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Cafés especiais


Torrar em casa é a nova febre dos ‘coffee lovers’

Mercado investe em tecnologias voltadas para o consumidor, a partir de projetos muitas vezes criados e desenvolvidos no âmbito acadêmico

Por Leandro Fidelis
28/04/2021 11h00
Atualizado em 10/05/2021 12h50

*Fotos: Leandro Fidelis/Conexão Safra (*As fotos têm direitos autorais)

Os métodos de preparo diferenciados de café não são só coisa de barista. Na onda do “faça você mesmo”, comprar café verde para torrar em casa no forno micro-ondas ou na pipoqueira elétrica conquista adeptos. Com isso, aquela imagem do tradicional torrador de “bolinha” dos tempos da vovó vai ficando no passado.

A boa notícia são os constantes investimentos em tecnologias voltadas para o consumidor de café, dentre elas torradores caseiros conectados ao celular. O Espírito Santo não fica atrás e vai colocar no mercado mundial um equipamento genuinamente capixaba no próximo ano. E a exemplo do micro-ondas, o projeto sairá do meio acadêmico.

“Hoje há muitos entusiastas que não atuam no ramo do café. São curiosos ou pessoas que pretendem abrir algum negócio na área. O acesso à tecnologia, a diversificação e o baixo custo têm tornado possível para essas pessoas conhecerem, experimentarem e terem uma vivência mais de perto. Isso é legal porque está construindo um senso crítico maior entre os consumidores de cafés especiais, e a gente começa a ter um diálogo em nível mais elevado”, avalia o primeiro Q-Grader capixaba, Rafael Marques.

Além dos torradores caseiros, já existem máquinas de cafés espresso com tecnologia super avançada de pré-infusão, só para citar algumas novidades. Os equipamentos não só satisfazem os desejos dos “coffee lovers” como os conectam com apreciadores de todo o mundo. De acordo com Rafael, as trocas de experiências ocorrem através de aplicativos, a exemplo do Strava, usado por corredores e ciclistas. “Os novos torradores permitem até compartilhar por aplicativo as curvas de torra testadas com cafés de determinadas regiões”.

Sempre atento às novidades, o Q-Grader é um vanguardista em tecnologias de ponta. Em 2015, Rafael Marques foi o primeiro brasileiro a adquirir um torrador de café especial que ainda não tinha sido lançado no mercado. O episódio foi até assunto em um blog suíço. “Comprei no escuro. Na época, eu estava ligado a uma startup com projeto de criar uma plataforma para verticalizar o mercado. O responsável ficou sabendo da minha proposta de levar o laboratório de prova até a casa dos cafeicultores e comunicou isso ao idealizador do equipamento. Me deram um baita desconto”, lembra.

Marques acredita que antecipar tendências faz parte da sua inquietação como profissional. “Não me acostumo com o tradicional. Valorizar o produto dos cafeicultores e não deixá-lo passar despercebido exige tecnologia de ponta”. Para o Q-Grader, a conectividade com os novos equipamentos o liga à cadeia final e acaba trazendo para si uma vontade maior de experimentar as novidades. “Você está ali usando o mesmo equipamento do cara lá em Nova York. Acaba sendo uma brincadeira de gente grande”, diz.

Sempre atento às novidades, o Q-Grader Rafael Marques é um vanguardista em tecnologias de ponta. Em 2015, Rafael Marques foi o primeiro brasileiro a adquirir um torrador de café especial que ainda não tinha sido lançado no mercado.

Inteligência

No primeiro trimestre deste ano, o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus Venda Nova do Imigrante, depositou o pedido de uma nova patente. Trata-se de um torrador de café caseiro e laboratorial com seis vezes mais capacidade operacional que o disponível no mercado. O diferencial do equipamento é o software programado para antecipar possíveis problemas durante a torra e comunicá-los via smartphone. O lançamento foi adiado por conta do atraso da entrega de sensores importados na pandemia, mas espera-se que no segundo semestre de 2022 a tecnologia inovadora desenvolvida em ambiente acadêmico chegue ao mercado mundial.

O projeto foi criado por estudantes e pesquisadores do Laboratório de Análises e Pesquisas em Pós-Colheita de Café da instituição. As parcerias da unidade com instituições no Japão, Rússia e América do Norte deverão aprimorar os testes e ajudar a inserir o torrador para uso laboratorial em mercados “mais agressivos, como o norte-americano, que cobra muita excelência, qualidade e perfeição”, informa o professor e coordenador do projeto, Lucas Louzada Pereira. Outra frente de atuação mira o mercado nacional com um produto mais voltado para uso doméstico, a partir do mesmo projeto.

