas causados aos seus consumidores. Contrária a isso, a Comunidade Europeia (CE) continua proibindo a importação de carne anabolizada, sob a alegação da garantia da saúde de sua população.

 

“Os europeus evocam o “princípio da precaução”, que diz, de modo geral, que não basta não haver problemas, é necessário obter a comprovação da ausência de riscos. Os críticos dessa linha costumam argumentar que seria o caso de não viajar de avião, pois, apesar de ser a forma mais segura de transporte, ele pode cair”, compara Medeiros.

 

Conforme o pesquisador da Embrapa, “a CE mantém essa postura mesmo depois de três comitês de alto gabarito, formados na própria Europa para estudar o assunto, terem chegado à mesma conclusão: o uso de anabolizante, desde que seguindo boas práticas, é seguro. As boas práticas incluem, por exemplo: a correta dosagem, o local certo de colocação do implante e a eventual necessidade de um período de interrupção mínimo antes do abate (período de carência)”.

 

PROVA CIENTÍFICA

A Organização Mundial do Comércio (OMC) que, ao contrário da Comunidade Europeia, que se baseia no “princípio da precaução”, toma suas decisões baseadas na “prova científica”.

 

“Sendo assim, determinou à CE que retirasse o veto à importação de carne com hormônio, em 1997, ao acatar a reclamação dos EUA de que essa era apenas uma barreira não tarifária injustificável”.

 

Naquela ocasião, se os europeus continuassem com esse veto, os norte-americanos poderiam, legalmente, retaliar unilateralmente a CE, em um valor equivalente ao prejuízo causado pela restrição de acesso da carne norte-americana ao mercado europeu.

 

“A CE, mesmo assim, não mudou sua postura e essa disputa continua na OMC. No ano de 2008, a Organização Mundial do Comércio manteve a permissão para os EUA continuarem a retaliação, mas permitiu que a CE mantivesse o banimento das carnes com hormônio. O caso, portanto, se arrasta até os dias de hoje”, comenta Medeiros.

 

CENÁRIO NO BRASIL

No Brasil, de acordo com o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, o uso de compostos anabólicos foi proibido em 1986. Quatro anos depois, “por causa ‘Lei dos Crimes Hediondos’, o uso de hormônio passou a ser assemelhado a crime hediondo e tratado com a mesma severidade”. “Assim, o infrator, por exemplo, antes da condenação pode ser levado à prisão, independente de haver ou não fiança.”

 

Na visão de Medeiros, “a decisão de proibir o uso de substâncias anabólicas na criação de bovinos foi impactada pelo entendimento, naquela época, de que seria interessante ao Brasil atender, de antemão, uma exigência do mercado europeu, com o intuito de aumentar a exportação para aquele bloco de países”.

 

“A decisão de proibir o uso de substâncias anabólicas na criação de bovinos foi impactada pelo entendimento, naquela época (1986), de que seria interessante ao Brasil atender, de antemão, uma exigência do mercado europeu, com o intuito de aumentar a exportação para aquele bloco de países”, lembra o pesquisador da Embrapa Sergio Raposo, doutor em Ciência Animal e Pastagens. Foto: Divulgação 

 

“Ao contrário dessa expectativa, todavia, as exportações à CE têm se reduzido e, hoje, ela nem figura entre os principais importadores de carne bovina do Brasil, em termos de volume, ainda que o faturamento seja proporcionalmente maior, uma vez que os preços médios praticados são bem mais elevados do que a média do restante da carne comercializada para outros lugares”, analisa o pesquisador.

 

Mesmo assim, segundo ele, “não se deve perder de vista esse mercado, afinal, hoje são 500 milhões de consumidores de alto poder aquisitivo na Europa”.

 

INTERESSE DA CLASSE PRODUTORA

Conforme o agrônomo, “o grande interesse da classe produtora em liberar o uso desses insumos decorre de ser uma tecnologia que permite expressivas melhorias em ganho (de 5% a 20%) e eficiência alimentar (5% a 15%), conforme relatado por uma robusta literatura científica”.

 

“É importante dizer que os maiores diferenciais são obtidos com planos nutricionais mais elevados, como dietas de confinamento, e que a melhor eficiência ocorre pela alteração para uma composição corporal mais magra, ou seja, o animal irá depositar gordura mais tardiamente. Animais implantados, portanto, levam mais tempo para terminarem que os não-implantados.”

 

LIBERAR OU NÃO LIBERAR, EIS A QUESTÃO!

Conforme Medeiros, no cenário revelado até aqui se destacam: os implantes anabólicos não trazem risco à saúde; a CE não se tornou uma grande importadora da carne brasileira e hoje as compras do bloco não atingem 10% das exportações brasileiras; e o uso dos implantes é eficaz na melhora do desempenho e no aumento da eficiência alimentar.

 

“A esses três pontos, soma-se ainda o fato de o Brasil ser o único grande exportador de carne bovina que baniu o uso destas substâncias.”

 

No entendimento do pesquisador, “parece mais do que justificável reivindicar a liberação do seu uso”. “O fato é que, ainda que seja extremamente tentador, é necessário avaliar bem se vale à pena entrar nessa briga. Isso porque outro fator que pesou muito na decisão à época da proibição, além da mira na CE como potencial grande importador, foi a pressão da sociedade em função da preocupação de eventuais efeitos negativos à saúde ao consumir a carne de animais que tivessem recebido implantes anabólicos.”

 

Para ele, se houve nesses últimos 30 anos, desde a proibição de anabolizantes em bovinos, alguma mudança no consumidor quanto a desconfiar de novas tecnologias, foi apenas no sentido de ser muito mais aguçada hoje.

 

“A palavra hormônio no inconsciente coletivo remete a algo com grande poder transformador e com consequências perigosas, como alterações fisiológicas, anatômicas e comportamentais, bem como o risco de doenças sérias, como o câncer.”

 

Medeiros ainda ressalta que “entidades de defesa do consumidor, também, rumaram para o mesmo sentido, sendo hoje muito organizadas e atuantes”. “Com essa vigorosa atuação e a fácil adesão dos consumidores, devem-se esperar dias muito complicados até uma eventual liberação.”

 

ARTIGO

Originalmente escrito para a Scot Consultoria, o artigo “Hormônios: perder para ganhar”, escrito pelo pesquisador Sergio Raposo de Medeiros, foi liberado pelo próprio autor, por meio da assessoria de comunicação da Embrapa Gado de Corte, para publicação no site da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA).

 

Para quem deseja mais informações sobre o tema, o texto original e completo pode ser encontrado pelo link (encurtado): ow.ly/KjYP30cKXTH.

 

Por equipe SNA/RJ com informações da Embrapa Gado de Corte

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