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13.06.2018


Agricultor comemora resultado com sustentabilidade e meio ambiente

O ‘Rei do Inhame’, Jandir Gratieri, dedicou 25 anos para tornar autossustentável propriedade em Área de Preservação Permanente em Alfredo Chaves

 

 

Leandro Fidelis

 

Quando Jandir Gratieri (52) provou ser possível cultivar inhame na mata atlântica, conquistando a cobiçada Indicação Geográfica (IG) para a região de São Bento de Urânia (Alfredo Chaves), quem conhece de longa data esse espírito incansável sabia que os projetos do agricultor não parariam por ali. Depois de tapar os ouvidos aos palpites técnico-científicos e usar a teimosia a seu favor, o “Rei do Inhame” se orgulha de, após 25 anos, ter conseguido conciliar sustentabilidade e meio ambiente para colher produtos mais naturais na propriedade.

 

A meta é garantir preços mais justos, com o reconhecimento pelos consumidores das particularidades com que inhame, uva, abóbora, banana, pêssego e pera asiática são produzidos no sistema agroflorestal implantado. Os cultivos ocupam apenas três hectares do sítio com área total de 15 ha, sendo os remanescentes de mata atlântica da Área de Preservação Permanente (APP) majoritários nesse espaço onde a natureza se reequilibrou.

 

A propriedade era do avô de Gratieri, foi passada para um dos filhos, que depois a vendeu. Em 1984, o agricultor e os irmãos a recuperaram, e a ideia de torná-la modelo foi ganhando corpo. O proprietário conta que até garantir a regeneração natural da floresta e, paralelamente, a produção agrícola foi preciso romper uma velha consciência. “Não está escrito que as áreas de APP têm que ser só mata. Isso é ultrapassado. Se nossos antigos degradaram parte dessa área é porque isso era permitido. Hoje, o ser humano vai ter isso como bem próprio”, afirma.

 

Para gerar renda com agricultura e sustentabilidade lado a lado, Gratieri ressalta a necessidade de um verdadeiro serviço de “engenharia”. A propriedade ganhou curvas de nível e estradas planejadas, entre outras infraestruturas. “Fui muito desacreditado por órgãos públicos e técnicos da área agrícola. No diálogo é muito mais fácil fazer isso, com o produtor sempre sendo protagonista e aplicando sua experiência. Mas isso não acontece da noite para o dia”.

 

Segundo o agricultor, além de reduzir em 70% o uso de agrotóxico, que era integral, o sucesso da iniciativa está também no retorno de animais há tempos não vistos no local. “Agora temos novamente a paca, que era caçada no passado, que voltaram para comer as peras. A jacupemba sai da mata primária e vem até as embaúbas se alimentarem daquilo que saiu da APP. Ainda vemos pintassilgos, sofrês e outros pássaros com acesso direto à água. É harmonia entre seres humanos, animais e vegetais”, comemora o agricultor.

 

 

 

Valorização

 

Os desafios do “Rei do Inhame” continuam, porque a próxima etapa é imprimir valor à produção, que vai para o mercado in natura ou processada. “O consumidor tem que entender que esse produto custa mais caro porque passa por todo esse processo envolvendo sustentabilidade e meio ambiente. Todo o investimento, que leva de dez a 25 anos, pode não se consolidar, não ser totalmente sustentável, se alguém não pagar por isso”, avalia Jandir Gratieri.

 

E a segurança alimentar almejada não é benefício só de quem está na ponta da cadeia produtiva. Para o agricultor, a família é a primeira a consumir o que sai da roça, mais um motivo de preocupação com a qualidade do produto. No sistema de manejo aplicado aos parreirais de uva, por exemplo, Gratieri explica que o fungicida é usado dentro do permitido pelo Ministério da Agricultura (Mapa). “Lidamos com seres humanos, e a primeira a comer o que a propriedade produz é a família, que está ali dentro. Se temos carinho com a família, por que jogar defensivo de qualquer maneira?”.

 

Ainda de acordo com o agricultor, com as propriedades rurais mais sustentáveis e preservadas, a permanência do jovem no campo estará garantida. “Se produzir qualidade e quantidade em menor área plantada, o jovem verá que isso é viável e rentável. E esse filho no campo vai poder agregar valor, vendendo os produtos processados. Não temos outra saída”, analisa Gratieri.

 

Sítio tem maior área plantada de pera asiática

 

Assim como o inhame já estava na região antes da chegada dos imigrantes italianos (*Leia reportagem de capa da edição nº10 no nosso site), a pera asiática tem uma história ligada a São Bento de Urânia. Era comum cada casa ter um pé da fruta no quintal. Jandir Gratieri viu possibilidade de novos negócios com a variedade e plantou cem pereiras na Área de Preservação Permanente (APP). A plantação é a maior do Espírito Santo.

 

Segundo o agricultor, trata-se de uma pera dura, suculenta, com paladar diferenciado, que suporta fogo no processamento no caldeirão de cobre, mas também é valorizada como fruta de mesa. Os testes com a pera asiática em compota já começaram, e a ideia é comercializar até 1.000 unidades por mês com a venda direta na propriedade, como já acontece com a uva e o inhame.

 

A safra da pera asiática começa em fevereiro e vai até abril. De acordo com Gratieri, uma planta leva de seis até oito anos para carregar e produz de 400 kg a 500 kg por colheita. No sítio da família, a produção da fruta é totalmente orgânica. “A safra deste ano ficou perto de quatro toneladas só nas plantas com carga total. Outras cem pereiras estão em fase de desenvolvimento e vão produzir a partir do próximo ano”, diz o agricultor.

 

A iniciativa deu tão certo que um tio de Jandir Gratieri plantou outras 150 plantas na área de APP. “As pessoas me perguntam quem é o engenheiro agrônomo que me dá assistência. Tenho o maior orgulho de dizer que o responsável sou eu”, gaba-se.

 

 

 

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