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Safra boa e cautelosa em Brejetuba

Sistemas de parceria e semi-mecanização dispensam mão de obra externa e devem garantir uma colheita mais protegida da Covid-19 no município líder em produção de arábica

Por Leandro Fidelis
19/05/2020 7h30
Atualizado em 27/05/2020 20h53

*Foto: Mosaico Imagem/Divulgação Prefeitura de Brejetuba

Brejetuba é o município do Espírito Santo mais representativo na produção de café arábica. Em 2018, liderou o ranking com 13,27%, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) a partir de dados originais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)- Produção Agrícola Municipal (PAM 2018), divulgados no Anuário do Agronegócio Capixaba.

A colheita começa nesta segunda quinzena de maio em diversas fazendas locais e a previsão de safra é de 450 mil sacas de arábica, cerca de 60% a mais que em 2019.

Todos os anos, a “Capital Estadual do Café Arábica” recebe, em média, de 4.000 a 5.000 pessoas de outros Estados (MG, AL, PE e BA para citar os principais), mas o temor com o novo coronavírus, o fortalecimento de sistemas de parceria (meeiro e colono) e a semi-mecanização das lavouras podem garantir uma colheita mais protegida da Covid-19.

Até esta segunda-feira (18), o município registrava quatro casos confirmados da doença, sendo dois curados. Na possibilidade de maior fluxo de pessoas de fora durante a panha de café, a Prefeitura de Brejetuba convocou os maiores produtores e reforçou a necessidade de seguir as medidas de segurança estabelecidas pelo decreto estadual. Dentre outras recomendações, sugere cuidados no transporte, dormitórios e evitar aglomerações.

“Tanto os proprietários de terra quanto os trabalhadores temporários de outros Estados estão receosos nesta colheita. Desde o início da pandemia no Espírito Santo, estamos respeitando o decreto do governador, sempre alertas e conscientes. Colocamos a Vigilância Sanitária à disposição dos cafeicultores e pedimos suporte dos comerciantes em caso de suspeita da Covid-19. Estamos fazendo nosso dever de casa, com vigilância total em casos suspeitos, mas nossa preocupação é com os proprietários que não ligam muito para as notícias e aqueles trabalhadores que evadem as divisas sem passar pelas barreiras sanitárias para chegar às fazendas”, destaca o prefeito de Brejetuba, João Lourenço.

João Lourenço, prefeito de Brejetuba. (*Fotos: Divulgação)

O pico da safra em Brejetuba ocorre entre junho e setembro. Mas de acordo com o prefeito, se os cafeicultores locais não absorverem mão de obra local para a panha de café deste ano, a perda na produção pode ficar entre 20% e 30%. “Este ano boa parte do café vai estragar por conta da pandemia. Quem colher vai aproveitar o trabalhador do lugar, o meeiro...”, afirma João Lourenço.

OUÇA entrevista com FABIANO TRISTÃO, AGRÔNOMO DO INCAPER, sobre os cuidados com a safra 2020 em Brejetuba!

30% da mão de obra tem vínculo com a propriedade

O maior produtor capixaba de arábica vive uma nova realidade além da pandemia. De modo a garantir café colhido e melhores condições de trabalho, nos últimos seis anos a opção pelos sistemas de parceria em vez das contratações temporárias é cada vez mais comum nas fazendas. Segundo o Incaper, 30% da mão de obra é de trabalhadores com vínculo com as propriedades.

A família Uliana é considerada pioneira em parceria agrícola. A última contratação de mão de obra de fora na Fazenda Uliana, na sede do município, ocorreu no ano passado.

De acordo com o cafeicultor Ângelo Roner Uliana (50), atualmente a propriedade mantém mais de 150 parceiros durante o ano todo. Os trabalhadores vivem com suas famílias na propriedade.

Ângelo com a mãe, Carmem e o neto Ciro.

“Quando nasci já imperava este sistema de parcerias na fazenda. Existem várias maneiras de legalizar a prestação de serviços na colheita, todas com suas dificuldades, mas a parceria é muito mais benéfica tanto para o trabalhador quanto para o proprietário”, avalia Uliana.

