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Pesquisas com café colocam instituto das montanhas do ES no radar mundial

Prestes a completar sua primeira década, campus do Instituto Federal do Espírito Santo, em Venda Nova do Imigrante, se destaca em nível internacional pelos estudos sobre pós-colheita

Por Leandro Fidelis
1/07/2019 11h00
Atualizado em 7/08/2019 21h43

Equipe de bolsistas junto com o professor Lucas Pereira (de óculos). (*Fotos: Leandro Fidelis)

No terreno onde antes havia uma imensa lavoura de café arábica, em Venda Nova do Imigrante, região serrana do Espírito Santo, funciona atualmente uma unidade que é referência internacional em processos de pós-colheita do grão. O Laboratório de Análises e Pesquisas é um projeto do campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), prestes a completar uma década em 2020.

A instituição de ensino médio, técnico, superior e pós-graduação descobriu a vocação para estudos na área de cafés especiais há seis anos. Graças à iniciativa, centenas de cafeicultores de norte a sul do Estado são beneficiados e estão melhorando a qualidade dos seus grãos para agregação de valor no mercado. Mais de 600 famílias já foram atendidas, sendo 350 só neste ano.

Eles participam de cursos, onde aprendem a provar o próprio café e têm acesso a mercados inimagináveis antes da chegada do Instituto à cidade, de cerca de 25 mil moradores.

“A meta é transferir tecnologias sustentáveis para as famílias”, afirma o professor Lucas Pereira, coordenador do laboratório juntamente com o professor Aldemar Moreli.

Sede administrativa do campus.

A fase após o café ser colhido inclui novas formas de secagem, preparo da bebida, diversidade das curvas de torra e fermentação e uma metodologia de análise sensorial que prioriza bebidas acima de 80 pontos.

Ambientes estilizados para degustação do café e a profusão de baristas, mestres de torras e “coffee hunters” (caçadores de cafés especiais) trazem novas perspectivas profissionais para jovens filhos de produtores e os colocam em contato com profissionais de todo o mundo.

De acordo com Lucas, os projetos abrangem desde a produção até o consumo de cafés, com resultados não só para a comunidade científica, como para as indústrias, produtores e consumidor final.

Dentre as tecnologias desenvolvidas, duas patentes ligadas a processos de fermentação estão em curso e outras três serão registradas em breve junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Uma delas é a de um torrador de café portátil para uso doméstico. O equipamento vai operar através de aplicativo para smartfones e promete acessibilidade em termos de custos.

Outra iniciativa é a montagem de uma cafeteria modelo no Ifes, em convênio com a Um Coffee (SP). A empresa vai fornecer máquinas e treinar os alunos do Instituto.

O professor do Ifes Venda Nova, Lucas Pereira, é o idealizador do Laboratório de Análises e Pesquisas em Pós-colheita de Café.

Escola de provadores

O laboratório conta com 14 bolsistas. A maioria tem o certificado “Q-Grader”, uma licença internacional que habilita para provar cafés em todo o planeta, a partir de uma metodologia padronizada e com validade internacional. O grupo já participou de eventos na Austrália, Rússia e Colômbia.

Em junho, cinco estudantes participaram do “Cocoa, Coffee na Tea Congress” (Congresso Internacional de Café, Chá e Cacau), em Berlim (Alemanha), para apresentar sete trabalhos desenvolvidos na unidade.

Uma delas é Danieli Debona, do 5º período de Administração, moradora de Ubá, zona rural de Castelo, no sul do Estado, e filha de produtores. Interessada em torrefação, ela afirma ter aproveitado a oportunidade de atuar no laboratório para auxiliar a produção da família.

O cafeicultor Rodrigo Vicentino, de Piraí, zona rural de Vargem Alta, utiliza os serviços do laboratório do Ifes e já participou de vários cursos.

Danieli Debona descobriu uma nova realidade na cafeicultura depois de ingressar no Ifes.

A aplicabilidade na prática das pesquisas do Ifes Venda Nova é o grande trunfo da instituição, opina o diretor geral do campus, Aloísio Carnielli.

“Todas as pesquisas dos institutos federais são aplicadas e têm que obter resultados”, diz. Segundo ele, isto promove maior aproximação com a comunidade externa ao campus. “Tivemos grande avanço na área do café, inclusive com o Conilon, mas também mantemos projetos sociais e ambientais”.

Filho da terra, Aloísio Carnielli vem de uma família de cafeicultores e é o diretor geral do Ifes Venda Nova.

A partir das experiências, o professor Lucas Pereira visualiza o surgimento de uma geração de cafeicultores com nova mentalidade.

“É o produtor que não é dono de um parque cafeeiro grande, mas de propriedade de pequeno porte que vai produzir pequenos lotes, trabalhar menos e ganhar mais em um mercado único que requer relacionamento”, ressalta.

