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Em laboratório, pitaia ajuda a controlar glicemia, colesterol e ansiedade

Por Embrapa
15/10/2020 9h59
Atualizado em 15/10/2020 15h22

Verônica Freire - A pitaia é conhecida como fruta-do-dragão por causa da sua casca escamosa e a polpa tem consistência gelatinosa e paladar doce. Suas propriedades funcionais estão sendo reveladas
Foto: Verônica Freire

As qualidades da pitaia vão além do sabor suave, doce e refrescante. Estudos laboratoriais realizados com animais mostraram que a fruta apresenta um grande potencial para auxiliar no controle do colesterol, da glicemia e da ansiedade.

A pitaia foi eficaz na redução do colesterol total, do LDL e dos triacilgliceróis e na elevação do HDL (conhecido como “colesterol bom”). Em animais diabéticos, as doses de 200 mg/kg e 400 mg/Kg apresentaram atividades farmacológicas promissoras, reduzindo significativamente a glicemia no grupo tratado. Os testes demonstraram efeito ansiolítico e ausência de toxicidade nas concentrações avaliadas.

Os resultados são promissores para tratá-la como um alimento funcional. Ou seja, que contribui para a manutenção da saúde. Essa característica é especialmente importante porque a fruta atua contra problemas que atingem a saúde pública.

No entanto, a pesquisadora Ana Paula Dionísio, do Laboratório de Processos Agroindustriais da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), ressalta que há um longo caminho entre os estudos realizados e os testes clínicos com humanos, efetuados por instituições de saúde. Embora favoráveis, os resultados “não significam que as pessoas devam substituir seus remédios pela fruta”, alerta a pesquisadora

Os estudos com a pitaia foram liderados por um grupo de cientistas da Embrapa especializados em alimentos funcionais, com a participação da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade de Fortaleza (Unifor). Além dos testes para determinação de atividades funcionais da fruta, os pesquisadores observaram os efeitos do processamento na composição metabólica, química, físico-química, enzimática e volátil da polpa.

Fruta ainda é pouco produzida no Brasil

Conhecida como fruta-do-dragão por conta da casca escamosa, a pitaia é o fruto de uma cactácea nativa das florestas tropicais da América Central e do Sul, Índia e Malásia. Quando madura, a polpa apresenta consistência gelatinosa e paladar doce. Normalmente é consumida in natura, mas pode ser processada em sucos, geleias, saladas, vinhos e sorvetes.

Trata-se de uma planta perene, pouco exigente em qualidade do solo e que pode crescer em copas de árvores e rochas. Apresenta uma demanda por irrigação mais baixa que outras frutíferas. Por isso, adapta-se muito bem às condições do Semiárido brasileiro.

Dependendo da espécie, os frutos apresentam diferentes características, como presença de espinhos, cor da casca e da polpa. As mais comuns e comercializadas são a Hylocereus polyrhizus (casca e polpa vermelha); Hylocereus undatus (vermelha de polpa branca) e Selenicereus megalanthus (pitaia amarela de polpa branca, conhecida como “pitaia colombiana”).

A fruta ainda é pouco cultivada no Brasil, por isso, os preços são elevados, tornando-a ainda pouco acessível para as camadas populares no País. A Região Sudeste é a principal produtora, com safra de dezembro a maio. O Ceará também produz na região da Chapada do Apodi, nos municípios de Limoeiro do Norte e Quixeré. O estado obtém produção de frutas o ano inteiro, mas a produtividade cai nos meses mais chuvosos, de janeiro a abril.

Fonte para produtos inovadores

“A pitaia se mostrou promissora para as indústrias de alimentos, ou até mesmo farmacêutica, como alimento funcional e fonte de compostos de interesse, que podem ser concentrados ou isolados, para amplificar seu efeito”, diz Guilherme Julião Zocolo, pesquisador da Embrapa que coordena os estudos.

