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13.09.2018


De grão em grão, Guaçuí prova que é terra de cafés especiais

 

 

De grão em grão. Assim Guaçuí vem mostrando que é sim, um município capaz de produzir cafés especiais. A prova veio no resultado da IV Mostra de Cafés Especiais, que aconteceu entre os dias  6 e 9 de setembro, durante a feira de negócios da cidade.

 

Nos quatro dias, houve cupping (prova) técnico e popular, oficinas de degustação sensorial e classificação de grãos e bate papo com os produtores.

 

Na avaliação técnica, os três primeiros colocados, que receberam as melhores pontuações, foram os cafés produzidos por Leandro Dessi de Paula (86.25), Nazário Lopes de Paula (85.64) e Vanderley Campos da Silva (84).

 

Acostumado a trabalhar com volume e não qualidade, seu Vanderley, dono de uma pequena propriedade na localidade de Cachoeira Alta, distrito de São Miguel do Caparaó, mal escondia a satisfação. Para ele, que começou a trabalhar com a produção de café especial há apenas três anos, essa terceira colocação é um “bronze que vale ouro”.

 

“No primeiro ano, fiz uma quantia pra ver se eu era capaz, e consegui. No segundo ano eu fiz beirando uns dois sacos, mas para o consumo de casa mesmo. Então, agora fiz uma quantidade maior dele, que já dá para o mercado”, conta.

 

Homem simples, mas com a sabedoria que só a terra dá, estava acompanhado da filha Gerlane Almeida Silva, segundo ele, sua grande incentivadora a se arriscar em um novo conceito de produção.

“Tô muito satisfeito né, porque valeu a pena. E, se eu ficasse desclassificado com o meu café, ainda tentava fazer outra vez, pra ver se a gente chegava lá, porque o negócio é na luta. Temos que lutar, senão não vencemos”, nos ensina ele, que pretende continuar trilhando o caminho dos cafés especiais. “Para o ano que vem, pretendo continuar. Eu ainda não entrei no mercado com esse café, mas, pelo que vejo da história, vejo que compensa”, completa seu Vanderley.

 

Cupping técnico 

Este ano, o cupping técnico, aquele que pontua e classifica os cafés especiais, não poderia ter sido melhor selecionado. Destaque para o casal Leo Moço e Estela Cotes. Reconhecidos e premiados nacionalmente, são os responsáveis pela Cafeteria Moço, em Cutiriba, além de compradores de cafés especiais.

 

Ambos fazem parte de um seleto grupo de baristas brasileiros capazes de ditar tendência e tornar conhecido um determinado café. Saíram de Guaçuí interessados nos grãos produzidos por Nazário. Um detalhe, coincidência ou não, os três cafés melhor classificados nessa IV Mostra, são de São Miguel do Caparaó. Bendito seja!

(*Foto Incaper)

 

Para Maxwel Assis de Souza, chefe do escritório do Incaper no município, a produção local de cafés de qualidade deu um salto considerável em um curto espaço de tempo. “A gente teve um crescimento muito grande, são dois anos apenas da primeira mostra para essa agora. Acho que a participação dos cafeicultores aumentou, ampliou este ano”.

 

Segundo Max, a programação da mostra também foi um diferencial importante para atrair os produtores.  “A gente conseguiu diversificar com oficinas práticas para esses cafeicultores começarem a ter um pouco mais de noção do produto que eles têm na mão, para ajudá-los, porque se eu conheço o que tenho, passo a ter também facilidade em dialogar com quem quer comprar o meu produto”, concluiu ele.

 

Para seu Vanderley, essa troca de saberes foi uma experiência única. “Isso ajuda a qualificar a gente, que aprende mais a trabalhar com esse café, o que é muito trabalhoso. É um novo conhecimento”.

 

Júri Popular

E, aparentemente, não são apenas os “especialistas” que sabem reconhecer um bom café. No terceiro dia da mostra, com os cafés já pontuados no cupping técnico, houve a prova popular que, claro, teve uma pegadinha.

 

Entre as 11 garrafas dispostas e identificadas apenas por números, 10 delas continham os cafés participantes do concurso, todos especiais, e uma garrafa com o café de uma “marca de supermercado”. Quem se aventurou, experimentou todas e, no fim, escolheu a garrafa que mais lhe agradou.

