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Pecuária leiteira


Desvendando o Compost Barn

O desafio para pecuaristas é alcançar maior produtividade e proporcionar bem-estar aos animais. Será possível?

Por Redação SafraES
17/09/2020 11h00
Atualizado em 21/09/2020 9h33

*Fotos: Divulgação

Um assunto vem povoando a mente de muitos pecuaristas. Vale a pena migrar para o Compost Barn (CB)? A oportunidade de tirar as dúvidas sobre este sistema de produção leiteira foi o tema do seminário promovido pela coordenação da Exposul Rural, no dia 23 de julho. Durante quatro horas, produtores rurais e técnicos do setor assistiram a palestras on-line e abordaram aspectos fundamentais como custos de implantação, formas de manejo e tipos de alimentação, além da sustentabilidade ambiental e econômica do CB.

Neste sistema, as vacas ficam confinadas em um galpão e a cama se transforma em composto orgânico. O tema é extremamente atual e chama a atenção dos produtores capixabas, sendo inclusive abordado em duas reportagens especiais da Safra ES (edições nº 31 e 41). O diferencial é a alta produtividade de leite com médias superiores a 25 litros por animal por dia. Algumas vacas chegam a mais de 70 litros/dia.

No Espírito Santo, são cerca de 45 propriedades rurais em 28 municípios com Compost Barn, sendo metade delas no sul capixaba, além da região metropolitana e Santa Maria de Jetibá. Este último município, na região serrana, concentra os dois maiores galpões de Compost do Estado, de acordo com levantamento da coordenação da Exposul Rural. Juntos, os galpões capixabas são responsáveis pela produção de 48.110 litros de leite/dia.

A média de produção por vaca é bem superior à das fazendas que optam por criação em sistema de pastejo rotativo.

“Os produtores que já adotam o sistema avaliam como pontos positivos o baixo custo de instalação, a facilidade de manejo das vacas, o controle de carrapatos, a redução dos casos de mastite, aumento na produção e a melhoria da qualidade do leite”, destaca o secretário de Agricultura de Cachoeiro, Robertson Valladão.

Entre os produtores que se dizem satisfeitos está Emanuel Moulin (foto abaixo), da Fazenda 3E, em Jerônimo Monteiro, sul do Estado. Há pouco mais de um ano, a fazenda produzia em sistema de pasto (piquete rotacionado), média de 24 litros por vaca/dia. Hoje, os mesmos animais produzem no regime de Compost Barn uma média de 40 litros/dia, um incremento em torno de 70%, que se transforma em retorno financeiro para a propriedade.

Conforto

Durante o seminário, os palestrantes Alessandro de Sá Guimarães, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, e Marcos Neves, professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla) responderam aos principais questionamentos dos produtores de leite.

Para Alessandro, o foco da produção leiteira mundial está no bem-estar animal, daí a importância do sistema.

“O gado de leite requer um ambiente adaptado para ele poder expressar o seu potencial. É cada vez mais importante fornecer manejo mais adequado ao rebanho e novas instalações, que permitam aos animais um comportamento mais natural possível, com as vacas podendo ser ordenhadas limpas, com boa produtividade e conforto térmico”, afirma.

Segundo o pesquisador, em função dos diversos prejuízos ocasionados pelo estresse térmico, pecuaristas norte-americanos criaram o CB na década de 1980. O sistema chegou ao Brasil em 2011 como alternativa ao sistema de piquete e ao confinamento de “Free Stall”, e o aumento do custo de energia era apontado como desvantagem. Atualmente, os projetos seguem o conceito de “intensificação sustentável”, visando beneficiar os animais, o ambiente e a sociedade, com produção crescente de nutrientes para consumo humano.

Alessandro Guimarães é pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Dentre as vantagens, o especialista destaca o conforto animal, com mais espaços livres, redução de problemas locomotores, diminuição do número de descarte de vaca, redução do impacto ambiental, com uso do composto na agricultura, maior produtividade e estabilidade da produção de leite durante o ano, além do melhor custo x benefício da atividade.

Uma das tecnologias desenvolvidas e aplicadas no Brasil é o túnel de vento, utilizado em ambiente controlado e fechado lateralmente.

“A temperatura diminui até dez graus em comparação com a externa. Outro ponto importante é poder trabalhar com a maternidade pré-parto dentro do galpão. Não foram verificados problemas de saúde em bezerros nascidos dentro do composto com camas bem remanejadas”, salienta.

Girolando se adapta bem ao sistema

E quanto às raças bovinas mais adaptáveis? O pesquisador da Embrapa Gado de Leite Alessandro Guimarães destaca já existirem vários compostos para gado Gir e Girolando, por exemplo, com excelentes resultados. A raça mestiça apresenta alta versatilidade e boa produtividade, como relataram alguns produtores durante o seminário.

É o caso do Emanuel Moulin, de Jerônimo Monteiro. Depois de muito ouvir sobre a aptidão superior do gado Holandês para leite, sempre priorizou a raça.

