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Cafés especiais


Uma ‘floresta de comida’ no cafezal

O radar da sustentabilidade do Sítio Recanto dos Tucanos, em Alto Caparaó (MG), ecoa no Brasil e no exterior. Conheça a iniciativa do cafeicultor Willians Valério, que levou a agricultura sintrópica para o pódio da Semana Internacional do Café

Por Leandro Fidelis
5/04/2021 13h00
Atualizado em 9/04/2021 11h28

*Fotos: Leandro Fidelis (*As imagens têm direito autoral)

Não muito distante do centro de Alto Caparaó (MG), o Sítio Recanto dos Tucanos inspira paz, amor e ecologia a cerca de 1.500m de altitude. A propriedade pertence a Willians Valério (34), campeão do COY em 2019. A subida íngreme (e a pé, pois chovia muito no dia da reportagem e o carro não passava) é compensada pela paisagem em 360º da Serra do Caparaó e os ventos serenos que sopram os filtros dos sonhos pendurados no terraço.

Com simplicidade e engajamento, Willians é defensor da agricultura sintrópica. O conceito criado pelo agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch consiste na busca por um sistema de produção agrícola equilibrado em que todas as espécies têm seu papel. Vai além do consórcio entre culturas, pois prega a ordem, a partir de práticas de manejo sustentáveis como orgânicos, sistemas silvipastoril e agrofloresta.

E o resultado no sítio mineiro é surpreendente: café arábica em equilíbrio com mais de 100 espécies como mogno africano, eucalipto, banana, azeitona, milho, feijão, batatas de todos os tipos, pêssego, entre outras. Uma “floresta de comida”, como diz o agricultor, com solo nutrido e colheita de madeira.

Segundo Willians, Alto Caparaó sempre teve cafés bons, mas a chegada de Clayton Monteiro à região fez a diferença no cenário local da qualidade. Nascido no Rio de Janeiro, Willians (que tem família na cidade) queria atuar com “algo mais sustentável”, não somente cafés especiais, no sítio adquirido pelo pai há 27 anos.

“Meu pai tinha cortado todo o café e plantado pêssego e azeitona. Eu olhava para essas plantas e pensava: ‘não vai caber café’. Cheguei a trabalhar com café convencional, mas sem sucesso. Daí comecei a pesquisar a agricultura sintrópica e a desenvolver o sistema durante dois anos. Muita vontade e pouco conhecimento, mas foi uma grande escola”.

Em 2017, o produtor mandou a primeira amostra de café para o concurso da SIC e conquistou a 12ª colocação. Nos últimos cinco anos, aprimorou a produção, fez cursos (inclusive com Götsch) e passou a se dedicar a acompanhar os ciclos da floresta, “a nossa professora”, diz.

“Cada etapa da mata evolui de uma forma, mas sempre pra frente. Na agricultura sintrópica, a gente busca entender e participar de cada uma, sem pulá-las, para evoluir juntamente com todo o ecossistema”, explica Willians.

O cafeicultor colheu 15 sacas de café de agrofloresta em 2020. Ele defende o cultivo como mais sustentável que o orgânico. “O café orgânico significa que não tem veneno, mas causa o mesmo impacto ambiental que o produzido com agrotóxico. Primeiro, vai ter que trazer esterco de fora a vida inteira. No sistema agroflorestal, com o tempo o agricultor vai corrigindo o solo e, só com manejo certo, faz as coisas acontecerem. A gente está sempre compartilhando esse conhecimento”, conta Willians, que promove cursos, presta assessoria e recebe voluntários.

O radar da sustentabilidade do Sítio Recanto dos Tucanos ecoa no Brasil e no exterior. O estudante de gestão ambiental Misael Cardoso (25), do Rio Grande do Sul, começou como voluntário há quatro meses e virou funcionário da propriedade. Para o jovem, a atuação na área é uma questão de propósito.

“Uma pessoa que a gente consegue influenciar com este método alternativo é um a mais para reverter a monocultura, um sistema que produz alimento, mas já está provado que não contribui para a biodiversidade e só acelera a desertificação do solo”.

Ao ganhar o “Melhor Café do Ano” em 2019, Willians Valério apresentou ao Brasil não somente um café com 90,5 pontos, como também levou a agricultura sintrópica para o topo do pódio. “Representei todo mundo que luta por essa causa naquele momento. Agrofloresta é um desafio, e não é porque você a pratica que terá o produto mais valorizado. A garantia é uma poupança, que é o solo. Tenha certeza que ao plantar uma semente, a cada ano ela será melhor”, conclui.


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