“Diante da alta e crescente prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, e dos transtornos de ansiedade, existe uma busca por terapias alternativas para o auxílio na prevenção dessas enfermidades com foco na alimentação. Principalmente para identificar novos alimentos funcionais para preveni-las”, declara Zocolo.

Os cientistas avançam no desenvolvimento de produtos industriais que podem contribuir com a saúde. O engenheiro de alimentos da Embrapa Fernando Abreu reforça que a fruta apresenta características bem favoráveis para o desenvolvimento de produtos industriais, como a cor vibrante e o sabor neutro.

Uma das possibilidades é utilizá-la como ingrediente na indústria de sucos, mas as pesquisas avançam para outros produtos mais inovadores com possível aplicação em várias indústrias, como as de alimentos e de cosméticos. No momento, estão em estudo os melhores processos para o aproveitamento industrial, preservando as propriedades funcionais. Abreu salienta que uma das preocupações é desenvolver produtos que aproveitem todas as partes da fruta. “A pitaia tem um rendimento de 50% de polpa, o resto é casca, que também tem componentes funcionais”, reforça.

Ensaio sobre o colesterol

A administração diária de pitaia vermelha em ratos com dislipidemia (distúrbio do metabolismo lipídico), por 60 dias, elevou o HDL (colesterol de alta densidade, popularmente conhecido como o “colesterol bom”) e reduziu o colesterol total, o LDL (colesterol de baixa densidade, conhecido como “colesterol ruim”), triacilgliceróis e as enzimas indicadoras de lesão no fígado alanina aminotransferase e aspartato aminotransferase.

Para chegar a esses resultados, os cientistas do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Universidade Estadual do Ceará (LBBM-UECE) dividiram os animais em seis grupos: três receberam doses diferentes de pitaia vermelha, um grupo recebeu uma dieta rica em colesterol, outro recebeu uma dieta padrão e o último grupo usou uma droga amplamente utilizada para controle do colesterol alto, a Sinvastatina. Os animais que foram alimentados com a pitaia nas doses de 100, 200 e 400mg/Kg apresentaram redução significativa no nível de colesterol total, quando comparados ao grupo não tratado, ao fim do teste.

“Esse resultado é relevante, pois mostra a pitaia como um alimento com grande potencial no auxílio ao controle do colesterol”, comenta Ana Paula Dionísio. Conforme a pesquisadora, o resultado pode ter relação com a presença de betalaínas, flavonoides e oligossacarídeos, compostos bioativos presentes na fruta.

Bom para controle da diabetes

Para testar o efeito na diabetes, os animais foram separados em grupos. Um foi submetido a tratamentos com polpa com semente liofilizada da pitaia nas doses de 200 e 400 mg/Kg de peso do animal. Outro recebeu Metformina na dose de 200mg/kg de peso do animal. Outro grupo não foi tratado e um terceiro grupo era formado por animais saudáveis. O teste observou glicemia, colesterol, HDL, triglicérides, ureia, creatinina, aspartato amino transferase (AST) e alanina (ALT).

“A pitaia vermelha pode ser uma alternativa alimentar promissora não só para o auxílio no tratamento da dislipidemia, mas também para hiperglicemia. Estudos pré-clínicos e clínicos são necessários para verificar tais resultados em humanos”, diz a professora Maria Izabel Florindo Guedes, que coordenou os ensaios com animais no LBBM da UECE.

Estudando a ansiedade

A avaliação do efeito da fruta no controle da ansiedade utilizou um modelo com um pequeno peixe, com cerca de três centímetros de tamanho, o zebrafish (Danio rerio) ou peixe-zebra. Os cientistas avaliaram se houve alteração na coordenação motora, seja por sedação ou relaxamento muscular. O teste, baseado na aversão desse tipo de peixe a áreas bem iluminadas, foi realizado em um aquário com zonas clara e escura.

Os animais foram divididos em três grupos, um recebeu pitaia, o outro água destilada e o outro Diazepam. Após uma hora de tratamento, foram adicionados individualmente na zona clara do aquário e o efeito ansiolítico foi quantificado como porcentagem de permanência nessa zona.

