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Quem são os agroinfluenciadores capixabas

Além de divulgar a rotina do campo nas redes sociais, o objetivo dos nossos influenciadores é combater a desinformação sobre o agronegócio

Por Leandro Fidelis
2/12/2020 17h00
Atualizado em 7/01/2021 10h35

A força dos nossos agroinfluenciadores está no engajamento da causa do agronegócio capixaba, mais até que no número de seguidores. (*Fotos: Divulgação)

Em maio deste ano, a cantora Anitta alarmou o meio agro ao debater sobre o consumo consciente de carne em uma live com o deputado federal Alessandro Molon (PSB). Na oportunidade, a “Poderosa” levantou uma questão inusitada. Atribuiu o aumento do efeito estufa à emissão de gás metano pelas vacas. Para a artista, o “pum” dos bovinos impacta no meio ambiente. E anunciou que vai parar de comer carne para diminuir tal poluição.

A cantora não é especialista no tema, mas tem mais de 50 milhões de seguidores em uma única rede social que, muitas vezes, recebem informações sem fazer questionamentos.

Na contramão do “espetáculo”, existe um time segmentado ganhando força nas redes sociais. São os agroinfluencers ou agroinfluenciadores. Além de divulgar a rotina do campo em posts e fotos produzidas, o objetivo é combater a desinformação sobre o agronegócio. Em muitos casos, os influenciadores capixabas ficam antenados à agenda da mídia para rebater mensagens equivocadas que mancham a imagem do setor junto à audiência leiga no assunto. A ideia é tirar a fama de vilão do agro, como insistem algumas personalidades nacionais.

E o Espírito Santo, destaque em produção e qualidade de muitos produtos agropecuários, tem uma seleção de influenciadores para chamar de sua. A reportagem da Safra ES conversou com o engenheiro agrônomo Enio Bergoli (Incaper), a estudante da área Stefany Sampaio, a médica veterinária Raiany Resende, a zootecnista Renata Erler e a jovem produtora rural Jamila Brambilla.

“Não dou audiência para quem fala besteira. As celebridades vivem numa bolha que valoriza a moda do que vende mais. Sinto até pena da falta de conhecimento básico não só do agro, mas de mundo, de estudo, de leitura. Geralmente descrevo algo técnico sobre o assunto, sem citar o influenciador, para aproveitar o tema do momento de forma positiva para o agro. Mas o efeito da rede social de famosos é bem maior com certeza”, analisa Renata.

A zootecnista Renata Erler não se considera uma agroinfluenciadora, mas desde 2019 foca em conteúdos relevantes sobre a pecuária nas redes sociais.

Currículo

“Eu tenho uma história de identificação total com o agro e procuro divulgar, desde sempre, como o setor impacta no nosso dia a dia. O agro é muito mais estratégico do que somente alimentar as pessoas. Vestuário, bebidas, construção civil, móveis, decoração, gastronomia, fármacos e tantos outros setores passam pelo agro”, diz Enio Bergoli.

Segundo o agrônomo, os mais de 35 anos de atuação no serviço público- tendo ocupado inclusive os cargos de presidente do Incaper e de secretário de Estado da Agricultura, o tornaram uma pessoa conhecida e identificada com o agro.

“Ao divulgar minha experiência nas redes sociais, sou um agroinfluencer que busca maior compreensão da agricultura e os negócios associados para pessoas do urbano e do rural”.

Os impactos da pandemia da Covid-19 no setor, com interfaces para produtores e consumidores, foram temas recorrentes este ano nas redes sociais de Enio Bergoli. O agrônomo lembra que, quando postou que agro “tinha tudo a ver” com a contenção da doença, alguns seguidores ficaram até “incrédulos”.

“Eu me sinto bem quando compreendem que o álcool em gel vem da cana de açúcar e as máscaras de papel têm origem em árvores, enquanto as de tecido dependem dos plantios de algodão. Isso tudo é agro na veia”, diz.

Enio se diz incomodado com a falta de conhecimento das celebridades.