O doutor em engenharia de produção aposta no atual ambiente mais “maker” (fazedor) para o sucesso do torrador de café. “No final do século passado, o mundo se voltou para essa tendência mais artesanal, ainda se aproveitando da escala industrial, e o café não ficou de fora. Para nós, inseridos em regiões produtoras, consumir café é algo muito simples. Para o europeu, americano ou asiático é uma prática diferente, primeiramente porque eles não têm acesso a uma matéria-prima tão genuína e intacta como nós. Segundo, porque carregam uma mística de como ele é produzido, processado e tem história por trás”.

A partir da iniciativa global do “faça você mesmo”, segundo Lucas, foi gerada uma onda de pessoas interessadas em fazer o próprio café do ponto de vista de torra e extração, dois processos considerados simples. Com isso veio a necessidade da criação de implementos sofisticados para evitar experimentos domésticos, como utilizar a pipoqueira elétrica ou o forno micro-ondas. “Algumas empresas começaram a lançar torradores domésticos e para laboratórios, máquinas que não emitem fumaça e não geram resíduos, mas sempre prezando a segurança do usuário”, afirma o professor.

O usuário de equipamentos autônomos quer simplicidade associada à personalização. Então, o conceito de customização é muito forte por trás de quase todos os produtos, salienta Lucas. “Acredito que estamos vivendo o momento da agricultura. Os produtores já estão começando a vender cafés em quantidades inimagináveis, por exemplo, pacotes de dois quilos verdes. Imagino nos próximos anos comprar em supermercado café verde de cem gramas, levar para casa e desenvolver meu perfil de torra. As pessoas estão dispostas a pagar caro pela experiência de um produto único sobre o qual podem dar o seu toque final”.

Automação

Nesse contexto, o Ifes campus Venda Nova do Imigrante resolveu lançar o desafio de automação para a torra, com fins científicos e uso residencial. De acordo com Lucas Pereira, o torrador é de pequeno porte e torra 300g de café por vez (o concorrente direto trabalha apenas com 50g). O grande diferencial é o algoritmo que consegue antecipar problemas na torra, como por exemplo, se a umidade mudou radicalmente durante o processo. “A Inteligência Artificial é o cérebro condutor do equipamento, que adequa a curva de torra para o grão não queimar. A internet das coisas está bem embarcada no nosso software”, revela.

Nos próximos meses, o Ifes fará uma apresentação pública do protótipo, em fase de ajuste de design. De acordo com Lucas, o próximo passo será captar investidores para assumirem a tecnologia. “O mais legal é que se trata de um produto genuinamente capixaba, cem por cento brasileiro e totalmente desenvolvido por instituições públicas, com apoio do Sicoob Sul-Serrano”.

E aquela torra manual na “bolinha” promete deixar de ser prática até entre os cafeicultores mais experientes. “Nós queremos que os avôs e avós passem a torrar com o uso de celular. Estamos muito otimistas com a nova realidade. Não dá mais para não inserir a cafeicultura de montanha nesse ambiente de precisão. A cada ano que passa, a mão de obra se torna mais escassa, os custos operacionais aumentam e o produtor se vê refém do dilema: diversificar ou investir em qualidade?”, avalia o professor.

Cooperação

A expectativa do grupo é que o torrador seja a primeira máquina de uma linha de produtos autônomos para a agricultura de precisão desenvolvidos na instituição. Três estudantes atuam diretamente no laboratório. No entanto, pelo menos 68 pessoas estão ligadas ao laboratório, entre pesquisadores de diversas instituições de dentro e fora do Brasil e em níveis de graduação diferentes.

“É um ambiente interativo, mas não tem competição interna. Ninguém rouba a ideia de ninguém. Acredito que a grande capilaridade nossa seja a de cooperação, o DNA deste grupo de pesquisa. Quando juntamos habilidades diferentes e colocamos de lado os egos, a gente consegue produzir muito mais e partilhar a conta. Fica tudo mais fácil, barato e acessível”, analisa Lucas Pereira.

O desafio da automação industrial começou com o biorreator. Em 2019, o laboratório iniciou a construção do primeiro fermentador de café que se tem registro no mundo. “Concluímos a máquina em tempo recorde, a validamos no Cerrado mineiro e já estamos na terceira versão do equipamento”. Atualmente, o grupo atua no projeto de um secador sem uso de fornalha com a promessa de achatar o tempo de secagem do café, geralmente de 36h a 48h, para algo em torno de 5h a 8h sem perda de qualidade e problemas com o meio ambiente. “Foi muito importante a participação do Sicoob Sul-Serrano para estruturar o laboratório e a gente começar a fazer”, diz o professor.

E diante de tanta criatividade e inovação, o laboratório do Ifes Venda Nova do Imigrante não está mais restrito ao café. Alguns implementos desenvolvidos pelos pesquisadores já estão sendo aplicados em outras culturas agrícolas. O fermentador, por exemplo, obteve sucesso nos testes para produção de vinho e cerveja, embora não sejam linhas diretas de pesquisas no campus. Outras máquinas menores também são aplicadas na secagem de cacau e pimenta do reino, entre outros produtos.


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