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Mulheres no Agro


A voz das invisíveis

A história de mulheres que, com informação e microcrédito, saíram da linha de extrema pobreza e transformaram a própria realidade no meio rural

Por Leandro Fidelis e Rosimeri Ronquetti
4/05/2021 7h00
Atualizado em 11/05/2021 11h24

De "invisível" à peixeira conhecida em Mantenópolis: Valdineia Almeida da Silva (33) celebra o milagre dos peixes do pesqueiro que ampliou com suporte do Projeto Dom Helder Câmara. (*Fotos: Leandro Fidelis/Conexão Safra- *Imagens com direitos autorais)

Elas têm nome, sobrenome, carteira de identidade e endereço fixo, mas a distância da cidade e dos órgãos de apoio dos governos por muito tempo fez delas mulheres invisíveis.

Além de representarem milhares de famílias do meio rural no Espírito Santo, o que mais Valdineia (Mantenópolis), Marineuza (Pinheiros), Izamara (Conceição da Barra), Heliamar (Água Doce do Norte) e Telma (Boa Esperança) têm em comum é o fato de não serem percebidas pela sociedade. E como chegamos até elas é o que vamos contar nesta reportagem especial.

As agricultoras estão entre as 1.577 famílias capixabas selecionadas para participar do Projeto Dom Helder Câmara, executado pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e pela Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater).

O extensionista e coordenador do projeto pelo Incaper, Ivanildo Küster, explica que o objetivo do ‘Dom Helder’ é atender justamente o público “invisível”, ou seja, o proprietário rural que não é assistido pelas empresas privadas e nem pelo serviço público, com raríssimas exceções.

“Na maioria das vezes essas famílias são invisíveis para a sociedade. Nós extensionistas passamos a conhecer a realidade de muitas delas a partir do projeto, o que nos trouxe preocupações, pois muitas vezes presenciamos situações que nos deixaram perplexos”, relata o coordenador.


Küster ressalta ainda que, além do recurso financeiro e da extensão rural, o projeto levou a esperança de uma vida melhor.

“Essas famílias não receberam apenas dinheiro e conhecimento de práticas agrícolas, mas também informações sobre acesso a direitos básicos, princípios educacionais para jovens e adultos com objetivo de alterar hábitos e mudanças de pensamento. Receberam o que talvez tenha sido o mais importante: a esperança de uma vida melhor”, explica.

“O programa renovou todas as nossas esperanças. Aconselho todo mundo a procurar ajuda porque o ‘Dom Helder’ transforma muitas vidas”, afirma Telma Oliveira da Silva (39), cafeicultora do município em que até o nome inspira: Boa Esperança.

Estudos publicados em 2019 na revista “Policy in Focus” intitulada em inglês “Rural poverty reduction in the 21st century” (“Redução da pobreza rural no século 21”) apontam que cerca de 80% das pessoas extremamente pobres no mundo vivem em áreas rurais.

O agronegócio capixaba é destaque nacional. E a “Conexão Safra” vem contando isso ao Brasil sem distinção entre o agricultor familiar e o grande proprietário de terras. A diferença desta vez foi dar voz a quilombola, jovem rural e mulheres transformando pequenos espaços em fonte de renda no meio rural.

Após quase quatro meses de produção, pesquisa e muitas mensagens trocadas com os extensionistas do Incaper, rodamos 670 km pelo norte e noroeste do Estado- cortando 17 municípios capixabas e um mineiro- para conhecer essas histórias de vida, empoderamento feminino e superação no campo. Confira!

CONCEIÇÃO DA BARRA

A água que rega o quilombo

Com acesso pela estrada da Vila de Itaúnas, em Conceição da Barra, a comunidade Angelim 2 foi o refúgio de muitos negros no período da escravidão no Brasil.

Os plantios comerciais de eucalipto no caminho parecem proteger as dezenas de famílias quilombolas do lugar. Mas a paisagem é muito atual para imaginar qual seria a barreira natural dos cativos para evitar o trabalho forçado e manter as tradições longe da vista do homem branco.