“Talvez o maior desafio do agro seja uma comunicação mais adequada, sobretudo com as lideranças e influencers do urbano. Considero a comunicação um gargalo mais difícil de superar que os problemas tecnológicos de produção e os enormes entraves que ainda devemos superar em logística e infraestrutura. Ao contrário do que muitas fontes desinformadas e algumas maldosas veiculam, o agro é importante para garantir a biodiversidade, preservar o meio ambiente, na segurança alimentar e para a geração de divisas para o país, dentre tantos outros benefícios. Precisamos contrapor, divulgar sempre a verdade dos fatos, verbalizar conteúdos com cunho técnico-científicos e não se calar diante de tantas injustiças. Só assim o agro vai ter o reconhecimento que é merecedor”, conclui.

Enio Bergoli: “O agro capixaba é a melhor síntese do Brasil. O Espírito Santo, apesar da pequena dimensão territorial, é um gigante em várias cadeias produtivas do agronegócio nacional. O quadro natural tem muitas variações, com regiões quentes e frias, secas e chuvosas, planas e acidentadas. Esse ambiente diversificado nos faz ter um agro também diversificado. Somos expoentes na produção e exportação dos dois tipos de cafés produzidos no mundo. Nosso Estado ainda é o maior produtor e exportador de mamão, pimenta-do-reino, pimenta-rosa e gengibre. É um dos principais produtores de ovos e tem uma importância muito grande na produção de hortaliças, principalmente na região Serrana, só para citar alguns exemplos. Para os agricultores capixabas, eu tiro o chapéu!”

O veterinário e professor universitário Diogo Vivacqua, de Castelo, é outro que usa as redes sociais para falar do agro. Ele criou o canal de Youtube e perfil do Instagram “Papo com Diogo Vivacqua”, onde entrevista outros profissionais da área.

Agrolives fortalecem comunidade de profissionais da área

Para quem é do meio rural, pode soar estranha a falta de informação das pessoas da cidade sobre a presença do agronegócio no dia a dia. Campanhas como a da TV Globo (a intenção da reportagem não é questionar o viés ideológico da emissora) estão aí para ajudar a desmistificar muita coisa.

Recentemente, a veterinária recém-formada Raiany Resende (25) (na foto que abre esta reportagem), de Divino de São Lourenço (Caparaó), e atualmente mestranda em Campos dos Goytacazes (RJ), ficou surpresa com a repercussão do post de uma famosa no Instagram ao descobrir a bucha vegetal.

“A mulher estava simplesmente deslumbrada com o achado. Repercutiu tanto junto ao público dela, que você para pensar quantas pessoas não conheciam a bucha”, conta.

Quando o agro virou tema recorrente no perfil pessoal do Instagram, a ideia de Raiany era apenas reforçar o entendimento do que é genuinamente capixaba para públicos diversos, por meio de imagens de paisagens e da rotina como veterinária.

“Sempre fui ‘postadeira’, mas de forma orgânica, sem muita pretensão. Ainda quando estava na graduação, postava os eventos e estágios que participava, daí sempre tinha feedback de pessoas pedindo conselhos”, conta.

A jovem atuava em um estúdio de fotografia na cidade natal antes de ingressar na faculdade e acabou levando conhecimentos desse ofício para a profissão de carreira, retratada com bastante brilho no Instagram.


Além de veterinária, Raiany Resende pertence a uma família de cafeicultores do Caparaó. A colheita do grão rende belas fotos.

Em abril, em plena pandemia, Raiany passou a produzir “agrolives”. As transmissões ao vivo aumentaram os seguidores e a interação principalmente com estudantes de ciências agrárias.

“Eu busquei muita informação sozinha, por isso minha intenção passou a ser ajudar outras pessoas. Falar para elas o que ninguém nunca falou para mim. Não ligo de não ter milhões de seguidores, se tenho uma pessoa me ouvindo, isso para mim é muito importante”.

A intenção é criar uma comunidade de informação positiva por meio das redes sociais. “Esse mundo já está cheio de falta de empatia, e a rixa profissional fica tão grande que as pessoas esquecem de ajudar quem está entrando no mercado. Não são concorrentes, são parceiros”, defende.

Quem é: Raiany Resende Moura
Idade: 25 anos
Cidade: Divino de São Lourenço
Profissão: médica veterinária
Instagram: @raianyresend
Seguidores: 3.783

Com 21 mil seguidores, agricultora inspira jovens

Uma imagem rotineira na vida de Jamila Brambilla (21), de Forno Grande, zona rural de Castelo, a transformou na agroinfluencer capixaba com o maior número de seguidores. Em 2018, quando tinha menos de 500 “followers”, ela postou uma foto segurando um balde de morangos que lhe rendeu muitos “likes” em poucas horas.