No fim, o café da garrafa número 7, produzido por Nazário de Paula, segundo colocado no cupping técnico, foi o favorito. Na sequência, vieram os cafés das garrafas 11, de Leandro de Paula, e 1, produzido por Edmar Montoni Ferreira, que obteve 81.33 na classificação geral do júri profissional.

 

“O reconhecimento do público no júri popular, mostrando que não é o café de mercado que mais chama a atenção,foi decisivo. Ele teve apenas um voto das 82 pessoas que participaram. Isso pra nós é importante e vem reforçar que o caminho que nós estamos seguindo está correto”, destacou o chefe do Incaper.

 

Beba um Caparaó 

Dentro da IV Mostra de Cafés de Qualidade, aconteceu o lançamento da campanha “Beba um Caparaó”, um movimento que promete conquistar o coração de todos.

 

No domingo (9), último dia da mostra, produtores e interessados puderam participar de uma oficina de degustação guiada com Hugo Wolff, da Wolff Cafés, que literalmente vestiu a camisa da campanha.

Hugo é uma dessas pessoas iluminadas. Vem de uma família boa, é engenheiro por formação e ex-oficial da Marinha do Brasil. Mas, a alma de artista falou mais alto que o pragmatismo de um futuro garantido. Em 2010, deixou isso para trás.  Saiu do Rio de Janeiro, onde então morava, e decidiu se dedicar à sua verdadeira paixão.

 

Voltou para a propriedade da família (seu pai já plantava café, mas no modelo commodity), em Ibiraci, Minas Gerais. “Eu já fui produtor, tenho uma empatia muito grande com eles. Na primeira safra perdi 10 quilos de tanto trabalhar. Eu sei o que é a lida”, conta Hugo.

 

Visionário, cinco anos depois fez outra mudança. “Eu cheguei em São Paulo em 2015 para montar uma empresa, e os primeiros lotes que eu levei, diferentes dos da minha fazenda, foram daqui do Caparaó. ”

 

Com dois amigos criou a Wolff Café, que torra e comercializa cafés especiais para as melhores cafeterias do país e também no exterior. Ele não faz blends (misturas), escolhe cafés de origem única, puros. Percorre o país em busca de qualidade e sabor. Pelo caminho, faz o que fez no último fim de semana em Guaçuí: transfere conhecimento.

 

Conhecendo o terroir

Hugo considera de suma importância que o produtor entenda o conceito e a importância do seu terroir (palavra francesa “emprestada” da vinicultura e sem tradução em outro idioma, que, numa interpretação livre, significa entender a relação entre o solo e um microclima particular, que concebe o nascimento de um tipo único de grão).

 

“Se a gente pensar que há dez, cinco anos não existia ninguém fazendo prova de xícara, degustação guiada, fazer isso mostra para os produtores que há uma nova tendência. O produtor, antigamente, não sabia o que vendia. Ele só ouvia uma frase: bebida dura e riado. Hoje, ele ouve sobre sabores, aromas, de café especial, de mercado consumidor, de que torras  diferentes do mesmo grão podem atingir públicos diferentes, isso para ele é maravilhoso”, acredita Wolff.

 

E ele está certo! Poucos produtores sabem como o café deles é avaliado, o que os especialistas levam em conta e o peso de cada detalhe na pontuação final. No geral, quem planta não sabe o que acontece depois na cadeia do setor, onde baristas se capacitam e se qualificam cada vez mais para valorar o produto dele.

 

“Eu, por exemplo, não tenho o menor interesse em não levar isso para o produtor. Eu quero que o produtor saiba de tudo, de como pontua, de como é a vida do café dele no meu estoque”, explica Hugo.

“Igual eu peguei o exemplo do Leo Protázio que, no primeiro ano que eu provei, o café dele oscilou muito. Depois a gente foi identificar que a questão era na secagem. No ano seguinte, o café dele estava oscilando mais ainda. No terceiro ano, o lote dele foi o melhor lote do meu estoque. Eu tenho uma gratidão a ele, uma alegria de transferir conhecimento, de ter ido lá, porque o mercado só cresce com isso”, complementa.

