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Cafés especiais


Mudança de rota- parte 2

Confira segunda e última parte da reportagem especial que mostra a evolução da qualidade dos cafés capixabas nas últimas duas décadas e como o cooperativismo, as indústrias e os institutos de pesquisa contribuíram neste processo

Por Rosimeri Ronquetti
10/02/2020 12h00
Atualizado em 20/02/2020 12h18

*Fotos: Divulgação

Qualidade e cooperativismo

O primeiro concurso de qualidade de café conilon que se tem registro no Espírito Santo foi realizado pela Cooabriel em 2003. Denominado Concurso Conilon de Excelência Cooabriel, pela primeira vez foram avaliados quesitos sensoriais da espécie. O objetivo era promover a melhoria da qualidade do conilon, identificar potenciais produtores de qualidade e criar o conceito do conilon bebida.

“O Concurso Conilon de Excelência Cooabriel exercitou naquele ano algo inédito ao café conilon, que foi premiar a partir da avaliação sensorial do conilon, ou seja, gosto, aroma e sabor começaram a ser quesitos avaliados”, esclarece o vice-presidente da cooperativa, Antônio Joaquim de Souza Neto.

O presidente disse ainda que o concurso só aconteceu em 2003, porém, os trabalhos de conscientização com os sócios sobre a importância da melhoria dos padrões do café conilon, principalmente sobre a forma de evitar defeitos durante a colheita e secagem, começaram ainda na década de 1990.

Algumas iniciativas adotadas pela Cooabriel para reverter esse quadro foram: pagamento de até 8% a mais sobre o valor da saca para cafés naturais de terreiro, instalação de unidades próprias de produção de mudas, com viveiro e jardim clonal com materiais genéticos de qualidade, e de estação experimental de descascamento para demonstrar, na prática, como descascar o café e apurar o cereja descascado.

“Todas essas medidas adotadas, mais a realização do concurso, validaram a valorização do café conilon de qualidade e apoiaram os produtores na produção de cafés especiais e diferenciados”, destaca Antônio. Além do prêmio, a Cooabriel pagou aos cafés premiados no primeiro concurso de 12% a 20% a mais no preço da saca.

A Coocafé, Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Lajinha, instalada no lado mineiro do Caparaó, com várias unidades no Espírito Santo, desde 2007 faz o Concurso Coocafé Qualidade Regional, para o diretor de Produção e Comercialização da cooperativa, Pedro Antônio Silva Araújo, é papel das cooperativas incentivar e apoiar seus associados na busca por qualidade.

“A cooperativa orienta o associado em todas as etapas desde a produção até o processo de colheita e secagem, para que ele tenha um café de qualidade, o concurso é uma maneira de incentivar e valorizar os produtores que se dedicam nessa busca por melhoria da qualidade de seus cafés”, afirma Araujo.

Pedro Araujo (Coocafé).

Pedro destaca ainda que, desde a primeira edição do concurso até hoje, os cafés do Caparaó capixaba deram um salto de qualidade e isso se deve, em parte, a conscientização dos produtores incentivada pela cooperativa e pelos concursos.

“O Espírito Santo deu um salto qualitativo muito grande nos últimos 10 anos. Os produtores de arábica no Caparaó capixaba, a parte mais elevada, se tornaram especialistas em produzir café de qualidade. O produtor está mais consciente porque ele foi educado para isso. O concurso foi uma maneira que encontramos para proporcionar visibilidade a esse produtor”.

A fala do presidente da Cooperativa Agropecuária Centro Serrana (Coopeavi), Denilson Potratz, idealizadora do Prêmio Pio Corteletti que acontece desde 2011 e premia produtores quanto de conilon quanto de arábica, reforça o que disse Araújo sobre a importância das cooperativas no processo de busca pela qualidade dos cafés do Estado.

“A cooperativa dá todo suporte ao seu associado e investe no produtor, para que ele possa melhorar a qualidade, a produtividade e, consequentemente, gerar um produto com maior valor agregado, com notas muito superiores ao que vinha produzindo e permitindo a entrada deles nesses concursos para conquistar prêmios e melhorar a sua lavoura”, pontua Potratz.

Denilson lembra que, além da qualidade, os concursos têm também o objetivo de remunerar melhor o produtor. “Quando você coloca diferencial de pagamento em cafés de qualidade nos concursos, acaba estimulando a família e o produtor a produzirem café de qualidade, com olhar diferenciado para a lavoura, melhor gestão e oportunidade de melhor remuneração. É onde o produtor vai enxergar que vai colocar mais dinheiro no bolso”.

Vencedores do Prêmio Pio Corteletti 2019. (*Foto: Carla Caliman)


O envolvimento das indústrias

Há cerca de 20 anos, o fomento à produção de cafés de qualidade nas montanhas do Espírito Santo, paralelamente ao incentivo de programas estaduais, chegou por meio da iniciativa privada. A Real Café, indústria capixaba de café, foi pioneira na realização de concurso do ramo com a criação do Prêmio Realcafé/UCC de Qualidade.

O empresário e um dos sócios da empresa, Henrique Tristão, diz que o Prêmio Real Café/UCC de Qualidade ajudou no desenvolvimento da cafeicultura capixaba na região de montanhas com apoio da Ueshima Coffee Company (UCC), empresa japonesa com atuação em todos os segmentos do café, desde cafeterias, torrefação, máquinas de café gelado, entre outros.