“Nossa região é muito quente e sempre tive alto custo com medicamentos, pois o gado sofria com o clima. Hoje, 99% do meu rebanho é meio sangue e confinado em Compost Barn com alta produção e gasto minimizado. Os animais estão me dando muito retorno”, diz.

Para Marcos Neves, professor da Universidade de Lavras, a dificuldade de reproduzir vacas holandesas puras no Espírito Santo explica a opção pelo gado Girolando. “Tem que ter muita experiência, não é algo fácil. Tem Compost Barn com Girolando com alta produção”.

Quem optou pelo confinamento do Girolando em CB está utilizando a propriedade para outros fins. Em Minas Gerais, ressalta Guimarães, pecuaristas liberaram o espaço anteriormente de pastagem da fazenda para produção de grãos, maximizando a área.

Em outras regiões montanhosas, a exemplo de Juiz de Fora, também naquele Estado, onde produtor tirava leite em sistema rotacionado de capim elefante e tinha sérios problemas com mão de obra o Compost Barn foi um acerto.

“Teve caso de fazenda onde não parava funcionário na ordenha das vacas por causa das limitações nos dias de chuva. Hoje, não existe mais rotatividade, a propriedade tem equipe permanente e vacas com ubre limpo. Essas questões de mão de obra e melhor uso da terra são fatores que têm pressionado os produtores para o sistema mais intensivo de produção”, salienta o pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Mesmo funcionando bem, independentemente da raça, o Compost traz um desafio, principalmente em regiões com verão muito úmido, analisa Alessandro Guimarães. “O produtor deve ficar atento à qualidade do leite, à ocorrência de mastite e ao manejo da cama para evitar a incidência das bactérias ambientais”.

Além disso, os pecuaristas devem observar a temperatura e a umidade relativa do ar na estação mais quente do ano para evitar perda de produtividade de rebanho. Alessandro Guimarães acredita que os pesquisadores vão aprimorar o sistema com monitoramento da umidade da cama em galpão fechado para gerar informação para o setor produtivo.

Retorno

Mas será que vale a pena o pequeno pecuarista investir em Compost Barn? É viável financeiramente para eles? De acordo com a Associação de Criadores e Produtores de Gado de Leite do Espírito Santo (ACPGLES), o custo médio é de R$ 2.900,00 a R$ 3.200,00 por vaca alojada. No entanto, é possível obter retorno do capital investido no galpão em até cinco anos.

É o que afirma o pesquisador Alessandro Guimarães. Com base em dados reais, considerando um rebanho de 100 vacas em lactação, ele simula três cenários: um otimista (vacas com aumento de produção de 12 litros/vaca/dia ao longo do ano e bônus de três centavos pela qualidade do leite), um pessimista (aumento pequeno da produtividade do rebanho, de 3,5 l/vaca/dia e bônus de um centavo) e um mediano, com 7,75 l/vaca/dia e bônus de dois centavos). A conta fecha com um total de receitas adicionais em: R$ 451.140,00, R$ 129.027,50 e R$ 288.532,50, respectivamente.

“Vale ressaltar que só avaliamos a qualidade do leite, mas não computamos melhorias nos índices de reprodução, redução no uso de medicamentos... Isso tudo no final compõe maior lucratividade na propriedade. A margem bruta do leite oscila entre 10% até 50% durante o ano, mas considerando a de 30% nos três cenários, percebe-se no mediano ser possível obter retorno do investimento em até cinco anos”, pondera.

‘Compost é uma decisão do produtor’, diz professor

Cabe ao produtor de leite a decisão de migrar para o sistema de Compost Barn.

“É apenas uma opção de vida. O sistema não é de alta produção como o ‘Free Stall’. É uma decisão do pecuarista. Ao aumentar o leite das vacas, elas vão comer mais. Quando a vaca entra em confinamento e conforto, investe-se em telhado, concreto, ventilador e energia. Se não tiver leite alto, você fecha. A dieta é cara, a vaca tem que dar leite. Qualquer confinamento vai exigir preço de leite alto”, destaca o professor Marcos Neves.


A palestra com Neves teve como tema “Princípios da alimentação de vacas leiteiras em confinamento”. O professor da Ufla destacou a importância das práticas de manejo em nutrição em torno do parto em sistemas confinados para a saúde dos animais e o controle do distúrbio metabólico e da combinação forragem x concentrado x manejo da cama, do vagão e do coxo para garantir alto desempenho na produção.

De acordo com o professor, forragem é um item pequeno na contabilidade das fazendas, entre 10% a 15% dos gastos. Em compensação, os concentrados são o maior item de custo. “Se eu for eficiente em alimentar, tenho altas chances de ter sucesso. Vai impactar muito a eficiência do sistema de produção de silagem na propriedade. Pesa muito mais na conta que a opção forrageira”. Para ele, silagem de milho úmido ou reidratado ou sorgo reidratado impacta mais positivamente nos resultados.

Outro ponto importante, conforme Neves, é que na relação de leite/vaca e renda líquida dividida pelo valor dos bens, ou seja, a taxa de retorno sobre os bem, a maior lucratividade está associada ao uso mais eficiente da mão de obra, aparentemente determinada pelo uso de concentrados e maior produção por vaca. “O que explica isso? Gerenciamento, eficiência de compra, lidar com o dia a dia da fazenda”.