Atualmente, a produtora rural ostenta 21 mil seguidores e virou fonte de inspiração para outros jovens no meio rural. “Ainda não me caiu a ficha de que eu possa estar influenciando pessoas. Meus 20k de seguidores são orgânicos, não comprei e não compraria nenhum”, diz.

Mesmo com toda repercussão, Jamila ainda se surpreende com perfis ligados à agricultura “repostando” suas publicações. Ela divulga o dia a dia na roça, e mesmo na “correria”, está sempre buscando mostrar ao máximo a verdadeira realidade.

“Recebo muitas mensagens de seguidores, boa parte jovens, que dizem se espelhar em mim para continuar na roça. Eles acompanham o processo inteiro da minha atividade, do plantio à colheita dos alimentos e querem tirar dúvidas sobre as culturas. A interação é primordial. Quanto maior o alcance das minhas publicações, mais pessoas conhecem meu perfil e o trabalho que faço aqui na roça”, afirma.

O resultado não podia ser outro. Este ano, Jamila fechou parcerias com empresas do agronegócio reconhecidas no Brasil e no mundo para conteúdo patrocinado no Instagram.

Jamila Brambilla- “O diferencial do agro capixaba é a qualidade dos produtos e a prática da agricultura familiar, tão importante para a economia do nosso Estado. A agricultura familiar sempre tem prezado o desenvolver de práticas sustentáveis, econômicas e empreendedoras”.

Quem é: Jamila Brambilla
Idade: 21 anos
Cidade: Forno Grande (Castelo)
Profissão: produtora rural
Instagram: @jamilabrambilla
Seguidores: 21.000

Neta de cacauicultor exalta juventude rural nas redes

A Safra ES tornou ainda mais conhecida a atuação da estudante de agronomia e neta de produtor de cacau Stefany Sampaio (24), de Linhares, norte do Estado, quando foi capa da edição 37.

“Lembro que recebi o convite para ser colunista da revista pela Kátia (a Quedevez, editora) minha primeira indagação foi que não tinha formação acadêmica ainda para escrever e disse: ‘sou apenas técnica em administração e agronegócio. Acho melhor esperar eu me formar primeiro”, relata.

No entanto, Stefany diz que parou para refletir e se viu indo contra tudo aquilo que acreditava. “Precisamos parar de repetir que, como jovens somos o futuro, porque não somos. Somos o presente e devemos agir hoje”.

Ao se tornar uma comunicadora do agro, a juventude rural passou a ser a principal bandeira defendida pela estudante nas redes sociais. Ela sempre aborda a temática do jovem dentro da porteira, mostrando, segundo suas palavras, “o quanto esse lugar precisa ser mais ocupado”.

“Tentei sair do tradicional que sempre cai na questão da sucessão familiar. Acredito que o cenário está mudando e os atores recentes não são todos filhos de agricultores, mas também novos apaixonados pelo agro”, explica.

Decisão

De acordo com Stefany, o avô paterno, Aluízio, era encantado pela cacauicultura em Linhares. Ela recorda que ele sempre a levava no lombo do burrinho para colher cacau na plantação de cabruca e virar as amêndoas para secar na barcaça.

Ainda segundo a estudante, ela começou a observar que o pai e os irmãos não tinham envolvimento com a agricultura, pois na adolescência deles ainda predominava um velho conselho: “vai estudar para não ficar na roça!”.

O avô morreu e os filhos venderam e lotearam as propriedades. Foi quando a percepção de Stefany começou a mudar. Prestes a ingressar no curso de administração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2016, a espera para o início das aulas foi decisiva na vida da agroinfluenciadora.

Em maio daquele ano, aproveitou o tempo ocioso para uma viagem técnica promovida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES) à Agrishow (maior feira de agronegócio da América Latina), em São Paulo. E a capixaba voltou para casa decidida a fazer agronomia, cursos prestes a concluir no Ifes de Itapina.

Stefany Sampaio- “Nosso Estado é um dos mais ricos em diversidades de culturas do Brasil. Temos exemplos como o da Jamila, que produz morango, a 2 horas do jovem que ganhou o melhor café do Brasil e a 6h de mim que estou na cidade do cacau. Nossa vantagem é que estamos muito pertinho um do outro e precisamos usar isso ao nosso favor”.

