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Cafés especiais


O segredo mais bem guardado da Montanha Promissora

Município onde fica o Pico da Bandeira, Ibitirama esteve na rota de pesquisadores no século passado e desperta para a produção de cafés de qualidade

Por Leandro Fidelis
31/01/2020 17h12
Atualizado em 10/02/2020 21h42

*Fotos: Leandro Fidelis

O município de Ibitirama é um dos dez maiores produtores de café arábica do Espírito Santo, com 4,06% da safra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É dessa terra de cachoeiras famosas, como a Pedra Roxa, que se tem a melhor visão do Pico da Bandeira, no Parque Nacional do Caparaó. Em dias claros, é possível ver até o cruzeiro no alto da terceira montanha mais alta do país.

O nome Ibitirama quer dizer, na língua tupi, “Montanha Promissora”. O significado faz jus à história do passado e do presente do lugar. No século passado, Ibitirama foi um verdadeiro laboratório a céu aberto para pesquisas sobre variedades raras de café como o Caturra e o Mundo Novo. O município entrou para a literatura acadêmica agronômica mundial por contar com cultivos não-verificados em outras partes do planeta.

Quem nos conta uma das versões é o produtor, agrônomo e professor universitário Lima Deleon Martins (31). Ele descende da família Oggioni, de origem italiana, a primeira a produzir cafés especiais em Ibitirama a partir de 2015. Em duas fazendas, os proprietários contam com quase 500 mil pés de café e 65 funcionários. A produção prevista para 2020 é de 4.000 sacas, sendo 20% de grãos despolpados.

O bisavô de Deleon, o italiano Joanito Oggioni, conhecido como “Pai Velho”, foi um benfeitor na região. Segundo o produtor, ele foi o responsável em trazer o Banco do Estado ao Caparaó, emprestando o prédio ainda pertencente à família para a abertura da primeira agência da região. O imigrante conseguiu driblar a fiscalização do governo no pós-guerra para persistir na cafeicultura.

Lima Deleon Martins descende da família Oggioni, de origem italiana, a primeira a produzir cafés especiais em Ibitirama a partir de 2015. (*Foto: Divulgação)

“O Banco do Brasil da época pagou os produtores para erradicarem as lavouras de café. Como meu bisa já tinha muitas terras, pegou um aporte maior do governo, plantou e cuidou mais do que tinha, transformando duas propriedades numa potência, porque não tinha mais café em Ibitirama”, conta Lima.

O procedimento foi uma fraude, por isso os fiscais acabaram chegando às terras dos Oggioni. Como o cafeicultor não tinha como devolver o dinheiro, uma vez que se tratava de fundo perdido, a contrapartida foi receber os técnicos do extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC) e dar-lhes condições de realizarem experimentos nas fazendas.

Nos quatro anos seguintes à erradicação, o cenário da cafeicultura nacional mudou e passou a faltar café no mercado. Na década de 1950, as propriedades da família Oggioni viraram Estação Experimental com o trânsito constante dos pesquisadores do IBC, que rodavam a região de Fusca e Jipe. Foi neste período que, segundo Lima, pelo menos 20 variedades inéditas foram identificadas pelos estudiosos, dentre elas a Mundo Novo, na Bacia do Rio São Lourenço.

A variedade apresenta genótipo de porte alto e foi referenciada no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), embora o registro cite apenas o Espírito Santo como local.

“O grande ganho de Ibitirama foi ter sido o berço do melhoramento dessas cultivares. Algumas não evoluíram a ponto de chegar ao mercado, ficaram só na experimentação em campo, enquanto outras foram recuperadas e algumas perdidas”.


A Eva do Catuaí

Outra descoberta na época foi a da variedade Caturra, considerada a “gênese” de muitas cultivares atualmente no mercado, a exemplo de todos os Catuaí e do Catucaí. Dentre as variedades mais comuns na época, a Caturra tinha porte mais baixo e apresentava alta produtividade.

A história é contada em detalhes pela família Carvalho. O cafeicultor Washington Hildebrando (45) conta que a família, originária de Guaçuí, chegou a Ibitirama em 1946. O avô do produtor, Joaquim Hildebrando de Carvalho, foi quem levou a Caturra para a propriedade, até então dominada por cafés carolinos, de porte gigantesco.

A existência da variedade foi publicada na forma de artigo em 1949, no volume nº 9 do boletim técnico do IAC, mas não sabe-se por que o estudioso cita como sendo Siqueira Campos o nome da localidade. Uma cópia da publicação está emoldurada na sala de provas no quintal da propriedade, em São José do Caparaó, a 8 km do centro de Ibitirama.

Artigo publicado há 70 anos sobre o Caturra. (*Reprodução)

O sítio mantém até hoje uma lavoura de Caturra numa área de cinco hectares. “Gosto da variedade porque é super precoce. Muitos produtores não gostam porque produz muito e requer cuidados especiais”, diz Washington.

Apesar de a variedade não ser indicada atualmente pelos técnicos, a Caturra marcou a história da cafeicultura.

“Ela foi responsável pela revolução mundial, fazendo predominar o porte baixo das plantas e originando o café Catuaí, dentre outros. É um marco da mudança da cafeicultura mundial, reverenciada pelos profissionais da IAC”, destaca o coordenador do escritório do Incaper local, Aristodemos de Paiva Hassem.

Ouça entrevista com Washington:

Pesquisador na propriedade da família na década de 1940. (*Acervo familiar)


Novas gerações conectadas com o mundo da qualidade

Os Carvalho mantêm viva a história do Caturra ao produzir um café torrado e moído sob encomenda com o nome da cultivar. Comercializado em embalagem de 250g, o café apresenta notas de frutas amarelas, chocolate amargo, caramelo, mel e finalização cítrica.

