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Renata Erler

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O colapso chinês e as consequências para o mercado brasileiro

10/09/2020 17h24

Segundo dados do boletim “Balança do Agronegócio” divulgados pela Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, as exportações de soja em grão chegaram a 10,4 milhões de toneladas em julho, sendo a China o principal comprador, com volume negociado de 7,4 milhões de toneladas ou 75,8% do total exportado. Ainda em relação à soja, 45% da próxima safra que ainda nem foi plantada já está vendida.

As carnes também são destaque. A bovina gerou uma receita de US$ 776 milhões em julho, 23% maior do que o mesmo período de 2019, crescimento também puxado pela China na compra de carne in natura, de 143,3%, atingindo US$ 375,50 milhões, seguida pela carne suína, com incremento de 34,2%, o que representou US$ 106,68 milhões.

Quando avaliamos os números relacionados à exportação de produtos agropecuários, percebemos grande dependência do mercado chinês, o que para alguns especialistas é motivo de preocupação, pois qualquer problema comercial com a China pode ser catastrófico para nossa economia.

Porque a China aumentou tanto suas compras em plena pandemia da Covid-19?

Será que as coisas lá vão tão bem a ponto de dar condições para o chinês aumentar o consumo?

Segundo um estudo feito pela Academia de Ciências Sociais da China, publicado em agosto, o déficit de fornecimento doméstico de alimentos será de 130 milhões de toneladas até 2025. Isso reforça a profunda dependência da China quanto aos mercados produtores como o Brasil, Estados Unidos, Argentina e outros.

A insegurança alimentar é um problema crônico da China, e isso tem feito com que eles avancem sobre estoques globais de alimentos a fim de evitar uma catástrofe, a FOME.

Apesar de o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China não economizar esforços e ter divulgado documento que descreve as principais atividades de plantio a fim de garantir produção de grãos acima de 650 milhões de toneladas, o ano de 2020 não reservou boas surpresas.

Além da crise proveniente da Covid-19, os chineses vêm sofrendo com ataque de gafanhotos nas principais áreas produtoras. Somente na Província de Yunnan os insetos devoraram área de 70 km² de plantação. Eles também detectaram a conhecida “lagarta do cartucho” em todo o território. Além disso, a peste suína dizimou 180 milhões de animais, o equivalente a 40% do rebanho, além de o país ter enfrentado dois fenômenos climáticos- que provocaram uma das mais fortes enchentes desde 1961 no sul do território, onde estão os maiores produtores de grãos do país- e a extrema seca no norte.

A quebra na safra afetou diretamente os preços dos alimentos nos supermercados chineses, em média 10% mais caros quando comparados ao mesmo período de 2019. A carne de porco tem destaque com preços 86% acima comparados ao ano anterior.

A situação é tão grave que o presidente Xi Jinping convocou a população a aderir a uma campanha contra o desperdício chamada de “Prato Limpo”, a fim de evitar o racionamento de comida.

Referente à campanha, a TV estatal CGNT divulgou o seguinte: “Embora a China tenha colhido grãos suficientes por anos, ainda é necessário ter a consciência de uma crise de segurança alimentar. O impacto da pandemia de Covid-19 este ano soou o alarme para nós”. Assim, não deixam claro para população a gravidade da situação, tentando de todas as formas sustentar o regime ditatorial, tendo como principal estratégia avançar sobre os estoques de commodities mundiais.

Contudo, não vejo o Brasil como parceiro comercial da China. Vejo como recurso estratégico, o que nos deixa em posição segura quanto às exportações, mas isso traz grandes impactos para o mercado interno brasileiro, inflacionando o preço dos nossos alimentos.

Referente aos principais grãos usados para produção animal, soja, milho, trigo, todos sofreram aumento nos preços, devido à alta demanda e redução da oferta. Com isso, várias fábricas de ração reajustaram seus preços e enfrentam atrasos no recebimento de matéria-prima, o que causa uma reação em cadeia de atrasos até o produtor, e aumento do custo de produção.

Para o empresário rural que entrega um produto tipo exportação, tanto grãos quanto carnes, as margens realmente subiram, o que impacta positivamente, injetando capital no campo, permitindo pagamento de dívidas antigas e investimentos em tecnologias que promovam aumento de produção. Porém, para o produtor de proteína animal que atende o mercado interno a situação é mais complicada, pois apesar do aumento no preço das carnes houve aumento do custo de produção. Com isso, em algumas situações, as margens são até menores do que eram em 2019. Isso exige alto nível de profissionalismo dos envolvidos para que sejam cada vez mais eficientes no uso dos recursos necessários para seguir produzindo.

É a famosa lei da demanda e oferta, que em um mercado de livre comércio, por si só, muda hábitos de consumo e a forma de produzir, na busca de um equilíbrio para essa equação.

Não faltará comida na mesa do brasileiro, mas, sim, o custo será mais alto. A segurança alimentar necessária para a China está estabelecendo uma nova dinâmica no mercado de alimentos mundial, e essa situação provocará muitas mudanças no agronegócio brasileiro.

*Renata Erler é zootecnista, gestora de agronegócio, e vice-presidente da Associação dos Zootecnistas do Espirito Santo (Azes).


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