“Graças ao incentivo financeiro do concurso, os produtores viraram para o lado dos cafés especiais. Esta é a importância da entrada de empresas maiores no contexto da qualidade, pois compramos os cafés de todas as famílias. Fomos fomentando a produção ano após ano, e hoje o café do Espírito Santo vem ganhando todos os campeonatos mundiais”, afirma Tristão.

A disputa teve 18 edições e desde o primeiro ano envolve aproximadamente 360 famílias de produtores da região serrana capixaba com o objetivo de desenvolver o mercado produtor. O prêmio para o primeiro colocado foi de R$ 20 mil.

Henrique Tristão. (*Foto: Ebrand/Divulgação)

A Nestlé, gigante do mercado de café no Brasil, lançou no estado o “Programa de Qualidade do Café Conilon Nescafé”. A motivação em promover o Programa, segundo o gerente da área de serviços agrícolas e cafeicultura da empresa, Rodolfo Clímaco, está fundamentada na busca da melhoria da qualidade no café conilon do Espírito Santo.

“Entendemos que o mercado do café conilon especial tem ganhado certa expressão e que o consumidor está cada vez mais atento em busca de cafés de qualidade, por isso sentimos a necessidade de estimular essa tendência por meio do concurso”, ressalta o gerente.

Clímaco diz ainda que a busca pela produção do conilon de qualidade tem acontecido de forma crescente por parte dos produtores e a expectativa é que continue se ampliando. “Atualmente já temos alguns produtores que produzem ótimos cafés e de fato é um mercado que acreditamos que está em ascensão. Acreditamos que ainda há um importante caminho a ser trilhado na busca de cada vez mais qualidade dentro desse tipo de café”, salienta.

Presente em 27 municípios das regiões norte e noroeste do Estado, a empresa também apoia outros concursos de qualidade e mantém uma equipe de técnicos agrícolas e agrônomos no programa Cultivado com Respeito (Nescafé Plan), com foco na sustentabilidade das propriedades rurais para orientar os produtores em relação a busca pela qualidade do café conilon.

Contribuição do Incaper

Importante ator no processo de melhoria da qualidade dos cafés do Estado, o Incaper atua não desenvolvimento de pesquisas e com orientação direta aos produtores por meio do trabalho dos extensionistas. O coordenador técnico de cafeicultura do Incaper, Abraão Carlos Verdin Filho, destaca algumas tecnologias adotadas pelo órgão que contribuíram para melhoria da qualidade tanto do arábica quanto do conilon: variedade, programa de nutrição, manejo da poda e da irrigação e os tratos fitoterápicos.

“Essa proposta de qualidade começa na seleção da planta. Faz a muda, seleciona o material, o produtor planta um material de maior qualidade, vem o cuidado da nutrição do controle fitossanitário, controle do manejo da poda. Tudo dentro de uma recomendação embasada por pesquisa e passada aos produtores pelos extensionistas do Incaper, tudo isso agrega qualidade. Depois vem a parte do produtor que é a colheita do café maduro e os cuidados adequados desse café no pós-colheita”, explica Verdin.

O extencionista e degustador do Incaper Tassio da Silva de Souza diz que foram muitos os fatores que colocaram o café do Estado onde está hoje em termos de qualidade. “Variedades melhoradas, difusão tecnológica para pós-colheita e o mais importante, o produtor, que aceita as tecnologias, o produtor que acredita no seu potencial, e a valorização por parte do mercado para os cafés especiais”.

Assistência e inovação

Fundada em 2010, a Caparaó Jr. nasceu da necessidade de desenvolvimento regional da cafeicultura juntamente com a necessidade de melhorar a formação profissional dos alunos do curso superior de cafeicultura lançado em 2009 no Ifes de Alegre.

Quando surgiu, a proposta da empresa júnior era aumentar a produtividade. Em 2013, porém, começou a trabalhar também, inicialmente com o arábica, a melhoria da qualidade sensorial dos cafés para busca de novos mercados de cafés diferenciados. Em 2018 iniciou o trabalho com o conilon de qualidade.

Equipe da Caparaó Jr. durante o Simpósio de Cafeicultura do Caparaó, em outubro de 2019. (*Foto: Leandro Fidelis)

A missão da empresa é acompanhar o produtor no campo com assistência direta pontual, individual ou coletiva, acompanhamento e treinamento para melhorar os processos de produção, especialmente no pós-colheita, cursos e palestras.


Em 2016, a Caparaó Jr. implantou um laboratório de classificação e degustação de café onde já fizeram mais de 2.000 análises para identificar quais cafés podem avançar para concursos. Já são mais de 200 prêmios conquistados e mais de 100 produtores premiados nos mais variados concursos.

José Alexandre Abreu de Lacerda diz que a Caparaó Jr. e o Incaper, aliados à busca de qualidade por parte dos produtores, colocaram o café do Espírito Santo no patamar que está hoje.

“Alguns fatores nos ajudaram a chegar onde chegamos com a qualidade do café. Técnicas adotadas pelos produtores, na maioria das vezes assistidas pela Caparaó Jr, no nosso caso, e também do Incaper e os produtores que buscaram conhecimento, foram em busca da qualidade. Os produtores viram a necessidade de fazer diferente, de fazer qualidade, isso colocou os cafés do Estado na posição que estão hoje”, conclui Lacerda.


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