E de onde vem esse conhecimento todo? Se Ibitirama é uma “Montanha Promissora”, os descendentes das primeiras famílias do município estão levando isso a sério, trilhando um caminho de sucesso na produção de cafés de qualidade.

Juntamente com o filho Ériclis (23) e a nora, Samara dos Santos (20), Washington administra o “Café Carvalho”. A família começou a despolpar para tentar valorizar mais o produto e, há cerca de um ano, lançou a marca de grãos torrados e moídos vendidos em supermercados da região, cafeterias da capital e pela Internet. A microtorrefadora ocupa uma antiga construção da fazenda, anexa às salas de prova e processamento.

Ériclis, Samara e Washington na lavoura de Caturra da fazenda.


Antes de iniciar os negócios, o trio visitou propriedades em Brejetuba e Venda Nova do Imigrante e participou de cursos de torra e degustação na Caparaó Jr., empresa júnior do Ifes de Alegre. “Tudo é possível. Basta correr atrás e se dedicar. Estrutura a gente tem que montar, mas a mudança maior é na cabeça”, afirma Washington.

A transformação da família com relação à cafeicultura foi radical. Ériclis e a mulher nem tomavam café antes de participar dos cursos.

"Descobri coisas que nem imaginava e me apaixonei. Sou mulher e sei do capricho necessário para obter cafés de qualidade”, diz Samara.

Apesar do pouco tempo no mercado, os nanolotes de café dos Carvalho já chegaram à China, Austrália e Canadá. “Os compradores descobrem nosso café pelo Instagram e gostam muito das notas de castanha e melado intenso da bebida”, conta Ériclis. Os próximos passos da família serão a instalação de uma estufa e a abertura de uma cafeteria para receber os apreciadores de café.

O mercado de qualidade também despertou o interesse de Lima Deleon, da família Oggioni. Em 2015, o agrônomo fez doutorado e pós-doutorado em Portugal e um amigo pesquisador o levou para visitar uma torrefação em Lisboa. Para sua surpresa, o proprietário disse que conheceu Ibitirama em visita ao Brasil. “Ele me pediu uma amostra para experimentar e passou a comprar nosso café”, conta.

Segundo o agrônomo e produtor, o pulo do gato foi quando o clube de assinatura “Have a Coffee” (que você conheceu na reportagem especial da edição 38) comprou um microlote da família e passou a divulgar a história em embalagens e nas redes sociais. Os grãos, verdes ou torrados com a marca “Sítio Terra Alta”, já foram parar na Holanda, Estados Unidos, Portugal, Dinamarca e Austrália. Os produtores também atendem a Nestlé e fornecem para uma franquia de cafeterias só presente em aeroportos.

Para Lima, o diferencial está na possibilidade de utilizar variadas cultivares presentes nas lavouras da família como base dos cafés “Sítio Terra Alta”. “Os microlotes de grãos especiais chegam a oitenta sacas, dependendo do ano. Com facilidade já alcançamos 92 pontos, com notas frutadas, achocolatadas e florais”.

Qualidade desperta família para o futuro na roça

Na localidade de Córrego Dantas, zona rural de Ibitirama, o casal Luzia Rodrigues Moreira Alves (41) e Pedro Alves da Silva (42) é calouro na arte de produzir cafés de qualidade. No entanto, os produtores surpreenderam logo no primeiro ano nesta atividade. Em 2019, eles conquistaram a segunda colocação no Concurso Municipal de Qualidade. Foi o estalo que precisavam para não venderem a propriedade e viabilizar o futuro dos filhos.

A produção começou em maio do ano passado sem muita estrutura com a colheita entre junho e novembro. Pedro relata que comprou a propriedade quando ainda era solteiro, dedicando 3 hectares para o café arábica. Nos últimos anos, com o preço do café cada vez mais baixo e o custo de produção só aumentando, o produtor ficou muito desanimado. Há dois anos, Pedro e o irmão, que é vizinho, pensaram até em vender as propriedades e morar na cidade.

Foi um primo que sugeriu a Pedro tentar o mercado de cafés especiais. Sem muita experiência, o casal usou as ferramentas que tinha para começar. Passou a fazer colheita seletiva, a lavar os grãos e tirar os boia, utilizando a estufa provisória com dois terreiros suspensos.

O ritual é seguido à risca diariamente em período de safra. Os filhos Francielle (17) e Pedro Arthur (10) chegam da escola e ajudam na cata a dedo. “O que dá mais trabalho é lidar com o clima frio da região, porque o café corre o risco de mofar. A benção é que chove muito e atrasa a maturação dos grãos”, diz Pedro.

No ano passado, os produtores levaram a primeira cata para um especialista, que os orientou sobre medir temperatura e recomendou a inscrição no concurso. A única saca inscrita obteve 87,4 pontos na análise sensorial dos jurados e foi arrematada por R$ 1.500,00.

“Quando soubemos que nosso café ia para a mesa de prova foi uma surpresa muito grande. A gente está pegando ritmo com o tempo e sempre aprendendo algo novo. O café especial acaba sendo mais fácil de colher que o rio”, afirma Luzia.

O entusiasmo é nítido na família. Pedro e Luzia pretendem conhecer mais produtores no mercado de qualidade para abrir novos caminhos, além de vislumbrar a continuidade dos negócios com o casal de filhos. Este ano, vão melhorar a estrutura da estufa e colher mais.

“O povo tem medo de dar a cara a tapa e acomodou com o café rio”, analisa Pedro. “Nosso objetivo é melhorar a qualidade todo ano e mostrar aos vizinhos que é possível. Muitas pessoas viram onde chegamos e vão começar a produzir cafés de qualidade este ano”, completa Luzia.


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