É ali que vive Izamara dos Santos de Oliveira (38), casada e mãe de seis filhos. A descendente de escravos nasceu em Angelim 2 e sempre viveu da agricultura.

Izamara é uma das “guerreiras” da comunidade, onde sempre foram as mulheres que “batalharam na horta, na roça, no pesado”, enquanto os homens continuam a sair para trabalhar na cidade.

As diversas plantações de urucum, aipim- só para citar as mais tradicionais entre os quilombolas- e de verduras e legumes não prosperavam com a escassez de água para irrigação. Até que Izamara viu “raiar a liberdade no horizonte” quando o Incaper lhe apresentou o Projeto Dom Helder Câmara.

O fomento em dinheiro permitiu à agricultora reformar a horta orgânica, comprar enxada, mangueira e caixa d’água há um ano e meio. A irmã, Ivamara, é outra beneficiada pelo programa.

Para Izamara, o recurso fez toda a diferença na vida da família.

“Eu não tinha condições financeiras para fazer o que foi feito aqui na horta. Os equipamentos melhoraram a produção, que precisa muito de água. Antes, eu plantava e os legumes e verduras murchavam porque não tinha como molhar. Não dava aquela coisa bonita. Às vezes eu semeava as sementes, que nem nasciam por falta d’água. Eu tinha que trazer de regador”, diz.

Pandemia

A pandemia da Covid-19 por pouco não isolou ainda mais Izamara e outros moradores do quilombo.

Os agricultores entregavam alimentos para a merenda escolar e participavam da feirinha de Conceição da Barra. Desde o início do surto da doença, as entregas foram reduzidas. E com o kit merenda, os pedidos são mais escassos que antes da suspensão das aulas.

A Suzano, que apoia a construção da Casa de Farinha em Angelim 2, também ajudou com a realização de uma feira on-line.

“Chegou a estragar muita verdura, que foi usada para alimentar porcos e galinhas. E vender por telefone não é a mesma coisa que presencialmente”, afirma.

Apesar das dificuldades, Izamara nos dá um sorriso gratuito e verdadeiro. Uma mulher que se sentia invisível antes de ser selecionada pelo ‘Dom Helder’ e que nunca deixou de sonhar.

A curto prazo, a agricultora quer terminar a casa, “bater uma laje”, para viver com mais conforto com cinco dos seis filhos. É a tradução da qualidade de vida almejada com a renda da horta orgânica.

O outro sonho é uma vida mais digna para os jovens pretos no campo.

“Gostaria de ver meus filhos e netos vivendo como fui criada. Infelizmente, os adolescentes quando completam 18 anos querem ir embora e arrumar serviço na rua. Eles pensam: ‘isso não é pra mim, não aguento isso não’. Mas a gente tenta o máximo possível mostrar pra eles que a tradição tem que continuar. Deveria haver mais projetos que incentivassem os jovens a permanecer no campo, mas podendo fazer faculdade no lugar onde vivem”, conclui Izamara.


PINHEIROS

A esperança que vem da ‘Flor da Paixão’


Nossa segunda parada é a localidade de 15 de Maio, na zona rural de Pinheiros. Apesar de pertencer ao município, fica a apenas 12 km do centro de Pedro Canário.

Depois de cortarmos lavouras de café conilon e pimenta-do-reino (preenchendo a paisagem plana típica do Extremo Norte capixaba) encontramos a casinha verde onde moram Marineuza Rodrigues de Brito (59) e o filho caçula, Romário Barreto Martins (24), duas joias inspiradoras da agricultura familiar do Espírito Santo.

E se para Marineuza ela é o “caroço do abacate” na vida do jovem para tocar as atividades no Sítio Santa Maria (onde herdou 1,5 alqueire do pai) é a flor do maracujá que brota esperança para a dupla.