Antes mesmo dos primeiros casos confirmados de Covid-19 no município, Ângelo Uliana conta que contratou profissionais da área de saúde para ministrar treinamentos sobre primeiros socorros e prevenção da doença entre os parceiros. O objetivo é proteger o máximo possível seu núcleo produtivo.

“Vamos cuidar dos nossos trabalhadores, nosso bem. Conviver com quem a gente já convive é mais seguro”, conclui o cafeicultor.

Semi-mecanização

Um ônibus empoeirado na garagem de outra fazenda cafeeira retrata o “novo normal” da cafeicultura de Brejetuba. O proprietário, que pediu para não ser identificado, afirma que 90% dos trabalhadores atua em regime de parceria agrícola. O sistema vigora há cerca de seis anos. É por isto que o meio de transporte de trabalhadores está parado na propriedade.

De acordo com o cafeicultor, entre 2000 e 2004 o município viveu um período de escassez de mão de obra nas lavouras por conta da migração para as empreiteiras. Naquele período, a cafeicultura de Brejetuba passou a buscar novas alternativas de trabalho contribuindo para o município não apenas se manter no ranking estadual em volume de produção de arábica como também para a agregação de valor com a qualidade do grão.

Para o proprietário, a incapacidade técnica de trabalhadores temporários é outro fator que pesa ao priorizar o sistema de parcerias.

“A gente vive um processo de renovação, valorizando uma turma que já trabalha conosco o ano todo. Temos grandes fazendas no município, porém formadas por agricultores familiares, onde os vizinhos são parceiros. Sem contratação de mão de obra de outros Estados, não vemos andarilhos, trabalhadores circulando em carros fretados... Isso faz diferença neste momento de pandemia”, diz.

Fabiano Tristão é engenheiro agrônomo do Incaper. (*Foto: Leandro Fidelis/Arquivo Safra ES)

A derriçadeira manual é um divisor de águas neste cenário. De acordo com o engenheiro agrônomo do Incaper local, Fabiano Tristão, o uso do equipamento aumentou muito nos últimos cinco anos em Brejetuba, aumentando a eficiência da colheita em 30%.

Tristão acrescenta que o terraceamento é outro recurso que chegou para melhorar o desempenho dos apanhadores de café na colheita.

A semi-mecanização das lavouras a partir de meados dos anos 2000 rompeu até certo preconceito local de que o lavrador “não podia colocar a mão em máquina”, avalia o proprietário da fazenda em questão.

“Quase noventa por cento dos parceiros utiliza o equipamento na colheita. É um caminho sem volta, veio para ficar, pois entre colocar uma pessoa estranha em atividade e comprar a máquina, o custo deste último é praticamente o mesmo”, ressalta.

Escoamento comprometido com suspensão de obra em estrada

Em função da pandemia da Covid-19, as obras da primeira etapa do asfaltamento da metade do trecho de 26 km da estrada que liga a sede do município ao distrito de São Jorge foram suspensas pelo governo estadual há 60 dias.

Segundo o prefeito de Brejetuba, João Lourenço, a maior parte da produção de café arábica do município passa pela estrada, com destaque para as localidades de São Domingos, Córrego Grande, Vila Amizade, Vila Madalena e São Jorge, esta última na divisa com Minas Gerais.

“Pedimos ao governador Renato Casagrande pelo menos iniciar esta primeira etapa da obra, fazer este estudo com carinho, porque trata-se de um projeto do seu primeiro mandato. As coisas têm que caminhar mesmo com a pandemia. As obras em Brejetuba não pararam, e os recursos previstos estão sendo investidos”, finaliza o prefeito, confiante na retomada das obras.

Florada de lavoura de café em Brejetuba. Por conta das chuvas do primeiro trimestre, a granação está sendo mais prolongada. (*Foto: Márcio Martins/Acervo PMB)

*Muitas reportagens do site neste período de quarentena são fruto de um trabalho colaborativo, devido à limitação para deslocar nossos jornalistas. As próprias fontes estão contribuindo com fotos, áudios e vídeos para tornar o conteúdo jornalístico mais atrativo para você leitor!


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