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10.11.2017


Cooperativismo faz chover esperança

 

 

 

Há três anos, o Espírito Santo enfrenta uma das piores crises hídricas dos últimos 80 anos. Com o longo período de estiagem, a redução na produção agrícola de 2015 para 2016, em comparação à safra de 2014, superou dois milhões de toneladas, o que representa queda de 30% de toda a produção. Esse fato gerou perdas para o setor agrícola que ultrapassam R$ 3,6 bilhões, segundo dados da secretária de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (SEAG).

 

Nas regiões Norte e Noroeste do Estado, com forte vocação para produção de café e leite, os produtores sentiram de perto os efeitos da crise. Estudos feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a
produção do Café Conilon, tendo como base a safra de 2014, registrou uma queda de 40% se comparada com a projeção para 2016.

 

O número de sacas colhidas reduziu de 9,9 milhões, em 2014, para 7,7 milhões em 2015 e 5,9 milhões em 2016. Em valores, a perda ultrapassa R$ 2,2 bilhões. Na pecuária de leite, o drama se repete: em 2016 foram 30,4 milhões de litros a menos produzidos em comparação com 2014. 

 

O gerente de Agroecologia e Produção Vegetal da SEAG, Marcus Magalhães, frisou que, mesmo com as chuvas dentro da média, produtores ainda enfrentam dificuldades. "O Espírito Santo tem uma vocação agrícola muito forte e quando a economia vai mal na agropecuária, o Estado perde força. Passamos por uma das piores crises hídricas do nosso Estado e,  apesar de ter chovido neste ano dentro da média histórica, o nosso produtor rural ainda encontra dificuldade devido a falta de chuva nos últimos anos, especialmente na recuperação de lavouras e quitação de dividas contraídas para custeio”, afirma Marcus Magalhães.

 

 

No momento certo

 

Processo de recolhimento da silagem  (Foto: divulgação Veneza)


 

Diante de um cenário de seca persistente, os cafeicultores associados da Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel) e os pecuaristas que integram a Cooperativa Agropecuária do Norte do Espírito Santo (Veneza) instaladas nas regiões Noroeste e Norte, respectivamente, contaram com o suporte das cooperativas ao qual são associados.  

 

Para Marcus Magalhães, o cooperativismo tem o poder de agregar a sociedade na busca de um futuro mais promissor, por isso acredita no sistema cooperativo para superar o déficit hídrico e construir uma agricultura ainda mais forte. “Independente dos desafios hídricos das regiões o sistema cooperativo é muito importante para o desenvolvimento rural já que tem o poder de agregar a sociedade na busca de um futuro mais promissor. Somos parceiros e acreditamos no peso e na determinação do cooperativismo para superar o déficit hídrico e construir uma agricultura ainda melhor e mais forte”, conclui.

 

Durante o período mais crítico da falta de chuva, e com risco iminente da perca de rebanhos inteiros, a Veneza intermediou a compra de aproximadamente oito mil toneladas de volumoso, matéria prima para ração de gado, e repassou aos produtores a preço de custo, além de dar todo suporte para entrega e estocagem dos insumos.

 

(Foto: divulgação Veneza)

 

De acordo com o vice-presidente da Veneza, Erik Juliano Zottele Pagung, foi preciso adotar essa iniciativa para salvar os animais. “Tomamos essa medida não apenas para produzir leite, mas para a subsistência dos animais que estavam morrendo. Se não fosse essa ação muitos produtores teriam até mesmo abandonado a atividade leiteira”, ressaltou Pagung.

 

Há 30 anos trabalhando com produção de leite, o pecuarista Jader Reis, do Sítio Esperança em Vila Pavão, município com forte predominância da agricultura familiar, e uma produção média de até 300 litros/dia, por produtor, foi um dos beneficiados. Jader diz que a ajuda da cooperativa, mais que salvar os animais, renovou as esperanças. “Se não tivesse recebido esse socorro teria perdido todas as minhas vacas de leite, eu já não sabia mais o que fazer, meu gado estava sem água e praticamente sem comida quando tive a oportunidade de comprar silagem de milho por um preço bem mais em conta que o de mercado. Sem a Veneza não teríamos condições de atravessar essa seca. Além de salvar os animais renovei minhas esperanças em dias melhores”, relatou o produtor que, no auge da crise, chegou a perder 12 vacas.

 

Em São Mateus, o pecuarista Robledo Capucho, do Sítio São José de Barra Seca, também se favoreceu do incentivo para compra de volumoso. Robledo diz que não sabe precisar quantas toneladas comprou, mas garante que se não fosse essa medida seria preciso vender o rebanho, bem abaixo do preço, para não deixar morrer de fome. “Passamos por dias difíceis. Sem pastagem para alimentar o gado precisei vender 20 cabeças de bezerros por um valor muito abaixo de mercado, mas ainda assim era melhor que deixar morrer. Se não fosse essa ajuda nota 10 da Veneza, acho que seria preciso vender todo rebanho, mesmo tomando prejuízo, para não perder tudo com os animais morrendo. Nem sei dizer quantas toneladas foi preciso comprar, chegou um momento que a única comida do gado era a silagem”, salienta Capucho.

