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Cafés especiais


Cafeicultores do Caparaó apostam em terreiro suspenso com bambu

Madeira encontrada com facilidade no quintal é alternativa econômica no pós-colheita, mas produtores devem ficar atentos para evitar mofo

Por Leandro Fidelis
4/04/2020 7h00
Atualizado em 24/05/2020 11h59

*Fotos: Divulgação

A colheita de café está próxima e nas localidades produtoras já foram iniciados os cuidados com as lavouras e melhorias nas estruturas para o pós-colheita. Na região do Caparaó, alguns cafeicultores apostam na utilização do bambu na construção de terreiros suspensos para produzir grãos especiais.

É o caso de José Alexandre Lacerda, de Pedra Menina (Dores do Rio Preto- ES). O produtor viu a experiência com o bambu em viagem à Colômbia e resolveu testar na safra deste ano.

A estrutura externa continua sendo de eucalipto, mas nesta proposta de terreiro suspenso o sombrite fica solto para evitar cair café nas frestas e contaminar os lotes de cafés especiais.

“A gente tem bambu gigante de graça na propriedade. Além de dispensar o uso do arame, a madeira passou no teste de resistência, pois suportou o peso de uma pessoa de setenta quilos. Sem contar a facilidade para rachar o bambu”, enumera Lacerda.

A única preocupação do cafeicultor é o material interferir no resultado da qualidade dos grãos, o que, segundo ele, não foi verificado no país vizinho.

“A região que conheci tem muita umidade no ar e o bambu não foi problema. Os produtores usam até palha de arroz sobre o bambu e debaixo do sombrite para evitar umidade”, relata.

Diferente do experimento do José Alexandre, o gerente do escritório local do Incaper de Guaçuí e também cafeicultor, Maxwel Assis, utilizou bambu gigante como suporte do terreiro suspenso na propriedade de Gilson Quinelato, na localidade de São Pedro de Rates, interior do município. “Só não utilizei as travessas como no modelo do José Alexandre. Ficou barato e funcionou bem”.

Drenar o café antes evita mofo

A recomendação é ficar atento à presença da água na estrutura em bambu.

O coordenador do Laboratório de Classificação e Degustação de Café do Ifes campus Alegre, João Batista Pavesi, destaca a necessidade de drenar bem o café lavado antes de colocá-lo no terreiro suspenso para evitar mofo.

“O bambu não pode com água, porque o mofo é fácil. Se o produtor for tirar o boia, não pode jogar café maduro diretamente sobre o bambu porque tem muita água do processo do bóia. É preciso drenar um pouco os grãos para só depois colocá-los no terreiro suspenso”, aconselha Pavesi.

No caso do José Alexandre Lacerda, ele usou a parte externa do bambu para cima, o que garante uma proteção melhor do molhamento, segundo o professor.

Broca

“Além da umidade, o bambu dá broca. No entanto, acredito que tudo o que está sendo feito como teste entre os cafeicultores vai trazer informações para nós avaliarmos os resultados com o tempo”, diz Pavesi.

O secretário da Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec) e produtor da comunidade de Galileia, zona rural de Caparaó (MG), Walker Brinati, sugere tratar o bambu antes de utilizá-lo. A observação dele parte da experiência pessoal em campo.

“O ideal é cortá-lo na Lua Minguante e de preferência entre maio e agosto. É interessante deixá-lo de molho na água por quinze dias. Com esse procedimento, o bambu perde os açúcares que são fonte de alimento para a broca. O bambu não apodrece e ainda fica muito resistente”, afirma Brinati.

Atenção aos fungos prejudiciais à qualidade

O primeiro sinal de mofo verde no bambu acende o alerta vermelho para quem espera qualidade superior na bebida. De acordo com o professor João Batista Pavesi, os organismos decompositores de bambu são sempre os fungos, uma vez que a madeira não é atrativa para bactérias.

Dentre os fungos que atuam no bambu molhado e outras matérias orgânicas, existem aqueles atrelados a problemas na qualidade do café, como por exemplo o Penicillium e o Aspergillus.

“O produtor tem que ficar atento porque esses decompositores, além de depreciarem o café podem produzir toxinas. Existem fungos favoráveis à qualidade de café, mas não é o caso deles”, alerta o professor.

*A capa da edição 27 da Safra ES trouxe o bambu como alternativa para construções. Confira aqui!


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