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Chuvas no ES


Chuvas do 1º tri: boas para café e pecuária, mas ruins para horta

Apesar da destruição nas áreas urbanas, o primeiro trimestre chuvoso foi positivo para muitos agricultores capixabas

Por Leandro Fidelis
21/03/2020 19h53
Atualizado em 31/03/2020 12h59

*Foto: Rodolfo Réboli/Reprodução Facebook

As chuvas deste início de 2020 contribuíram para reduzir a seca e impactaram positivamente na agropecuária capixaba. Atividades como cafeicultura e pecuária de corte e leiteira, em especial no sul do Espírito Santo, se beneficiaram com o volume acumulado neste primeiro trimestre.

No entanto, olericultores, fruticultores e produtores de hortaliças em geral sofreram com o excesso de precipitação. As perdas na tomaticultura chegam a 70% da produção em Venda Nova do Imigrante, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

Região das mais afetadas pela longa estiagem entre 2016 e 2018, o Noroeste não sofreu com a forte chuva. O coordenador de meteorologia do Incaper, Hugo Ramos, avalia a precipitação de janeiro.

“Os municípios estavam enfrentando graves problemas socioeconômicos e ambientais por causa da seca: perda da produção, conflito pelo uso da água... A região não sofreu com a forte chuva. Os municípios sentiram os efeitos secundários, como a cheia do Rio Doce e de outros mananciais, mas não foram prejudicados pelo excesso de precipitação. Pelo contrário”, disse.

Ramos ressalta que a chuva melhorou a disponibilidade hídrica, principalmente para as culturas perenes.

“Algumas áreas que ficaram alagadas, houve prejuízo, principalmente no cultivo de hortaliças. Mas para as culturas perenes, a chuva foi benéfica, porque o solo já estava muito castigado com meses seguidos de deficiência hídrica. Em quase todos os municípios capixabas, o volume de chuva acumulado tem superado a média climatológica desde o começo do verão, confirmando a tendência de normalização das chuvas divulgadas no início da estação”, acrescentou.

Esperança

Na região de Nova Venécia, as chuvas renovam as esperanças de boas colheitas de café conilon e produção de leite de qualidade. Segundo o diretor de Lácteos da Coopeavi, Erik Pagung, a satisfação é notória nos produtores associados à cooperativa. Ele reforça a necessidade de agricultores e pecuaristas planejarem e se estruturarem para novos períodos secos.

“Saímos de um longo período de estiagem e este começo de ano é sinal de boas colheitas e, consequentemente, de boas produções, melhorando a receita dos nossos cooperados e refletindo no comércio de toda a região”, diz.

No caso da pecuária, em função da alta no milho e soja dos últimos meses, a maior disponibilidade de capim permite a redução da oferta de rações nesse período. Mas não é um quadro comum a todos. Em Ibitirama, teve produtor com prejuízo com silo de milho ao perder a única lavoura para alimentar o boi.

Em São Bento de Urânia (Alfredo Chaves), maior região produtora de inhame do Estado, a expectativa é colher mais de 50 mil toneladas favorecidas com as chuvas. Só para se ter uma ideia, em todo o Espírito Santo a produção média é de 80 mil toneladas do tubérculo.

O produtor Jandir Gratieri comemora a economia na irrigação dos plantios.

“O tempo trabalhou perfeitamente com chuvas. Economizei R$ 10 mil de irrigação. Redução no custo e aumento de produtividade”, diz.

Jandir Gratieri (E) recebe visitantes na propriedade, em São Bento de Urânia. (*Fotos: Divulgação)


A precipitação do primeiro trimestre do ano no Estado também foi sentida em áreas limítrofes como a região do Caparaó. Na cidade mineira de mesmo nome, cafeicultor Antonio Marcos Xavier boas expectativas com a próxima safra de café arábica.

“As chuvas estão contribuindo para um resultado magnífico. Vai ser uma colheita com grãos mais uniformes, cafés com peneira muito boa e maturação bem igual”, prevê.

Expectativa com recuperação de nascentes

As chuvas também aumentam o otimismo dos produtores rurais na recuperação das nascentes. Porém, o excesso pluviométrico não significa a perenidade do recurso, como esclarece o diretor técnico do Incaper, Nilson Araújo Barbosa.