A agricultora foi contemplada pelo Projeto Dom Helder Câmara e escolheu implantar uma lavoura irrigada com 120 pés da fruta. O recurso contribuiu para adquirir calcário, arame, estacas de eucalipto tratado e criar um setor de irrigação com 21 aspersores.

Além do maracujá, mãe e filho aproveitam o terreno com rotação de cultura, não deixando faltar quiabo, maxixe, aipim, milho, feijão de corda, abóbora, batata doce, abacaxi, melancia, sem contar café conilon, pimenta-do-reino, banana e cacau. Aram o terreno e plantam a área novamente assim que finalizam a colheita de uma das culturas.

A Flor de Maracujá simboliza a Paixão de Cristo, por isso é também conhecida como “Flor da Paixão”. Conta-se que, ao chegarem à América, os missionários europeus se encantaram com a exuberância da flor e associaram alguns dos elementos da planta ao calvário de Cristo.

Transformação

Nesta área de abrangência da Superintendência para Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que também conta com a forte atuação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a seca sempre foi realidade para os agricultores.

Na família Brito, as coisas começaram a mudar nos últimos oito anos com a introdução da irrigação no café, no mesmo terreno cultivado com feijão e milho.

Um irmão de Marineuza deu uma bomba d’água para ela e o filho aumentarem a produção de feijão e venderem junto com ele na feira. Mas a colheita era tão inexpressiva que a dupla não conseguia atender à demanda pelo grão.

A agricultora e Romário queriam ir além. A ideia era transformar uma área improdutiva devido à escassez de água com a implantação de uma nova cultura. O fomento do ‘Dom Helder’ foi decisivo, pois permitiu cultivar com sucesso o maracujá.

“Toda semana a gente leva maracujá para a feira no carro do meu irmão. O Projeto Dom Helder foi muito bom na minha vida”, diz Marineuza.


O acesso à assistência técnica de um órgão público só chegou com a benção do programa. A família recebeu orientações para análise do solo para adubação correta e o manejo sanitário do maracujá.

“Antes do benefício do projeto, a informação era muito vaga quando a gente relatava um problema na lavoura para os técnicos. Só tínhamos a internet como fonte de pesquisa”, afirma Romário, que também é o atual presidente da Associação dos Pequenos Agricultores do 15 de Maio e Região (Apaqmar).

Além da feira em Pinheiros, os agricultores entregam legumes e verduras para o programa de Compra Direta de Alimentos (CDA), voltado a instituições sociais, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

A pandemia dificultou muito a comercialização. No início, mãe e filho ficaram um mês sem vender, mas não chegaram a perder a produção, que foi doada em família.

Em abril deste ano, mais três semanas amargas por conta do “lockdown” no Estado. A dupla se desdobrou como pôde, vendendo mais barato que na feira e para supermercados da região.

“A pandemia atrapalhou demais os trabalhos dos dois lados. Do nosso, não era possível ir até os produtores fazer os acompanhamentos da forma como estavam programados. Do outro lado, eles reduziram as vendas por não poder sair de casa para comercializar os produtos, frutos do projeto”, destaca o extensionista local do Incaper, Joessé de Oliveira Junior.

E aos poucos, o passado de humilhações de quando mãe e filho colhiam café nas fazendas da região vai ficando para trás. Marineuza diz se orgulhar do caçula e que continua o ensinando a lutar pelos sonhos dele. Um sonho a quatro mãos e extraído da terra.

“Sempre expus as dificuldades para o meu filho, o que devemos fazer para manter nossa casa, não passar vergonha devendo e ter o nosso nome limpo. Graças a Deus estamos vencendo, só vitória. E o Projeto Dom Helder aqui deu certo!”.


BOA ESPERANÇA

Paraense conhece o café e desiste da cidade

Gratidão define o sentimento da cafeicultora Telma Oliveira da Silva (39), de Boa Esperança, com o benefício do Projeto Dom Helder Câmara.

