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Plantar com fé eu vou

Cafeicultura e religiosidade caminham lado a lado na vida de alguns produtores capixabas e mineiros

Por Leandro Fidelis
16/10/2020 11h00
Atualizado em 27/10/2020 21h50

*Fotos: Divulgação

Cafeicultores das regiões central e do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, demonstram devoção e religiosidade também nas suas atividades. Encontramos quem mantém costumes cada vez mais fortalecidos no âmbito familiar, como fincar crucifixo na lavoura ou devotar fé a uma santa criada por cafeicultores paulistas.

Em Timbuí, distrito de Fundão, o engenheiro agrônomo e produtor rural Edson Costalonga (42) afirma que viu a família prosperar com intervenção divina. Muito católicos, ele, o pai e a mãe atuavam na pecuária leiteira em Presidente Kennedy, sul capixaba, mas “as coisas não estavam muito legais”, conforme relata.

“Muitos animais morriam, coisas ruins aconteciam, e a gente não entendia bem o porquê”, conta Costalonga.

Até um dia a família convidar um frei domingo de manhã para benzer a propriedade rural na expectativa de a situação melhorar. Segundo Edson, o religioso sugeriu construir um crucifixo para colocar no alto do morro na forma de cruzeiro.

“Ele disse: ‘se for da vontade de Deus, as coisas vão melhorar. Caso contrário, vendam a propriedade e levem o crucifixo para onde forem'. Passados uns meses, pouco mudou e adquirimos a fazenda em Timbuí”, lembra o produtor.

Edson Costalonga afirma que viu a família prosperar após fincar crucifixo na lavoura de café.

A produção leiteira ficou pra trás e os Costalonga passaram a investir na cafeicultura na Fazenda Mundo Novo. Eles somam 11 anos na atividade e se tornaram referência em café conilon com as maiores médias de produtividade do Estado.

Não à toa, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) escolheu a propriedade para a comemoração dos 100 anos da espécie cafeeira em solo capixaba, em 2012.

De acordo com Edson, a mesma cruz benta pelo frei foi implantada no alto do morro que receberia a primeira lavoura de conilon na fazenda em Timbuí. O símbolo pode ser visto pelos motoristas que passam pela BR-101 Norte.

A fé só aumentou na família. “Nossa condição econômica prosperou muito com a mudança nos negócios”.

O terreno onde ocorreu o primeiro plantio de conilon está sendo preparado para renovação da lavoura, mas o crucifixo se mantém de pé no seu topo. O objeto vai ganhar nova pintura, uma base de concreto e uma iluminação para sinalizar a fé da família também à noite.

“A nossa propriedade é muito próspera. E o crucifixo está lá para mostrar que a gente acredita em Deus”.

Nossa Senhora do Café ganha devotos no Caparaó

Luana Emerick entre os pais: o dia 9 de agosto é dedicado à santa na casa da família.

Ela tem o manto da cor do café torrado e a túnica e o véu com a mesma coloração do grão cru. A descrição pertence à imagem de Nossa Senhora do Café, uma santa criada por um escultor de São Paulo que vem se popularizando entre cafeicultores católicos de diferentes regiões produtoras do Brasil, entre elas o Caparaó.

A produtora Luana Emerick (26), do Sítio Palmeiras Emerick, em Martins Soares (MG) conheceu a imagem por meio do pároco da cidade, o padre Silas. Ela conta que buscou conhecer a história devido ao “amor por Maria Mãe de Deus”, uma vez que a família é bastante católica.

“Descobri que a devoção à Nossa Senhora do Café no Brasil se deu pela dificuldade do setor cafeeiro no Estado de São Paulo. Desde que descobrimos a história, tentamos comprar uma imagem para o sítio para abençoar e proteger nossas lavouras, nossa família e nossos pequenos lotes de cafés especiais”, diz Luana.

Luana comprou a imagem no ano passado e preparou um altar improvisado na varanda da casa. Desde então, o 9 de agosto se tornou o dia dedicado à Nossa Senhora do Café.

“Reunimos a família e os amigos para rezar o terço em agradecimento pela colheita do ano e pedimos bençãos e proteção para a colheita do ano seguinte. Nós queremos que o terço se torne tradição aqui no sítio e que a história e a devoção à Nossa Senhora do Café se propaguem entre os cafeicultores da região, pois ela ainda é pouco conhecida”, afirma a cafeicultora.

Ainda neste ano, os Emerick vão construir uma pequena capela em homenagem à santa na propriedade.

Carinho

Também no entorno do Pico da Bandeira, o administrador e cafeicultor Lanucio Rodrigues (43), do Sítio Vale do Paraíso, na comunidade de Paraíso, em Espera Feliz (MG), se apegou na fé em Nossa Senhora do Café para, juntamente com a mulher e os filhos, superar a morte do sogro, José Antônio Mendes, o “Toninho”, em janeiro deste ano.

A produção de café na propriedade ocorre há mais de 50 anos na família da mulher, Tanimar (39), da terceira geração de produtores. Em 2015, o casal começou a produzir cafés especiais e criou as marcas “Café Sabores do Caparaó” e “Café Vale do Paraíso”, além de venderem diretamente para cafeterias. Os cafezais estão a altitudes que variam entre 1.050m e 1.165 metros.

De acordo com Lanucio, a família sempre foi devota de Nossa Senhora de Fátima e Santa Rita, mas com o início de uma nova fase de produção no sítio, surgiu o carinho por Nossa Senhora do Café.

Lanucio entre a mulher, Tanimar (39) e o filho caçula, Otávio (13).

Um fato inesperado aconteceu no dia que a imagem chegou, em outubro de 2019.

“Vi que a imagem estava partida ao meio. Porém, eu e meu sogro Toninho a recuperamos, pois o que valia para nossa família era a devoção, e não uma imagem linda sem defeito. As nossas vidas não são perfeitas. Precisamos sempre de consertos e reparos e, algumas vezes, que amigos e parentes unam os nossos pedaços”, diz Lanucio.

Ele compara uma escultura em pedaços ao sentimento vivido pela família no início deste ano. A morte do sogro deixou os agricultores abalados, “quebrados”, como diz Lanucio.

“Precisamos mais ainda da intercessão de Nossa Senhora e é graças à fé nela e o amparo dos amigos que estamos conseguindo voltar à normalidade e a produzir excelentes cafés, o que muito nos orgulha”, conclui o cafeicultor.


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