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11.04.2018


Incaper incentiva o cultivo de Sementes de Milho Crioulo em Pedro Canário

 

 

Dona Didi é criadora de mais de 50 galinhas caipira e conserva as sementes para a alimentação animal em sua propriedade.     (Foto: Tatiana Caus/Incaper)


 

A equipe do escritório local do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) do município de Pedro Canário, no Norte do Estado, têm contribuído para a multiplicação de Milho Crioulo nas propriedades rurais locais. Produzidas pelos próprios agricultores familiares e com suas características nutricionais mantidas ao longo do tempo, as sementes crioulas, ou tradicionais, representam a base da agroecologia.

 

A possibilidade de introduzir do Milho Crioulo no município, surgiu a partir do entrosamento com os agricultores familiares ligados ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) durante o I Encontro Capixaba de Avicultura Caipira, realizado no ano de 2014, no município de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado. Desde então, os técnicos do escritório local do Incaper, os extensionistas Claudio Rodex Junior e Thiago Carvalho Nogueira inseriram nos planejamentos a criação do banco de sementes de variedades crioulas, a começar pelo milho Fortaleza.

 

Nesse sentido, o objetivo do banco de sementes é, além do aumento da disponibilidade de variedades crioulas em Pedro Canário, fornecer aos agricultores familiares a oportunidade de obtenção de tal material genético, principalmente para alimentação de galinhas caipiras, reduzindo custos com alimentação das aves, em virtude do alto preço do milho híbrido. “Atualmente temos apenas a variedade Fortaleza, mas estamos prestes a conseguir mais variedades crioulas, aumentando assim o banco de sementes no município. Nós acompanhamos, na medida do possível, os plantios realizados com suas respectivas colheitas, e temos orientado os novos plantios através da assistência técnica no campo”, explicou Thiago Carvalho.

 

A princípio eles foram até a propriedade agricultor Elenilton Lima Santos, do município de Pinheiros, e receberam cerca de dez litros do milho (em garrafas Pet) e repassaram para outros dois criadores de galinha, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Vanderlei de Oliveira e Eleandro Konoski. Desde o início do projeto, dez agricultores familiares (incluindo produtores de fora do município, de regiões próximas) já receberam as sementes, sendo que quatro deles as multiplicaram e já devolveram as mesmas quantidades recebidas ao ELDR, e os outros seis ainda estão cultivando o milho em suas propriedades.

 

O Milho Crioulo é todo o tipo de milho que não foi apropriado pela indústria, ou ainda variedades tradicionais que passam de geração em geração pelas mãos dos agricultores. Ou seja, as sementes se adaptam ao seu local de desenvolvimento, além de ter menor custo para o seu desenvolvimento, o que deixa o agricultor familiar autônomo de sua produção.

 

Ele se destaca especialmente por suas características nutricionais; é menos produtivo, porém com potencial de tolerância a pragas, doenças e fatores abióticos, ou seja, ele rústico; possui baixo custo de aquisição de semente por parte dos agricultores podendo inclusive, ser trocada por eles; é apropriado para agricultores com uso de baixo nível tecnológico; passam de geração em geração pelas mãos dos agricultores, os chamados “guardiães das sementes” e os próprios agricultores realizam seus experimentos no campo melhorando as características das cultivares ao longo dos tempos.

 

Além de alimentar os animais, com esse milho também é possível fazer várias receitas tradicionais da nossa culinária como a pamonha, mingau de milho, bolo, pães, cuscuz, a tradicional polenta, e entre outras e assim existe uma preocupação em resgatar receitas populares que são muito nutritivas.

 

 “Apesar de existirem muitas variedades de milho crioulo espalhadas pelo mundo, esse milho se destaca pela sua palatabilidade, ou seja, os grãos do milho crioulo são mais apreciados pelas criações como a galinha, peru e o porco caipiras, por exemplo. Além disso, os agricultores estão cada vez mais preocupados com uma alimentação mais saudável, preferindo produzir e consumir produtos livres de contaminantes químicos.   Nesse sentido, o nosso objetivo é que os agricultores sejam multiplicadores de um alimento totalmente sustentável”, disse Claudio Rodex Junior.