“O 'Dom Helder' foi a melhor coisa que aconteceu desde a minha chegada ao Espírito Santo. Meu esposo vivia querendo voltar para São Paulo, onde moramos e tivemos nosso casal de filhos. E foi um sonho ser contemplada. Quando o Ivanildo (Incaper) chegou com a notícia eu até chorei e nem acreditei. ‘Pode preparar as coisas que você vai plantar seu cafezinho’, ele disse. E a partir deste momento, tudo começou a acontecer. Um incentivo maravilhoso que melhorou nossa vida”, conta.

Paraense de Marabá, Telma conheceu o marido, Dyoni de Miranda Santos (38), na capital paulista. Ele saiu ainda jovem do Espírito Santo para tentar a vida na “Selva de Pedra”.

Dyoni não ganhava mal. Porém, a bronquite asmática da primogênita, Letícia (11), ficou cada vez mais prejudicada pela poluição da maior cidade da América Latina.

“A Letícia foi internada várias vezes enquanto eu ainda estava grávida do caçula. Ali foi o meu limite”, lembra.

O agravamento da doença da filha e a sogra em tratamento de câncer pesaram na decisão dela e do marido se mudarem para o Estado. O casal e os dois filhos chegaram a morar em casa emprestada por um fazendeiro próximo da família dele, na localidade de Cinco Voltas, interior do município.

Foi um período difícil, trabalhando como meeiros, mas, dois anos depois, a mãe de Dyoni dividiu as terras entre os filhos e um novo horizonte surgiu. A filha da Amazônia nunca tinha visto um pé de café e é justamente o “ouro verde” que permite a Telma concretizar seus sonhos com o apoio do ‘Dom Helder’.

Com os R$ 2.400 do fomento, Telma preparou o terreno, comprou adubo natural e plantou 1.000 pés de conilon com a assistência técnica do Incaper. “Veneno, só pra matar o mato”.

Um ano depois, com a documentação da propriedade legalizada, o casal conseguiu, por meio de cada CPF, o crédito de R$ 5.000 do Pronaf B, via Banco do Nordeste, para investir em irrigação.


A lavoura está em pleno desenvolvimento. Enquanto não ocorre a primeira catação, Telma faz renda com banana, abóbora, aipim e milho verde plantados entre as carreiras de café. Vende tudo na feira semanal, para onde ainda leva pamonha e bolo de milho.

“Antes da pandemia, eu fazia R$ 200 por sábado na feira”, diz”.

Apesar da suspensão da feira, o casal continuou cuidando das lavouras e mantendo as entregas de verduras e legumes sob encomenda por telefone.

E fazendo jus ao nome do município onde conhecemos essa heroína, é da boa esperança e da fibra firme como a juta amazônica que Telma promove sua revolução tímida na roça onde vive mais feliz com a família.

“Vamos plantar mais mil mudas de café e duzentas de pimenta-do-reino. Se Deus quiser, dentro de algum tempo isso vai se transformar em algo muito maior”, aposta.

Além da sonhada casa, outra prioridade da cafeicultora é implantar a fossa séptica e garantir adubo para a lavoura.

“O 'Dom Helder' foi mais que um empurrão. Foi essencial para a gente mudar de vida. Agora vamos poder fazer nossa casinha através das portas que o café vai abrir. O programa renovou todas as nossas esperanças. Aconselho todo mundo a procurar ajuda no Incaper, porque o projeto transforma muitas vidas”.


ÁGUA DOCE DO NORTE

500 pés de café e o sonho de fazer qualidade


A reportagem da “Conexão Safra” pega a estrada pelo segundo dia de incursão no noroeste do Espírito Santo.

Com o trocadilho, no segundo dia fomos direto à fonte em Água Doce do Norte, no noroeste do Estado, para uma prosa com Heliamar Alves (42). Uma mulher rural que faz muito com pouco na comunidade da Cabeceira do Córrego do Garfo, a 14 km do centro.