 

Ao todo foram atendidos 178 cooperados, residentes em propriedades situadas em 14 municípios onde a Veneza atua. Durante o período de seca prolongada, os serviços de assistência técnica também foram intensificados, especialmente no que se refere à redução de custos e aumento de produção.

 

 

 

Renovando as esperanças

 

Pior que a crise hídrica enfrentada pelos produtores foram os dias de incertezas. O coordenador técnico do Programa de Consultoria Técnica da Cooabriel, Perseu Fernando Perdoná, explicou que os técnicos foram o “ombro amigo” em que os produtores desabafaram suas angustias. “Os produtores estavam preocupados e bastante desanimados com a cafeicultura. As incertezas eram tamanhas, especialmente em relação às dívidas contraídas para a manutenção das lavouras. Sem retorno esperado, as dívidas só foram aumentando e, por várias vezes, os técnicos foram o “ombro amigo” em que os produtores desabafaram suas angustias”, salienta Perdoná.

 

O trabalho da cooperativa, junto aos cooperados, a curto médio e longo prazo está focado no planejamento da produtividade por área: menos área e mais produção. O desafio maior está na preservação e estocagem de água por meio de tecnologias de irrigação de baixo consumo, preservação de água das chuvas, construção de caixas secas, recuperação de nascentes e práticas de conservação do solo.

 

Cooperado há apenas três anos o agricultor Saulo José Anacleto Barbosa, do Sítio Olho D’água em Vila Valério, diz que a ajuda técnica da Cooabriel durante a estiagem foi fundamental. “Não foi fácil passar tanto tempo sem chuva,  nossas represas secando, confesso que fiquei atordoado. Foi nesse período que a assistência técnica da Cooabriel foi fundamental, fez toda diferença.  O técnico estava sempre na propriedade orientando o melhor horário para irrigar, quantas vezes por semana molhar o café, e até mesmo dando apoio para não deixar a gente desanimar”, explica.

 

Um dos projetos desenvolvidos é a recuperação da bacia do Córrego Refrigério em Nova Venécia. Consultores da cooperativa idealizaram e coordenaram, em meados de 2016, o plantio de 250 mudas de árvores nativas selecionadas em uma. O objetivo do projeto, segundo Perdoná, é restabelecer o ecossistema local e transformar a experiência em uma unidade modelo para recuperação de áreas degradadas.

 

No detalhe, a área de preservação. (Foto: divulgação Cooabriel)


 

“Nosso modelo de atendimento sempre foi fundamentado em práticas conservacionistas. Com o advento da seca o corpo técnico passou a dar ainda mais foco na conservação ambiental. O jornal da Cooabriel, na sessão Guia do Cafeicultor, passou a abordar temas voltados a esse assunto, tudo para motivar e ensinar o produtor preservar água”, esclarece Perseu.

 

Os irmãos Charles e Cleiton Bis Pettene, de Nova Venécia, fazem parte da lista de cooperados que aderiram ao incentivo recebido pela cooperativa para recuperar as nascentes da propriedade. “Só decidimos cercar as nascentes por incentivo dos técnicos da Cooabriel, se não fosse esse estimulo não teríamos feito. Apesar de saber que as águas estão acabando muitas vezes falta conscientização, e é justamente isso que estão fazendo, conscientizando o produtor”, diz Cleiton Bis Pettene. Charles e Cleiton cercaram uma área de aproximadamente 2 hectares. A propriedade dos irmãos Pettene fica na localidade Córrego Refrigério.

 

Alunos que receberam a visita de técnicos da Cooabriel. (Foto: divulgação Cooabriel)


 

Em agosto deste ano o assunto também virou tema de palestras nas salas de aula de escolas de seis municípios da região noroeste, principalmente da área rural, localizadas nas regiões de ação da Cooabriel. A consultora técnica e palestrante, Samara Cuquetto Batista, destacou que o intuito é informar e conscientizar os educandos quanto à crise hídrica e os cuidados com o uso da água. “Falamos de inúmeros assuntos, desde o uso da água, práticas conservacionistas, responsabilidade em produzir produtos de boa qualidade, problema do lixo, agrotóxicos. Mas nosso intuito é informar e conscientizar nossos alunos quanto à crise hídrica e os cuidados com o uso da água para que não falte”, ressalta Samara. Mais de 400 alunos receberam a visita de técnicos da Cooabriel.

 

 

por:

Rosimeri Ronquetti

 

 

 

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