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Cafeicultura


Rondônia se inspira no ES para produzir cafés de qualidade

Estima-se que do total de 20 mil cafeicultores no Estado amazônico, 60% tenham origem no Espírito Santo

Por Leandro Fidelis
23/12/2019 16h24
Atualizado em 27/01/2020 13h06

*Foto: Mexido de Ideias/Reprodução

O capixaba Antônio Alves Dias (63) vive em Rondônia há 46 anos. Ele se emociona ao lembrar a saga da família no início da década de 1970 até o Estado amazônico. O cafeicultor tinha apenas 14 anos quando saiu de Montanha, no extremo norte do Espírito Santo, acompanhado de outros 74 familiares, divididos em dois paus de arara.

O pai do agricultor esteve meses antes por lá e gostou logo de cara. Vendeu a propriedade da família para adquirir terras no município de Cacoal. Ao voltar com a novidade, organizou a partida para o norte. Foram 11 dias de viagem, mas um triste episódio quase minou os planos dos Dias.

Logo na primeira noite de descanso em Mantena (MG), o patriarca sofreu um infarto e morreu no hotel onde estava hospedado com a mulher. O sepultamento ocorreu no cemitério local no dia seguinte, e a comitiva prosseguiu com a viagem para Rondônia.

“Ele pedia para nós continuarmos a viagem caso alguma coisa acontecesse com ele. Dizia que as terras em Rondônia eram muito boas, queria que pegássemos terra nova para começar a plantar café, uma vez que essa cultura não existia na propriedade recém adquirida”, lembra Seu Antônio.

Antônio com a mulher, Maria, no estande de Rondônia na SIC. (*Fotos: Leandro Fidelis)

A família capixaba começou com “lavoura branca” (plantios de arroz, feijão e milho) e não tinha experiência com cafeicultura. Segundo Seu Antônio, foi a família Veloso que sugeriu aos novos moradores do Estado plantar café. O primeiro cultivo ocorreu em 1976 e, atualmente, os Dias cultivam 20 mil pés de conilon e estão entre os 20 mil cafeicultores do Estado.

A história do Seu Antônio Dias serve para ilustrar a contribuição capixaba à cafeicultura rondoniense. Estima-se que do total de cafeicultores naquele Estado, 60% tenham origem no Espírito Santo, com destaque para o município de Espigão do Oeste com maioria da população espírito-santense.

O cafeicultor participou da Semana Internacional do Café (SIC 2019) em novembro, em Belo Horizonte. A Secretaria de Estado da Agricultura de Rondônia (Seagri) contou com um amplo estande, mas apesar das fortes referências aos cafeicultores indígenas no espaço, a história da participação capixaba no desenvolvimento da cafeicultura do Estado nortista não deixou de ser lembrada pelos especialistas e pelo representante da pasta do governo.

De acordo com o engenheiro agrônomo da Seagri, Janderson Dalazen, a cafeicultura de Rondônia se intensificou a partir da década de 1960 com a chegada dos colonos incentivados a povoar a região Amazônica.

Naquela época, a política do governo federal era integrar a Amazônia ao território nacional. Cafeicultores de arábica vindos do Paraná foram os primeiros a levarem sementes de café. Na sequência, por volta de 1965, por influência capixaba houve a introdução dos cafés conilon na busca por novas oportunidades de negócios.

Janderson Dalazen é engenheiro agrônomo da Seagri.

Expansão do robusta

Um pouco mais adiante, na década de 1980, um pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) leva para Rondônia sementes de robusta (variedade do coffea canephora), introduzidas, através do campo experimental da Embrapa. A variedade se adaptou bem à região e foi compartilhada entre os produtores.

De acordo com Janderson, o arábica acabou perdendo espaço por produzir precocemente sob as condições ambientais e de altitude. “Chovia muito na época da colheita, e o arábica não teve aceitação. Assim, expandiu-se o cultivo do conilon robusta, variedades que cruzam entre si, ocorrendo naturalmente um processo de hibridização naquele Estado. Hoje, o parque cafeeiro de Rondônia é formado pelo conilon que saiu do Espírito Santo com o robusta que saiu do IAC”.

Atualmente, Rondônia produz 2 milhões de sacas de café. Os 20 mil cafeicultores são, em sua maioria agricultores familiares, estão investindo nos cafés de qualidade. O café é produzido em praticamente todos os 52 municípios, com destaque para a região central do Estado, que concentra a maior produção.

O município de Cacoal, onde vive o capixaba Antônio Dias, é considerado a “Capital do Café”, concentrando os principais compradores e as indústrias, além de vários municípios produtores no entorno.

*Reprodução Embrapa

O foco da cafeicultura rondoniense é o projeto de Indicação Geográfica para a região denominada “Matas de Rondônia”, que engloba 15 municípios. O produto proveniente desta região será chamado “Robustas Amazônicas”, uma vez que constatou-se ser o café rondoniense é muito mais robustado que o conilon. “A bebida é diferente do Espírito Santo e de qualquer região brasileira”, afirma Janderson Dalazen.
Inspiração e troca com os capixabas

“Rondônia se inspira no Espírito Santo para produzir cafés e a troca de informações favorece a atividade no Estado amazônico”, afirma Dalazen.