O projeto dela é pura ousadia: produzir café de qualidade. A chance de colocá-lo em prática foi o recurso financeiro do Projeto Dom Helder Câmara para plantar 500 pés de conilon a partir de novas e diferenciadas práticas agrícolas sob assistência do Incaper.

A agricultora e o marido, Juarez Inácio da Silva (47), já cultivavam 1.500 pés que nunca chegaram a produzir pra valer pela inexperiência com a cultura. “Já faz quatro anos que nem chega a fazer colheita”, conta ela.

Heliamar conta que soube do programa por meio de uma amiga e logo procurou o escritório local do Incaper para se informar.

“Vi que era verdade e foi muito bom, porque se não fosse o recurso, não teria condições. O dinheiro deu para arrumar a terra, comprar as mudas e o adubo e, com orientações, limpamos o terreno que era tudo capoeira. Foi um ‘empurrãozão’ pra frente, e agora é continuar firme. O que a gente colher a gente quer investir. O ‘Dom Helder’ faz a gente sonhar”.


Heliamar e Juarez vivem na propriedade que ele herdou na divisão da terra dos pais entre sete filhos. A localidade fica bem próxima à divisa com Minas Gerais (a 30 km de Mantena). O casal mora no mesmo terreno há 12 anos e trabalhava como diarista a 7 km dali.

“A gente não tinha apoio nenhum não. Quando solicitava assistência técnica ouvia: ‘outro dia eu vou’, mas esse dia nunca chegava. Através do projeto, aprendemos a fazer análise da terra, desbrotação e poda programada. Se quando a gente plantou a primeira lavoura tivesse feito o mesmo procedimento dos 500 pés, estaria bem melhor. Agora tá cheinho de café”.

Café bebida


Longe de tudo. Quase invisível. Heliamar tinha tudo para não dar certo.

“Trata-se de uma família bem excluída, que muito dificilmente iria se desenvolver sem a assistência do ‘Dom Helder’. A visão que eles aprenderam foi o maior ganho. Viram na prática, a partir das 500 plantas, como aplicar conhecimento numa pequena área. Heliamar e Juarez não têm vício em bebida e drogas. Infelizmente, muitas famílias atendidas pelo programa não foram para frente por causa desses problemas”, avalia o extensionista do Incaper de Água Doce do Norte, Carlos Marcos Alves dos Santos.

E Heliamar enche de positividade sua labuta diária. É porque vê além do alcance. A meta é, na primeira catação dos 500 pés, colher “madurinho, não deixar azedar no terreiro suspenso...”. Participou de três cursos e decidiu aprender mais sobre cafés de qualidade.
O estalo veio após um evento em Mantenópolis antes da pandemia.

“Vi um produtor no meio de tantos ganhar um prêmio de qualidade. Pensei: ‘não preciso ir tão longe para fazer o mesmo aqui’. Depois que descobri ser possível fazer café de bebida com conilon, não penso em outra coisa. E o projeto ‘Dom Helder’ me fez sonhar”, diz a cafeicultora.

Os primeiros grãos maduros já começaram a aparecer. A primeira catação está prevista para maio deste ano, mas a quantidade produzida não irá indicar o potencial produtivo da lavoura modelo.

Porém, o extensionista do Incaper de Água Doce do Norte estima colheitas futuras com média superior a 80 sacas/hectare (a parte do casal na propriedade é de 3 alqueires, o equivalente a 2,72 ha).

“Acredito que essa família vá chegar a dez mil covas de café”, prevê Carlos Marcos.

Com as previsões otimistas, a ideia do casal é melhorar as lavouras já existentes e, com a soma da produção dos 500 pés do ‘Dom Helder’, colher 20 sacas/ha em 2022.

A venda dos grãos da primeira catação do projeto pioneiro “será reservado para o adubo do ano inteiro e remédios para a lavoura”. E o casal quer plantar mais um pedaço.