“Comecei a entender o potencial que tinha em mãos. Olhando para a cacauicultura, vi que poderia trabalhar seguindo os passos do meu avô, mesmo saltando uma geração. A agricultura sempre foi o pilar que sustentava minha família. O cacau está no brasão de Linhares, mostrando a importância da cultura para o município, mas também somos mamão, café, coco... Somos o agronegócio!”, afirma.

A pandemia alimentou novas ideias para as redes sociais. Stefany passou a produzir vídeos para o IGTV e o canal do Youtube. Os destaques são as séries sobre cacau e café (Confira um dos episódios acima!).

“Precisava aproveitar que tudo está ainda mais virtual para mostrar para o mundo inteiro o que os produtores rurais que eu já conhecia fazem dentro da porteira. Eu me coloquei como interlocutora em um discurso que é deles, me encantei e me encontrei”.

Desde outubro de 2019, Stefany passou a realizar trabalhos remunerados como agroinfluencer dentro e fora do Estado e conta com patrocinadores fixos. A estudante não leva em consideração o número de seguidores e a busca por “likes” quando produz conteúdos, uma vez que sua taxa de engajamento nas redes sociais é mais alta que a de muitos influenciadores.

Ela gosta de ressaltar que não quer ser agroinfluencer, e sim, agrônoma, mas acredita que no futuro as duas coisas vão andar muito juntas. “O mais importante é aquilo que você entrega às pessoas. Um conteúdo de qualidade, uma verdade no que eu falo”, finaliza.

*STEFANY FALA DA EXPERIÊNCIA COMO AGROINFLUENCER!

Quem é: Stefany Sampaio Silveira
Idade: 24 anos
Cidade: Linhares
Profissão: estudante de agronomia
Instagram: @stefany.agronomia
Seguidores: 5.990

Posts sobre pecuária para aproximar campo e cidade

A zootecnista Renata Erler (35), de Vitória, não se considera uma agroinfluenciadora, mas desde 2019 produz conteúdos sobre pecuária nas redes sociais com forte interação.

“Não tenho um trabalho dedicado especificamente para a rede social. Mas se por meio dela consigo influenciar pessoas a questionarem informações distorcidas sobre a pecuária ou levar informações úteis aos pecuaristas para o seu negócio, além de elevar a valorização dos profissionais do agro capixaba, então a responsabilidade é grande. Não dá para pensar de forma individualizada, mas sempre no coletivo”, analisa.

Renata é gestora de agronegócio, atual presidente da Associação dos Zootecnistas do Espirito Santo (Azes), presta consultoria, atua com planejamento estratégico e ainda arruma tempo como palestrante e colunista da Safra ES.

A rotina agitada é acompanhada no perfil pessoal do Instagram por profissionais das ciências agrárias, produtores rurais, estudantes e curiosos sobre como funciona o agro.

Para a zootecnista, esse público é importante para acabar com algumas práticas nocivas ao agronegócio, baseadas em informações infundadas, que levam ao desconhecimento da atividade base da economia nacional e que movimenta da ciência e tecnologia à proteção socioambiental.

“Levo sempre informações do dia a dia das fazendas que visito e algumas práticas que podem fazer a diferença na gestão das propriedades e na produção de carne e leite, pois são áreas que me sinto segura para abordar. Não me aventuro em temas que eu não tenha exímio conhecimento técnico justamente em razão da responsabilidade com o alcance das redes sociais”, afirma Renata.

Quem é: Renata Erler
Idade: 35 anos
Cidade: Vitória
Profissão: zootecnista
Instagram: @renataerler
Seguidores: 3.059

“Falo muito sobre a evolução dos pecuaristas, pois apesar de sermos um Estado com pouca representatividade na pecuária nacional, a qualidade do rebanho e da carne produzida aqui aumentou absurdamente nos últimos anos devido ao aumento no uso de inseminação artificial, cruzamento industrial, melhor manejo de pastagem, suplementação estratégica, ou seja, um pacote de ações que entrega ao consumidor final carne mais macia, com acabamento de gordura e possivelmente marmoreio. Outra característica importante é quanto ao abate, pois em torno de 98% da carne consumida no Espírito Santo é inspecionada, o que traz uma segurança alimentar diferenciada para os demais Estados do Brasil".


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