 

 “Conhecer, resgatar e produzir com sementes crioulas permite as famílias rurais, quilombolas e indígenas a desenvolverem um modelo de agricultura familiar que possibilite sua sustentabilidade, nas suas várias dimensões social, política, ambiental, cultural, organizativa, econômica e de integralidade”, completou Thiago Carvalho.

 

A criação de galinhas caipiras em Pedro Canário é uma atividade tradicional, porém voltada para pequenas áreas da agricultura familiar. A economia local é caracterizada pela diversificação de culturas, criação de gado e pela estruturação do comércio. No município encontram-se plantações de abóbora, mandioca, mamão, café conilon, cana-de-açúcar, pimenta do reino, olerícolas, eucalipto e goiaba, sendo que predominam, em termos de área plantada, cana de açúcar, eucalipto e criação de bovino de corte.

 

Claudio Rodex afirmou que ao longo do tempo a criação de galinhas caipiras tem diminuído e os agricultores estão desmotivados pela falta de incentivo. “O nosso foco é resgatar a atividade no município e quem sabe no Espírito Santo, oportunizando o produtor para que ele seja autossuficiente na produção do milho crioulo, além de ter uma reserva dessa variedade na propriedade, podendo multiplicar para a comunidade e para as futuras gerações”.

 

Na comunidade Dois de Julho, em Pedro Canário, a agricultora familiar e líder do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) a mais de 17 anos, a dona Edite França Barbosa - conhecida como “dona Didi” - recebeu do escritório local do Incaper, 1 litro e meio de milho crioulo e já retornou com cerca de 8 litros a fim de serem repassados novamente para outros agricultores locais.  

 

Didi é criadora de mais de 50 galinhas caipira e conserva as sementes para a alimentação animal em sua propriedade. “Nem um litro completo eu plantei porque eu ainda não tinha terra pronta para começar. Mesmo assim colhi mais de dois sacos de milho. Antigamente a gente plantava pela quadra da lua. Então, já é hora de plantar de novo porque a lua tá no minguante”.

 

Segundo ela, a escolha em receber o milho crioulo deu-se por ser uma semente de “origem”. “É um milho que veio das gerações mais antigas. Veio do meu pai, da minha mãe, dos meus avós. Podia ter chuva, podia ter sol que o milho não deixava de nascer com as espigas muito boas, resistentes, saudáveis. Eu aprendi com eles”.

 

Ela repassou o milho para um vizinho próximo que cultiva abóboras e agora possui três alqueires de milho crioulo. “Ele queria comprar as sementes de milho comigo, eu logo disse pra ele que jamais faria isso. Eu doei para ele tirar as sementes dos dele e doar para mais alguém também. O que Deus me deu com fartura, eu não posso vender. Além de tudo o meu vizinho merece ter uma lavoura saudável e que permite ele a continuar com uma tradição antiga. Ele é jovem e precisa, o quanto antes, compreender o gosto real do que a terra produz e isso dará a ele mais força de vontade e motivação para continuar”, contou.

 

Pela primeira vez, o escritório local do Incaper recebeu de dona Didi o milho da variedade “Cateto” que também será repassado. O próximo passo será avaliar a produtividade em quilos por hectare e futuramente construir um banco de sementes variadas, no escritório local e nas propriedades, uma vez que com seis meses de armazenadas as sementes ainda preservam as suas qualidades germinativas. 

 

“Na história das sementes, está também a história da humanidade. A partir da prática da agricultura, através da descoberta das sementes, os povos e o mundo evoluíram para o que vivemos hoje. Fixar moradia, produzir alimentos, organizar comunidades, tudo foi possível a partir da descoberta do poder das sementes, com a garantia de elementos como, a diversificação da produção agrícola, a construção do conhecimento agroecológico, manejo sustentável do solo, preservação da biodiversidade, acesso à água e a terra que garantem o direito de produzirem o próprio alimento, geração de trabalho, renda e saúde, resgate e valorização dos hábitos alimentares tradicionais a partir da produção familiar  e saberes construídos a partir da troca de experiências que permitem à mudança de paradigmas e atitudes”, lembrou Claudio Rodex.  

 

fonte: INCAPER ES

 

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