“A maior parte dos cafeicultores rondonienses tem familiares no Espírito Santo. Tudo o que se lança lá, Rondônia segue acompanhando. Um exemplo recente foi a expansão do café clonal. Em visita ao Estado de vocês, nossos produtores apenderam sobre materiais clonais e os levaram para Rondônia. Tudo de forma muito rápida”.

Informação e tecnologia também são aliadas dos produtores rondonienses. Por meio da parceria com o Incaper, por exemplo, os cafeicultores nortistas conheceram novos sistemas de poda. A entidade de pesquisa capixaba está sempre presente naquele Estado, promovendo capacitação de técnicos e produtores.

A relação é tão estreita que diminui a distância física de quase 3.000 quilômetros que separam Rondônia do Espírito Santo. “Existem vários grupos de WhatsApp que congregam produtores dos dois Estados para a troca de informações”, destaca Janderson.

Para Padovani, o compartilhamento entre os estados também ocorre na área de processamento e fermentação de grãos de qualidade.

O compartilhamento entre os estados também ocorre na área de processamento e fermentação de grãos de qualidade, salienta o secretário de Estado da Agricultura, Evandro Padovani. “Rondônia se destaca em concursos nacionais disputando de igual para igual com estados que tem mais know-how em cafeicultura. Quem ganha com isso é a cafeicultura do Brasil e o produtor rural lá na ponta que faz o agro ser forte”.

A velocidade na troca de informações também impressiona o diretor técnico da Emater/RO, Anderson Kuhl, para quem o Espírito Santo é referência nas pesquisas.

“Nossos materiais genéticos nasceram no Espírito Santo, e o Incaper validou este trabalho. São constantes as missões técnicas com produtores de Rondônia visitando os capixabas”, diz Kuhl.

Dentre as práticas que evoluíram na Amazônia estão os materiais genéticos superiores, com maior produtividade e resistência, que estão dando bebida.

Outro ponto, segundo o diretor técnico, é o nível de conhecimento dos produtores capixabas que migraram para Rondônia. Com nível mais avançado, conseguiram diminuir nas lavouras rondonienses os erros verificados no Espírito Santo. “Isto foi um ganho para a cafeicultura do Estado”.

“Temos que agradecer ao ES principalmente pelo know-how. O capixaba tem uma força de vontade, uma luta imensa em encontrar produção, é apaixonado, tem vontade de fazer cada vez mais com menos. A cultura capixaba imigrou para Rondônia para somar e fazer a gente produzir mais. Não há nada similar”.

Para o diretor técnico da Emater/RO, Anderson Kuhl, o Espírito Santo é referência nas pesquisas.

Além disso, destaca Kuhl, contribuiu para a cafeicultura rondoniense a pujança da governança entre governo, Emater, Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril (Idaron), Sebrae e Embrapa “caminhando lado a lado com o produtor. A gente diz que a questão de ego foi deixada de lado, porque o que vale mais é o produtor aumentar sua produção, melhorar renda e se fixar na propriedade”.

Secretário aponta diferenças

O secretário de Agricultura de Rondônia, Evandro Padovani destaca a contribuição do Espírito Santo à cafeicultura com as novas tecnologias e mais capacitação na área de gestão e pesquisa.

“A cafeicultura de Rondônia deu um salto muito significativo”.

Para Padovani, os capixabas sempre são ponto de referência em conilon, mas pontua algumas diferenças estaduais, dentre elas o clima e o alto custo de produção no Espírito Santo.

“Nós temos volumetria de chuva e topografia um pouco melhor que o Espírito Santo, O capixaba tem custo mais elevado, principalmente na área de irrigação e energia. Porém, o compartilhamento de informações é muito importante para ambos verem o que está dando certo de um lado ou de outro para ajudar os produtores rurais”.

A logística e o solo rondonienses também favorecem a cafeicultura. As terras são mais novas na exploração agrícola, ao contrário dos capixabas, com mais necessidade de investimentos na revitalização do solo.

E o “pai” da cafeicultura de Rondônia continua a irradiar boas práticas. “Algo nos alerta na Amazônia, que é a necessidade da recuperação de matas ciliares. O Espírito Santo já faz isto bem. Estamos nos antecipando e incentivando os produtores a cuidarem das matas e nascentes para, no futuro, não terem o mesmo problema dos capixabas com falta das chuvas e diminuição das águas, necessárias para alta produtividade”, afirma o secretário.

“Estamos colocando este produtor também no caminho da sustentabilidade. Não adianta aumentar produção se a gente não observar o ambiental e o social”, completa o diretor técnico da Emater/RO, Anderson Kuhl.

*O jornalista viajou a Belo Horizonte com apoio do Sebrae/ES.


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