E outra decisão importante: ao produzir forragem, tanto para alimentação como revestimento do local onde dorme o animal, o pecuarista deve analisar se a eficiência agronômica da espécie é compatível com a estrutura da fazenda. “

As opções são várias, deve-se optar sempre pela forragem mais eficiente. Moral da história: nunca pense só no preço do quilo do capim, mas no da dieta total. Tudo o que o animal consome por dia vai virar leite”, finaliza Marcos Neves.

Adesão.No início fiquei meio com o pé atrás em tentar associar o nome da Selita a este formato de produção, tendo em vista a demanda de capital razoável para o investimento, produção de alimento em quantidade e qualidade e o manejo da cama. Meu receio era nosso quadro social com maioria de pequenos produtores. Mas como cooperativa, temos que nos atentar à qualidade do leite, ao bem-estar dos animais e à sustentabilidade, caso do excelente material orgânico oriundo do Compost Barn. Aderimos porque é uma tendência. Nós da Selita estamos prontos para receber produtores com este sistema” (João Batista de Souza, produtor de leite e vice-presidente da Selita)


Preocupação.Os grandes desafios do CB nos próximos anos: os investimentos e o manejo da cama, sobre qual material usar, considerando a umidade relativa do ar no verão. Opções como serragem, maravalha e palha de café estão ficando cada vez mais difíceis para o produtor, principalmente por causa da competição com os granjeiros e o número restrito de serrarias que produzem esse material. Por fim, estamos assistindo cada dia menos propriedades fazendo plantio e replantio de eucalipto para a cama. Isso está se tornando momentâneo, mas pode se agravar daqui por diante. Praticamente somos convidados toda semana para executar projetos dessa natureza. Mas a primeira preocupação é com relação à cama do Compost” (Joedson Scherrer- técnico da ACPGLES/ *Foto:Leandro Fidelis/Arquivo Safra ES))

Orientação. Venho destacar a importância do Compost Barn na pecuária de leite. Temos visto que o melhoramento genético fez avançar muito o progresso no sistema. Houve uma evolução muito grande, vide o caso da Fazenda 3E, mas é preciso orientação técnica na construção dos galpões para o produtor não ter erros e obter sucesso” (Célio Melo Theodoro- controle leiteiro da ACPGLES)

Seminário agitou setor leiteiro

O seminário sobre Compost Barn foi o primeiro evento do calendário da coordenação da Exposul Rural realizado durante a pandemia. O evento ocorreu “Na Nuvem e Na Terra”, ou seja, com partes virtuais, pela Internet, e presenciais, em sete salas de debate em Cachoeiro de Itapemirim, Santa Maria de Jetibá, Castelo, Jerônimo Monteiro, São Mateus, além de uma sala especial na Polônia. Participaram cerca de 300 pessoas.

Para o coordenador de pecuária do Incaper, Bernardo Mello, correalizador do seminário, o nível técnico do evento foi muito bom. “Nós conseguimos falar o que o Espírito Santo estava precisando ouvir e tivemos como resultado um excelente material didático”.

Essa também foi a opinião de internautas de várias partes do país. A exemplo de Rafaella Resende, de Viçosa (MG), que enviou mensagem de agradecimento. “Seminários iguais a esse sempre ajudam a tirar as dúvidas. Vocês estão de parabéns”, afirmou.

O Seminário ExpoSul Rural Compost Barn foi moderado pela jornalista Kátia Quedevez, editora da Safra ES, direto de um estúdio montado em Cachoeiro. De lá ela apresentou os palestrantes e chamou os debatedores nas salas presenciais coordenadas pelas principais instituições do setor no Estado, os sindicatos rurais de Cachoeiro e São Mateus, as associações de gado de leite ACPGLES e Núcleo Girolando, e as Cooperativas Selita e Cacal. A sala de debates da Polônia teve a participação de doutorandos brasileiros, indianos e chineses.

A primeira palestra foi “Infraestrutura, manejo e qualidade do leite em sistema de Compost Barn”, com o Alessandro Guimarães, e a segunda, “Princípios da alimentação de vacas leiteiras em confinamento”, com Marcos Neves. Outras informações podem ser obtidas no site www.exposulrural.com.br.

Em São Mateus, o Compost Barn é liderado por uma mulher. Lucélia Bolzonello implantou o sistema de produção de leite há um ano. Ela cria 53 animais de frações genéticas ¾ e 7/8 holandesas, mas a estrutura da fazenda tem capacidade para 60 cabeças. Enquanto a pecuarista toca a criação, o marido Walmir fica por conta da produção vegetal. A produção média é de 28 kg de leite por cabeça, considerada boa para o clima do município.

O produtor de leite Edson Galvão, de Castelo, no sul do Estado, produz leite há mais de 50 anos. Ele faz parte da segunda geração da família e optou pelo Compost Barn no início do ano passado. A estrutura de confinamento que comporta 70 animais utiliza eucalipto, opção de baixo custo, e ventiladores. “O sistema é bastante funcional e mantém a cama sempre seca”, diz.


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