Os resultados sugerem que a pitaia tem efeito positivo no controle da ansiedade, envolvendo a via GABAérgica, pois os animais diminuem a sua atividade locomotora e a sua aversão ao ambiente claro. A via GABAérgica refere-se à atuação do principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central.

Casca valiosa

Esses achados sugerem que a pitaia apresenta potencial como uma terapia ansiolítica alternativa e complementar. “Além do mais, a casca de pitaia, que geralmente é descartada durante o processamento e acaba sendo um resíduo e uma fonte de poluição, deve ser considerada um produto valioso, com potencial como ingrediente econômico de valor agregado para auxílio nos transtornos de ansiedade”, completa Ana Paula Dionísio.

O estudo observou, também, os metabólitos secundários presentes na polpa de pitaia e a sua toxicidade em peixes-zebra adultos. Além disso, foi realizada a caracterização e avaliação dos efeitos biológicos da casca de pitaia para estimar seu potencial como agente ansiolítico alternativo.

Publicações científicas

Foto: Verônica Freire

Dois artigos sobre os estudos com pitaia foram publicados na edição 127 da revista Food Research International, do Instituto Canadense de Ciência e Tecnologia de Alimentos (CIFST). Os trabalhos continuam e novas publicações devem sair nos próximos meses.

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0963996919305964

Um dos artigos trata da determinação do perfil metabólico da pitaia (espécie Hylocereus polyrhizus) usando a técnica UPLC-QTOF-MSE (cromatografia líquida de ultraperformance, de elevada resolução e sensibilidade) e da avaliação da toxicidade e efeito ansiolítico em peixes-zebra (Danio rerio) adultos. O estudo reúne cientistas da Embrapa Agroindústria Tropical, da Universidade Estadual do Ceará, da Universidade Federal do Ceará e da Universidade de Fortaleza.

A pesquisa demonstrou que a fruta apresentou elevada atividade ansiolítica. No entanto, esses efeitos foram reduzidos pelo pré-tratamento com o flumazenil, sugerindo que a polpa e a casca da pitaia são agentes ansiolíticos mediados pelo sistema GABAérgico, um inibidor do sistema nervoso central.

Esses achados sugeriram que a espécie da fruta testada tem o potencial para o desenvolvimento de uma terapia ansiolítica alternativa e complementar derivada de plantas. Os resultados mostraram também 16 compostos na polpa e 15 na casca. Nos modelos testados, não foi identificada toxicidade na polpa e nem na casca da pitaia.

O outro trabalho aborda dos efeitos do processamento nas substâncias químicas, físico-químicas, enzimáticas e composição metabólica volátil da fruta. A pesquisa, que reúne cientistas da Embrapa Agroindústria Tropical, Universidade Federal do Ceará e Universidade de Fortaleza, retratou pela primeira vez esses parâmetros na polpa processada da fruta. Para isso, foram utilizados três tipos de tratamento: apenas a polpa sem ácido ascórbico e a fruta inteira com e sem ácido ascórbico.

A fruta inteira com ácido ascórbico não apresentou alteração química ou físico-química significativa na maioria dos parâmetros avaliados. Além disso, apresentou altos rendimentos e teor de fibras em comparação com os demais tratamentos. A análise metabólica com a técnica de Cromatografia Gasosa-Espectrometria de Massa (GC-MS) determinou simultaneamente 80 metabólitos voláteis. Análises quimiométricas foram usadas para distinguir eficientemente os compostos voláteis de cada tratamento e demonstraram que a fruta inteira processada com ácido ascórbico apresenta um perfil volátil interessante devido à conservação ou agregação de compostos.

A equipe de pesquisa é formada por Guilherme Julião Zocolo, Ana Paula Dionísio, Fernando Antônio Pinto de Abreu, Maria Izabel Florindo Guedes, Ana Carolina Viana de Lima, Marcelo Oliveira Holanda , Gisele Silvestre da Silva , Chayane Gomes Marques, Sandra Machado Lira e Rodolfo Dantas Lima Junior.


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