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Cafés especiais


Visão muito além da lavoura de café

Ao adquirir sítio no Caparaó, empresário da capital do ES colocou em prática sonho de produzir alimento sem veneno e verticalizar os negócios

Por Leandro Fidelis
19/04/2021 10h00
Atualizado em 3/05/2021 18h43

*Fotos: Leandro Fidelis (*As imagens têm direito autoral)

O ano é 2018. O capixaba da gema Fabrício Campos Dall’Orto (48) lembra com exatidão a data, 4 de janeiro. Foi nesse dia que o técnico em mecatrônica e empresário deu mais um passo em um projeto ousado ligado a cafés de qualidade.

Ao adquirir o Sítio Pedra Roxa, na localidade de mesmo nome, no interior de Ibitirama (região do Caparaó) ele tinha em mente duas coisas: produzir alimento sem veneno e verticalizar os negócios. Já atuante na capital no comércio de acessórios para cafeterias e insumos, no aluguel de máquinas de espresso e também com treinamento para baristas, só faltava colocar a mão na terra para fechar o ciclo e fazer jus ao sobrenonome italiano, que significa "da horta".

O empresário chegou “causando”. Tudo em pouquíssimo tempo. Ainda em 2018, ficou em 7º lugar no Concurso Municipal de Café de Qualidade. Como em toda comunidade interiorana, o “forasteiro” sofreu as consequências de ainda ser um desconhecido, mas não se deixou abater. Mal chegou e já quis sentar na janela. No ano seguinte, Fabrício foi o campeão da vez e ainda cravou a 3ª colocação na mesma disputa.

E 2019 confirmou o bom momento. Uma empresa mineira convidada a participar do Festival de Cafés de Nova York escolheu uma amostra do sítio para somar a outras duas no evento. No final daquele ano, o café do empresário ficou entre os 150 melhores da Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte. Nenhum outro cafeicultor de Ibitirama tinha chegado tão longe. A mesma janela onde Dall’Orto se sentou abriu um novo horizonte para outros produtores.

“Quando coloquei os pés aqui pela primeira vez e falava com as pessoas que tornaria o Sítio Pedra Roxa produtor de cafés especiais, elas riam. Ninguém estava acostumado com isso. Aqui o normal é jogar o café de derriça no chão e vender como tipo 7, e isso não fecha a conta. Depois que vim pra cá, muitos começaram a ver café especial como possibilidade de renda”, conta o empresário, que afirma que os 2º, 6º e 11º colocados do concurso de 2019 aprenderam a preparar cafés finos com ele.

Campos Dall’Orto inspira uma nova consciência no município com uma das mais belas vistas para o Pico da Bandeira. (*As imagens têm direitos autorais)

Campos Dall’Orto inspira uma nova consciência no município com uma das mais belas vistas para o Pico da Bandeira. Ele começou tudo do zero no Sítio Pedra Roxa, a 24 km da sede e com acesso pela rodovia ES-190. Aterrou 16 açudes e juntou outros sete para fazer um reservatório de água. Nos últimos dois anos, iniciou o processo de desintoxicação das lavouras de arábica para obtenção da certificação orgânica. A última vez que usou produto químico foi em maio de 2018 para controlar o mato. Os pés ocupam 8 hectares do total de 15,4 ha da propriedade. A ideia é aumentar a lavoura sem derrubar árvores e também plantar abacateiros.

Além disso, o “empresário do setor cafeeiro” (como se autointitula) construiu uma estufa de 300m² com terreiro suspenso para secar os grãos de café. A benfeitoria tem um sistema testado pelo próprio produtor para ventilar sob medida, evitando contaminação e umidade. Segundo Fabrício, o sítio inteiro está sendo verticalizado para a produção orgânica. “Tive consultoria do Sebrae e fiz as alterações com menos de dois dias”, diz. A auditoria foi realizada em 2020, e em junho ou julho deste ano a certificadora irá à propriedade, com previsão de conceder o selo em setembro.