 

Cafés de Guaçuí

Sobre o que experimentou na mostra, Hugo se disse surpreso. “Eu não esperava encontrar cafés neste nível de qualidade. Conheci o café do seu Wanderley do ano passado e está muito parecido com o deste ano. Mas os outros dois (referindo-se aos cafés de Leandro e Nazário) eram bem diferentes do que eu imaginava encontrar. Cafés com boa complexidade, com boa textura. Realmente são cafés especiais bem interessantes para consumo local, regional e em outros lugares.

 

Teve um outro barista (Leo Moço) que se interessou muito por um dos cafés. Ele é um cara importante no mercado e o interesse dele mostra que o café é bom. Levando para a cafeteria dele, se ele comprar, aparece o nome de Guaçuí no mapa. Hoje existem poucas pessoas como ele e quando esse lote aparece na cafeteria dele ou em outras cafeterias de nome, também aparece a região, então, ver cafés com potencial de ir para o mercado consumidor no melhor nível, me deixa muito feliz. Aqui tem muito potencial mesmo”, finaliza.

 

Beba um Caparaó

E é justamente colocar o nome não só de Guaçuí, mas de outros 15 municípios capixabas (além de seis do lado de Minas Gerais) no mapa, o objetivo da campanha Beba um Caparaó.

 

Uma das idealizadoras da campanha, a produtora Cecília Nakao, se mostrou satisfeita com a repercussão, mas destacou que as pessoas ainda não perceberam sua grandeza. “A gente está falando do desenvolvimento da região. A partir do momento em que as pessoas passem a entender melhor, que a gente consiga mais consumidores entendendo o que é café especial, provando esses cafés dos produtores, isso vai desenvolver a nossa região, vai gerar mais impostos, o setor público também vai passar a ter mais atenção a esses cafés e a esses produtores”, comentou.

 

Avaliação parecida faz Hugo Wolff. “É um mercado novo, um mercado onde não tem, às vezes, tantos compradores altruístas. A gente está acostumado a ver todo o tipo de negociação, onde o produtor muitas vezes é desfavorecido, seja de forma intencional ou não”.

 

Indicação Geográfica

Daí a importância da luta pela obtenção do selo de Indicação Geográfica do Caparaó. Muito mais que um pedaço de papel, a IG é uma estratégia de marketing poderosa.

 

“Estamos trabalhando com a chancela da indicação geográfica. Vamos protocolizar no final do ano o pedido de identificação de origem dos cafés do Caparaó. Pensa bem quantos produtores vão estar envolvidos nisso. Mas até a gente conseguir o selo, toda a parte burocrática, isso leva um tempo e os produtores não conseguem esperar”.

 

Cecília está certa, produzidos com muito mais trabalho e exigindo dedicação especial, o café especial ainda é considerado “caro” por quem está acostumado ao café normalmente comercializado no país.

De acordo com ela, a campanha também é para que mais pontos comerciais como padarias, restaurantes e hotéis passem a oferecer o café do Caparaó. “O turista vem e toma um café que é de péssima qualidade. Não precisa servir um café de 85 pontos, pode ser de 80, 81 pontos, o que já é considerado café especial. Por que as torrefações não compram esse café, torram e oferecem isso? Tonam mais fácil o acesso. E se o setor público passar a oferecer um Caparaó para uma visita que vem para conhecer? É o empoderamento da região que estamos buscando”.

 

Na boca do povo 

Neste ponto, Cecília faz uma autocrítica: “eu acho que estamos falhando numa coisa, a gente tem que distribuir. Nessas feiras, nesses encontros, a gente tem que passar a distribuir nosso café. Não adianta apenas falar beba um Caparaó, sem a pessoa nunca ter tomado um.

 

A partir do momento em que ela provar,  pode até reduzir o volume de café que vai tomar diariamente. Pode fazer o café no final de semana, receber um convidado especial, uma visita de um parente e pensar: ah, está vindo gente de fora, vou servir um Caparaó! E explicar que ele é isento de defeito, que ele é microlote, é artesanal e feito com muito cuidado”, conclui a produtora.

 

Ou seja, é necessário que a xícara, mais que a bebida em si, contenha uma história, uma experiência única e especial. (*Texto de Lucia Bonino- Aqui Notícias)

 

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