Nota máxima

O curso superior de Ciência e Tecnologia de Alimentos é de onde vem a maior parte dos estudantes ligados ao laboratório. A graduação recebeu nota cinco (a mais alta) na avaliação do Ministério da Educação (MEC) em 2018, quando formou sua primeira turma, e é uma das sete na área ofertadas em todo o Brasil.

Na reta final do curso, Dério Brioschi Júnior se encontrou na pesquisa de cafés especiais. O jovem partiu recentemente para intercâmbio nos Estados Unidos onde pretende ampliar os horizontes.

“No Ifes, consegui ver futuro na cafeicultura, sem precisar sair para estudar, e me encantei pela profissão. Foi onde aprendi essa expertise e pude fazer diferença na propriedade da minha família e na minha carreira. Dificilmente conseguiria algo da natureza deste intercâmbio se não fosse minha passagem pelo Instituto”, diz o jovem.

Também da equipe, outro aluno, Luiz Henrique Pimenta abriu mão de cursar veterinária para ingressar no mundo dos cafés especiais.

Para Felipe Estevão Azevedo, do 3º período do curso, o conhecimento é a maior "arma" do estudante. Ele tem no Ifes a base para alavancar sua carreira profissional.

O aluno João Paulo Marcarte afirma que o Ifes está lhe proporcionando conhecer novas culturas e chances de estar em contato com os cafeicultores.

João Paulo Marcarte atua no setor de degustação de cafés especiais.

O colega de pesquisas Gustavo Falqueto considera relevante a oportunidade de conviver com mestres e doutores no ambiente acadêmico.

Intercâmbio

Baristas e compradores estrangeiros chegam ao campus com frequência para trocar informações. Este ano, o Laboratório de Análises e Pesquisas em Pós-Colheita de Café recebeu dois japoneses e, em setembro, espera uma barista russa para intercâmbio de três meses. Ela está à frente de uma pesquisa em cafeicultura pela Universidade Estadual Agrária de Moscou.

A cooperação técnica abrange ainda profissionais da China e dos Estados Unidos.

“A unidade entrou no radar mundial e talvez seja mais conhecida lá fora que no próprio Brasil”, observa o professor Lucas.

Apoio de cooperativa

O corte de quase R$ 8 milhões no orçamento para as pesquisas científicas, anunciado no final de março pelo governo federal, foi uma péssima notícia para institutos e universidades federais do país. A produção científica brasileira ficou comprometida, a exemplo de avançados estudos para o enfrentamento de epidemias. Com a falta de dinheiro, muitos estudantes de pós-graduação terão que abandonar os estudos.

No campus do Ifes Venda Nova, a luz no fim do túnel acendeu graças ao cooperativismo. Há dois anos, o Sicoob Sul Serrano se tornou o principal apoiador dos projetos do laboratório da instituição. A parceria com uma cooperativa financeira é considerada inédita no Brasil.

A ponte com o Sicoob começou em 2017 no “Cup Of Excellence”, o principal concurso para cafés especiais do mundo, que reuniu no Ifes degustadores nacionais e internacionais e cafeicultores das principais regiões produtoras do país. Ali foi o primeiro passo para o convênio de três anos com a cooperativa.

O Sicoob fomenta recursos para pesquisas que possam melhorar a qualidade e agregar valor ao café, além do desenvolvimento de tecnologias a serem absorvidas pelo setor produtivo.

Para o professor e coordenador do laboratório, Lucas Pereira, um agente financeiro investindo em pesquisas acadêmicas é de extrema importância para a educação, considerando o cenário de contingenciamento da máquina pública.

“São muito comuns pesquisas desenvolvidas em conjunto com agentes dos setores público e privado. Entretanto, esse modelo com o Sicoob não é comum, é inédito, e mostra mais uma vez o pioneirismo e vocação da região serrana do Espírito Santo no associativismo e cooperativismo no sentido de desenvolver projetos em conjunto”, enfatiza Fonseca.

Por sua vez, o Sicoob Sul Serrano se mostra aberto a novos projetos de outros campi do Ifes, desde que alinhados com o viés dos cafés especiais. De acordo com o presidente, Cleto Venturim, a cooperativa enxerga estar propiciando aos cafeicultores atuar na atividade de forma mais prazerosa, o que também os aproxima do Sicoob.

“A proximidade que queremos com nosso sócio é fazê-lo encontrar felicidade naquilo que faz, ficar satisfeito e compartilhar seus conhecimentos. A produção de microlotes de grãos especiais pode ser o começo. Que isso ocorra através da escola”, finaliza.

Cleto Venturim, presidente do Sicoob Sul Serrano. (*Foto: Wanda Ferrera/Jean Davies)


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