“Não adianta você produzir somente café. Já vi lavouras a coisa mais linda do mundo, com talhões mais limpos que a cozinha da minha casa, mas não tinha mato, inseto... A preocupação do Sítio Pedra Roxa é ter vida. Parece que as lavouras estão abandonadas no meio do mato, mas é proposital. O mato é roçado e fica no chão para virar adubo orgânico. Com isso, tenho insetos, pássaros e consigo manter todo o ecossistema funcionando”, explica Dall’Orto.

O empresário avalia que sua matemática é assertiva para agregação de valor. Ele já vendeu uma saca por R$ 1.500 e este ano teve lote negociado a partir de R$ 800 a saca. Mesmo sem histórico de produção, a meta é alcançar 150 sacas de cafés especiais com a certificação.

"Sempre tive a ideia de produzir alimento sem veneno. Tenho uma filha de 17 anos que não gosta de café e queria que sua primeira experiência fosse com um orgânico. É um processo lento e caro, mas vale a pena. Se reduzir a produção pela metade, mas agregando valor, o meu lucro vai ser maior. Não é a quantidade de saca que a lavoura gera durante o ano, é o valor agregado que vem em cada uma que conta”, afirma.

E continua: “A grande proposta é produzir café ao custo do suor do produtor, chega de café ao custo do sangue. Imagina você na cafeteria tomando uma xícara de café e saber que o produtor responsável morreu por causa do veneno jogado nas lavouras?”.

O Sítio Pedra Roxa abriu oportunidades de trabalho para a mão de obra local. (*As imagens têm direito autoral)

Conhecimento

E em pouco mais de dois anos, Fabrício Campos Dall’Orto vem tornando sua história conhecida antes mesmo de a vizinhança o conhecer pessoalmente, embora até antes da pandemia a presença do empresário era certa em eventos do setor, sempre em contato com representantes da cadeia produtiva.

Dall’Orto acredita que a ida para Ibitirama contribui para diminuir o êxodo rural. A começar pelas oportunidades de trabalho criadas no Sítio Pedra Roxa. “Alguns ainda acham que sou louco (risos). Minha ideia é ensinar as pessoas a fazerem café de qualidade. Sempre digo que sou extremamente capitalista. Faço com amor, mas trabalho por dinheiro. Quanto mais eu dividir conhecimento, mais tempo vou conseguir manter o homem do campo produzindo. Quanto mais pessoas produzindo, menor o êxodo rural”, ressalta.

Outros projetos visam transformar a propriedade em um radar de qualidade e sustentabilidade de café. Na sede do sítio, Fabrício construiu um prédio onde, além de abrigar escritório e armazém, terá um centro de treinamento com 98 m² no segundo pavimento. O empresário já mantém um empreendimento semelhante em Vitória, e a ideia é transferir parte das instalações para o novo endereço onde pretende ensinar sobre preparo do solo, plantio, colheita, pós-colheita, classificação física e sensorial, torrefação e formar baristas. “A pessoa vai passar por todas as etapas e decidir em que ramo atuar”.

A gama de iniciativas do “Grupo Dall’Orto” não tem fim. No final de 2020, Fabrício criou a “Make a Coffee”, uma franquia de cafés com marca própria. O empresário dá todo suporte para quem quer empreender na área de cafés especiais. Além disso, é representante estadual de duas marcas de produtos para nutrição de plantas. A primeira é dos fertilizantes orgânicos Yorin, certificados pela EBD, considerada a maior certificadora de produtos orgânicos e sustentáveis da América Latina, e a segunda é a Guerra Brasilica Clinicals, com produtos que estimulam a parte vegetativa do cafeeiro. “Os resultados são gritantes. As plantas lançam mais ramos e aumentam a produção”, afirma.

*Foto: Divulgação (*A imagem pode ter direito autoral)


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