“O aumento no volume de água ofertado por chuvas mantém as nascentes alimentadas, mas sua perenidade vai em função do processo de recuperação na última década. Se a nascente estava desprotegida, recebe o excesso de água e cobre o leito. No caso daquelas que ficaram muito secas pode acontecer de parar de correr, porque o que vai segurar a infiltração e correr água é o processo de recuperação”, explica Barbosa.


As chuvas facilitam os processos de melhoria da conservação do solo e da água, avalia o diretor.

“Se uma lavoura nova estiver com o solo descoberto vai correr água para o leito do rio e depois para o mar. A evaporação é grande em dias de sol, por isto o ideal é manter a cobertura do vegetal nas entrelinhas do café, por exemplo”.

Para Pagung, é preciso um período maior com bons índices pluviométricos para a recuperação das nascentes.

“Só assim nós do interior podemos acreditar de fato que é do campo que vem a produção que alimenta uma região, um país...”

Impacto maior nos cultivos de hortaliças

As lavouras de hortaliças estão sentindo muito o excesso de chuva. Regiões produtoras como Santa Maria de Jetibá, Marechal Floriano e Venda Nova do Imigrante sofrem com a perda da qualidade e doenças causadas pelo excesso de umidade.

Em Marechal Floriano, das 1.500 propriedades rurais cadastradas pela prefeitura, 800 foram atingidos pelas chuvas volumosas deste primeiro trimestre.

Já em Santa Maria de Jetibá, as chuvas prolongadas favorecem o ataque de doenças nas lavouras e alface e repolho. Produtores amargam prejuízos na hora de vender o produto. Além disso, nos municípios citados há dificuldade de acesso nas estradas para escoar a produção.

O cenário não é nada animador também na localidade de Alto Caxixe, distrito de Venda Nova do Imigrante. As perdas nas lavouras de tomate chegam a 70%, de acordo com o Incaper. O tomate representa 30% da economia do município. Devido às chuvas, os frutos não se desenvolvem bem e as doenças e as pragas aproveitam para agir.



Um dos maiores produtores perdeu metade da produção em 40 mil pés com traça, broca, cancro, sem contar o adubo que se perde na enxurrada.

O resultado é o preço do tomate nas alturas. No início de março, chegou a R$ 4 o quilo, sendo R$ 80 a caixa com 20 quilos, mas teve venda a R$ 5 o quilo em alguns supermercados.

Alguns estabelecimentos chegaram a vender a R$ 10 o quilo do tomate lavado e embalado. Pode parecer que o produtor vai lucrar com isso, mas as chuvas dobraram os custos de produção.

E são os tomates com melhor aparência que ainda têm saída. A maior parte da produção é rejeitada pelo consumidor por conta do aspecto danificado. É o que avalia o agrônomo e pesquisador do Incaper Helcio Costa.

“Os frutos trincam, daí o consumidor não quer. A qualidade é menor pelo menos na aparência”.


‘O produtor está sempre perdendo’, diz agrônomo

O prejuízo com o excesso de chuvas para quem produz tomate vai além do resultado negativo no produto final que chega à mesa do consumidor. Nas lavouras, as plantas sofrem com doenças, a exemplo dos fungos. E os produtores têm dificuldade com a logística por conta do relevo acidentado das lavouras e na adubação, além de amargarem menor produtividade.

“O produtor não tem como controlar o tempo. Sem sol, a produtividade é menor”, afirma Helcio Costa (Incaper)

A predominância de morros na região de Alto Caxixe, zona rural de Venda Nova do Imigrante, dificulta o produtor colher o tomate no campo e levá-lo até o barracão.


Segundo Costa, as chuvas também causam problemas na pulverização e adubação foliar das folhas de tomate.

“As chuvas lavam o produto, o que ajuda a diminuir a produtividade. O produtor está sempre perdendo”.

O diretor técnico do Incaper, Nilson Barbosa, ressalta, entretanto, a importância de investir em variedades mais resistentes e técnicas de cultivo que garantam alta produtividade nas lavouras de folhosas.

“Em períodos de chuva, as folhosas morrem quando cultivadas em baixadas. Se a chuva perdura dois, três dias em áreas de baixadas próximas ao leito do rio é prejuízo na certa. Teve produtor que perdeu cem por cento da produção em Santa Maria de Jetibá e Marechal Floriano”, conclui.

Nilson Barbosa, diretor técnico do Incaper.


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