“Se eles tivessem plantado numa área maior, não teriam recurso para custear a lavoura e poderiam até abandoná-la. A visão que o casal tem hoje é o maior ganho. Uns agricultores até têm conhecimento, mas na ganância de fazer um projeto grande voltam à estaca zero”, conclui Carlos Marcos (Incaper).

Heliamar diz gostar de aprender e compartilhar conhecimento com outras mulheres. Uma revolução feminina na cafeicultura está por vir. E onde a “água é doce”, cafés adocicados naturalmente poderão virar notícia.



MANTENÓPOLIS

A multiplicação dos peixes na ‘Cidade da Paz’

E para chegar ao último município do roteiro, precisamos contornar por Minas Gerais para voltar ao território capixaba.

A divisa do noroeste do Espírito Santo com Minas é tão sutil que só nos damos conta ao avistar, na rodovia com sentido a Governador Valadares, o monumento que lembra a Guerra do Contestado.

Entre as décadas de 1940 e 1960, a região foi alvo de disputas sangrentas entre mineiros e capixabas. É por isto que tem Mantena, em Minas, e Mantenópolis, no Espírito Santo. E agora nosso destino, Mantenópolis, é conhecido como “Cidade da Paz”.

Chegamos ao município pelo caminho mais curto, porém mais desafiador, a estrada de terra da Serra do Turvo. No meio do caminho, no Córrego das Flores, vive a piscicultora Valdineia Almeida da Silva (33).

Casada, mãe de dois filhos e criada na roça, Valdineia exala felicidade por ser mulher rural. Um sentimento potencializado ainda mais depois de atendida pelo Projeto Dom Helder Câmara para tocar a criação de peixes na propriedade.

O sítio pertence à família desde 2003 e já tinha um pesqueiro pequeno para consumo próprio. Com o recurso, a piscicultora contratou o serviço de retroescavadeira para aumentar o açude e comprou sementes e adubo para incrementar uma horta que já fornecia para a merenda escolar da rede municipal. A entrega das hortaliças ficou comprometida com a suspensão das aulas.

Valdineia diz que é uma grande satisfação para ela e a família ver o pesqueiro cheio e as pessoas passando curiosas na estrada. Na cidade não tem peixaria.

Agora tem mineiro, tem pacu, tem tilápia... “Antes da pandemia, tinha gente que vinha aqui pescar, pesar e levar o peixe. Meu neném gosta demais de pescar. Estou muito feliz de participar do projeto”.

Valdineia já realizou duas retiradas para esvaziar o açude desde a implantação do projeto. A medida é para evitar o ataque de lontras.
Mas foi na puxada de rede da Semana Santa que o pesqueiro se esvaziou para o bolso encher. O feriado bateu recorde de vendas de peixe fresco por meio do WhatsApp. Só de tilápia foram 76 kg.

“O celular ajudou muito, porque é difícil ficar sem trabalhar com o povo, que quer tocar na mercadoria. Mesmo tirando foto, o povo quer ver se o peixe está com o olho e a escama brilhando”.

Num dos esvaziamentos do pesqueiro, a ideia era fazer os berçários, mas o projeto ficou para quando a pandemia passar. A água do lago é utilizada ainda para irrigar café e hortaliças e passou a ser uma forma de acumular a água da chuva.

“A assistência do Incaper foi espetacular. Só tenho que agradecer ao Claudinei (o Silva, extensionista do instituto). Antes do programa, não tinha este tipo de atendimento, os técnicos não tinham diálogo comigo, mesmo eu tendo a horta”, conta.

Valdineia tem metas para quando a crise da Covid-19 passar. A principal é filetar os peixes, uma exigência da prefeitura para fornecer o alimento para a merenda escolar. Ela participou de cursos de filetagem em Santa Teresa e sonha em adquirir um congelador e conquistar o selo de inspeção.

A piscicultora afirma que foi a única a escolher a atividade e não se arrepende, pois sente inspirar outras iniciativas femininas.

