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Cafeicultura


Indústria de café do Brasil luta para achar grãos de qualidade

Por Reuters
3/10/2019 14h30

A indústria de café do Brasil vem sofrendo para encontrar e comprar grãos de melhor qualidade no mercado, após uma colheita difícil e menor que a esperada em 2019, uma situação que ajuda a colocar pressão sobre um setor que já sofre com margens baixas e fraqueza econômica do país.

*Foto ilustrativa

“A qualidade é o que nos preocupa... o setor está tendo dificuldades de comprar matérias-primas melhores”, disse nesta terça-feira a jornalistas o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Ricardo Silveira, durante evento da entidade que premiou os melhores cafés da última temporada.

Os comentários, após uma colheita encerrada há poucas semanas no Brasil, maior produtor e segundo consumidor global de café, confirmam avaliações anteriores de especialistas de que as várias floradas levaram a uma safra desuniforme, com o clima irregular resultando em um amadurecimento precoce e desigual dos frutos. Depois, chuvas ainda derrubaram as “cerejas” em algumas áreas.

O Brasil colheu cerca de 49 milhões de sacas de 60 kg este ano, segundo dados do governo, abaixo das expectativas iniciais de mais de 50 milhões de sacas e bem inferior ao recorde histórico de 61,7 milhões de sacas de 2018, quando a qualidade foi boa.

“Ano passado tínhamos oferta e qualidade”, pontuou Silveira, acrescentando que o diferencial pago pelo produto melhor aumentou ante 2018. Ele preferiu não detalhar os valores.

Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Café do Estado de São Paulo, Nathan Herszkowicz, “está mais difícil de achar” café de qualidade gourmet, “mas longe de ser impossível”. Ele ponderou, no entanto, que se paga um preço maior.

O preço do café gourmet nas prateleiras, segundo o dirigente, é três vezes maior do que o dos cafés tradicionais, que estão em torno de 18,50 reais por quilo nos supermercados da cidade de São Paulo, segundo uma pesquisa do sindicato.

Já o “café superior”, intermediário entre o gourmet e o tradicional, custa cerca de 30% mais que este último.

VENDAS NO ANO

Ao mesmo tempo, o setor lida com preços relativamente baixos nas gôndolas, na esteira das mínimas de 13 anos registradas nas cotações internacionais mais cedo no ano, com a oferta recorde do Brasil na safra do ano passado ainda pesando, disse Silveira, da Abic.

Há ainda dificuldade de aumentar os valores nas prateleiras, com a economia fraca no Brasil, ressaltou o dirigente, que avalia que os preços do café nos supermercados estão semelhantes aos registrados há seis meses.

“A indústria chegou no limite, não tem como baixar mais”, disse ele, acreditando que os valores devem seguir nos patamares atuais até o final do ano.

Para Herszkowicz, do sindicato paulista, as indústrias que apostam também nos cafés gourmets vêm conseguindo atravessar melhor este momento difícil, já que o produto é mais caro que o tradicional e oferece maior margem.

Contudo, o gourmet não consegue suportar sozinho o problema, pois responde por pouco mais de 10% nas vendas, enquanto os tradicionais, mais baratos, representam mais de 80%.

Ele disse que algumas empresas também estão apostando mais no segmento de cafés superiores, que têm um preço intermediário entre o gourmet e o tradicional, como forma de melhorar suas margens e obter boas vendas para consumidores que podem comprar um produto de maior valor agregado.

Questionado sobre o ritmo de consumo no país, o presidente da Abic manteve a projeção feita em abril, de que o crescimento da vendas no país ficará abaixo do verificado em 2018, quando aumentou 4,8%.

Segundo Silveira, o consumo ficou praticamente estável no primeiro trimestre e aumentou de abril a junho, além de ter sido beneficiado pelo frio mais intenso neste inverno em algumas áreas, o que elevou a demanda.

“Vai crescer o consumo este ano, mas ainda ficará abaixo do visto no ano passado... Isso reflete a economia crescendo menos que o esperado”, destacou, sem estimar um número.


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