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Gengibre é ‘moeda de troca’ em região produtora do ES

Motos, carros, caminhões e até casas são comprados com a raiz em Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá e Domingos Martins

Por Leandro Fidelis
18/06/2020 17h19
Atualizado em 1/07/2020 18h05

*Fotos: Divulgação

O produtor rural Avelino Calot, de Rio das Farinhas (Santa Leopoldina), comprou uma caminhonete.

Na mesma localidade, outro produtor, o Josué Gürtler, adquiriu duas propriedades.

Seria algo corriqueiro no mercado, se não fosse por um detalhe. Nenhum dos dois usou dinheiro, e sim, o gengibre como “moeda de troca”.

A exemplo do café em muitas cidades do Espírito Santo, compras sem intermediação monetária ainda são bastante comuns em comunidades pomeranas produtoras de gengibre, um dos principais produtos de exportação do Estado.

Motos, carros, caminhões e até casas são comprados com a raiz. O comércio de localidades como Caramuru, zona rural de Santa Maria de Jetibá, outro município produtor, já está até acostumado a receber gengibre como pagamento.

Cerca de 80% da produção brasileira sai do solo capixaba para ganhar os mercados dos Estados Unidos e da Europa. O maior produtor é Santa Maria de Jetibá, que responde por 38,54% de toda a produção do Estado. Santa Leopoldina e Domingos Martins ocupam a segunda e terceira colocações no ranking, respectivamente.

Os primeiros cultivos datam de meados da década de 1970, conforme publicação do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) de 2015.

A produção só cresce. Se em 2014 o Espírito Santo produziu 12,9 mil toneladas, em 2019 foi quase o dobro: 23 mil toneladas de gengibre.

Neste mês, a caixa com 14 kg está valendo R$ 40,00. Preço bom, mas nada comparado com 2014, ano em que a caixa de gengibre alcançou R$ 200,00, quase o valor do grama de ouro.

“Tudo na roça é difícil, estamos na luta sempre. Daí em ano bom a gente planeja comprar. O gengibre é uma cultura bastante rentável e possibilita fazer um pé de meia para passar o ano”, diz Avelino Calot, que trocou 200 caixas da raiz pela caminhonete há quatro anos e relata problemas recentes com doenças nas lavouras.

Josué Gürtler soma 21 anos na produção de gengibre em Rio das Farinhas. O produtor, que comprou duas propriedades por meio da barganha naquele prodigioso ano de 2014, conta que só ficou de fora de uma safra.

Ele relata oscilações na atividade, mas aposta em 2020 como bom ano. A expectativa de safra é de 3.000 a 4.000 caixas de 15kg.

“Com o gengibre é assim. Dois ou três anos ruins de preço e um bom. Mas infelizmente, quem não produz com qualidade prejudica quem a faz”, diz Gürtler.

A safra começou no final de maio e vai até outubro, mas é possível colher gengibre o ano todo, segundo o produtor.

Josué Gürtler vive da atividade desde 1999 e conseguiu adquirir duas propriedades em Santa Leopoldina em troca de gengibre.

“Colho o gengibre velho em janeiro e emendo com a colheita da raiz mais nova para aproveitar a demanda. A crise da Covid-19 não atingiu a cultura”.

O comprador de gengibre Djalma Santana (foto abaixo), de Marechal Floriano, confirma a boa fase do gengibre este ano, apesar da pandemia. De acordo com ele, a exportação via aérea continuou devido à diminuição do número de passageiros nas companhias e à priorização de cargas de alimentos.

“As companhias colocaram o frete lá em cima, variando de US$ 0,60 de dólar até US$ 2,35 o quilo. Chega a ficar inviável para o importador, se considerarmos o custo de produção que não chega a US$ 0,50 o quilo”, afirma.

Sobre o escambo nas localidades produtoras, Santana acredita que as comunidades pomerana e alemã são movidas a burburinhos na agricultura, por isso as expectativas em torno da raiz.

“O gengibre é a cultura que gera mais comentários. O produtor quando começa a futucar a terra para plantar já faz planos, pois gera uma expectativa diferente do tipo: [ano que vem troco de carro ou compro a terra do vizinho]. Hoje o que melhor remunera na roça é o gengibre”, observa o comprador.

‘Falta planejamento para comercialização’, avalia exportador

Único exportador direto da região produtora compreendida entre Santa Maria de Jetibá, Santa Leopoldina e Domingos Martins, Wanderley Stuhr pondera a falta de planejamento para comercialização do gengibre capixaba.

“Qualquer um chega comprando, e os produtores estão colhendo antes da hora. Temos que proteger a qualidade do nosso produto. Com um pouco mais de organização temos tudo para dominar o mercado, cada vez mais exigente com compromisso e pontualidade”, declara Stuhr, referindo-se à colheita precoce da raiz, o chamado “baby ginger”, com durabilidade menor.

Com sede em Santa Maria de Jetibá e escritório na Flórida (EUA), a Pommer Comércio Internacional existe desde 2001 e conecta 300 produtores das montanhas capixabas. A previsão para 2020 é um recorde na empresa: 1,5 milhão de quilos de gengibre.

A família de origem pomerana nunca barganhou, mas convive com pelo menos 20 casos atuais de produtores que compraram veículos para pagar com gengibre.

"Segunda-feira um rapaz comprou uma moto para pagar em trinta dias com 175 caixas de gengibre. Aqui em Santa Maria de Jetibá a fama é de que quem tem gengibre tem dinheiro. Pomerano compra e vende até avião caindo (risos)”, diverte-se Stuhr.

Para o exportador, a prática do escambo já foi mais comum na região e vem diminuindo com os produtores economizando dinheiro e negociando compras de carros e propriedades à vista.

Segundo Wanderley Sthur, o excesso de atravessadores até de outros Estados, especulando preço de gengibre nos últimos dias, vai provocar uma queda no valor da caixa nas próximas semanas. A tendência é que o cenário mude positivamente no segundo semestre.

“A expectativa era bastante otimista no início do ano para o primeiro semestre, mas compradores sem muito compromisso estão jogando o preço para baixo lá fora”, avalia.

E se o gengibre capixaba leva a alcunha de melhor do mundo, a notícia de que a raiz contribui no aumento da imunidade até contra o novo coronavírus pode colocar nosso produto ainda mais em destaque. A conferir!

*A maior parte das reportagens no ar neste período de quarentena é fruto de um trabalho colaborativo, em função da limitação para deslocar nossos jornalistas para campo. Os próprios agricultores estão contribuindo com fotos, áudios e vídeos para tornar o conteúdo jornalístico mais atrativo para você leitor!


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