“Gosto do que faço, faço com amor. Com o pouco que temos somos felizes. Tudo que sai daqui traz benefício para minha família, meu irmão e meu pai aposentado. Sou muito feliz de ser selecionada dentre 22 pessoas candidatas e espero que o projeto ajude outras mulheres. Não conheci Dom Helder, mas aqui está um pouco dele”, afirma.

Outro sonho é viver apenas da piscicultura, uma vez que se desdobra com faxinas na cidade, onde mantém uma casa, embora admita avanços.

“Acredito que não estou só começando, já estou no meio da viagem”.

Certa de suas escolhas, Valdineia é grata pela oportunidade do Projeto Dom Helder Câmara.

“Toda conquista me deixa fortalecida e me possibilita ir além. Fico feliz de participar porque minha mãe não teve a mesma oportunidade. O apoio me impulsiona mais porque, se eu consegui, outras mulheres vão conseguir. Você passa a ser o espelho na piscicultura local. E o ‘Dom Helder’ me deu essa oportunidade e vou abraçá-la de coração”, finaliza.


O Projeto Dom Helder Câmara

Iniciado em 2001, o Projeto Dom Helder Câmara é um programa de ações referenciais de combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento rural sustentável na região do semiárido brasileiro.

Atualmente, o programa atua em 913 municípios em 11 estados da federação com a expectativa de prestar serviços de assistência técnica e extensão rural por cerca de três anos a aproximadamente 60 mil famílias. As ações beneficiam diretamente em torno de 126 mil pessoas. Um dos requisitos é estar inscrita no CadÚnico.

O projeto é desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em conjunto com a Anater e várias instituições que prestam serviços de assistência técnica e extensão rural, por meio de um acordo de empréstimo firmado entre o governo brasileiro e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida).

Dom Helder Câmara no Espírito Santo

No Espírito Santo são 1.577 famílias atendidas, beneficiando diretamente 4.051 pessoas. Inserido no projeto em 2016, devido à sua região semiárida, o Estado iniciou as atividades em 2017. Ao todo foram beneficiadas famílias de 28 municípios localizados na área de abrangência da Sudene.

O projeto é executado pela empresa privada Diamantina Agrícola Projetos, que atua em oito municípios, atendendo 565 famílias, com um contrato no valor de R$ 1.008.688,20, e pelo Incaper, em 20 municípios, abrangendo 985 famílias, com um contrato no valor de R$ 1.534.479,00, por meio de um instrumento específico de parceria com a Anater.

Das 1.577 famílias beneficiadas no Espírito Santo, 985 são atendidas pelo Incaper. Dessas, 363 obtiveram direito a um fomento para implantar o projeto produtivo no valor de R$ 2.400,00 cada, movimentando um total R$ 871.200,00.

*Arte: Luan Ola/Conexão Safra

Para esse grupo de famílias foram feitas 3.606 visitas individuais de assistência técnica e extensão rural e 46 atendimentos coletivos, por meio de cursos, excursões, reuniões, dias de campo, entre outros.

Em parceria com as famílias foram elaborados 713 planos de trabalho. O projeto contou com 18 unidades de referência, de acordo com a aptidão de cada município.

Os municípios atendidos pelo Incaper foram: Água Doce do Norte, Alto Rio Novo, Baixo Guandu, Boa Esperança, Colatina, Conceição da Barra, Governador Lindenberg, Linhares, Mantenópolis, Marilândia, Montanha, Mucurici, Pancas, Pedro Canário, Pinheiros, Ponto Belo, Rio Bananal, São Domingos do Norte, São Mateus e Sooretama.

Quem foi Dom Helder
Dom Helder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, e faleceu no dia 28 de agosto de 1999, em Recife, aos 90 anos. Por sua luta pelos direitos humanos, justiça e contra o autoritarismo, foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. “O maior dos mandamentos é amar a Deus de todo coração, mas há um mandamento igual que é amar o próximo”, dizia ele.

*Foto: Reprodução ArqRio

Um projeto, vários frutos

Palma forrageira presente em municípios da Sudene no ES

Entre os 20 municípios que fazem parte do Projeto Dom Helder Câmara, atendidos pelo Incaper, seis foram selecionados conforme demandas técnicas e aptidão para a atividade, para implantação da palma forrageira.

Ao todo foram plantadas 40 mil mudas, 1.000 em cada unidade, sendo 15 mil em Ponto Belo e Mucurici, cinco unidades em Linhares, duas em Boa Esperança, duas em Baixo Guandu e uma unidade em Colatina. As unidades foram instaladas em propriedades onde os agricultores trabalham com a pecuária, seja de corte, leiteira, suínos ou aves.

Responsáveis pela implantação e a mão de obra das unidades, os agricultores selecionados para iniciarem o projeto tinham a missão de disponibilizar a outros agricultores o dobro de mudas recebidas.

A expectativa, segundo o engenheiro agrônomo e extensionista do Incaper de Ponto Belo, Adriano Spíndola, é transformar as 40 unidades plantadas, inicialmente, em 40 hectares.

“Nosso objetivo é que essas quarenta unidades, plantadas nesses cinco municípios inicialmente, consigam, no próximo período chuvoso, se transformar em quarenta hectares de área plantada de palma forrageira”, explica Spíndola.

Unidade de palma forrageira em Ponto Belo, no norte do Estado. (*Fotos Divulgação Incaper)

Ainda de acordo com o agrônomo, a espécie não era novidade em Ponto Belo e Mucurici, mas, por meio do projeto, foi possível multiplicar o número de produtores e oferecer assistência técnica de qualidade para quem já tinha a palma na propriedade e não sabia trabalhar com ela.

“Hoje a palma está presente em vinte municípios da área da Sudene, graças ao incentivo do projeto”.

Plantada em abril de 2020, a planta estará pronta para corte no final deste ano.

Originária do México, a palma forrageira é uma planta da família das cactáceas, de grande importância para a alimentação humana e de rebanhos nas regiões secas de todo o Brasil e do mundo devido, especialmente, à resistência à falta de água, à rusticidade e à elevada produtividade.

Por este motivo, ela pode ser considerada um “hidroalimento” devido ao grande armazenamento hídrico e por ser uma alternativa energética de baixo custo. Além disso, a palma é um alimento rico em carboidratos e fornece energia para os ruminantes.


Pescadores constroem os próprios barcos com apoio do programa


Imagine viver da pesca e precisar pagar aluguel do barco utilizado para trabalhar? Essa era a realidade das 11 famílias de pescadores em situação de extrema pobreza da Fazenda Guararema, em Linhares, selecionadas para participar do Projeto Dom Helder Câmara.

Após entrevistas feitas pelos extensionistas do Incaper para identificar as necessidades das famílias e orientá-las sobre onde e como aplicar o recurso de R$ 2.400, eles decidiram a aplicação do dinheiro na aquisição de barcos. E assim foi feito, com a primeira parcela do fomento, de R$ 1.400,00, compraram redes para pesca e também madeira, pregos, colas, tintas e lixas para construção das embarcações.

Sem recurso para pagar a construção dos barcos, as famílias receberam apoio da Associação dos Piscicultores do Guaxe, a Apigua, que fez os botes.

A extensionista do Incaper em Linhares, Flavia Barreto, diz que os insumos e equipamentos serviram para o incremento de renda das famílias de pescadores. Mas os benefícios vão muito além.

“O Projeto Dom Helder ajuda a resgatar a dignidade das famílias em situação de extrema pobreza. É muito gratificante ver pessoas que realmente precisam sendo beneficiadas”.

Com a segunda parcela dos recursos, no valor de R$ 1.000, mais duas famílias compraram material e construíram elas mesmas os barcos, totalizando assim cinco embarcações na comunidade. Ao todo, 100 famílias foram atendidas pelo projeto em Linhares.

Os barcos são usados pelas famílias atendidas pelo Projeto Dom Helder Câmara, em Linhares.


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