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Cafés especiais


Cafeicultura viva

Sistemas agroflorestais como o sintrópico estão entre as boas práticas dos cafeicultores para agradar em cheio o novo padrão de exigência do consumidor

Por Leandro Fidelis
2/04/2021 6h00
Atualizado em 9/04/2021 11h27

(*Foto: André Berlinck/Divulgação- *As imagens têm direitos autorais)

Surfar na quarta onda dos cafés especiais não é para amadores. Há espaço até para surfista de verdade entre os profissionais do setor. Ao trocar a prancha pela enxada, esse novo cafeicultor e outros produtores mais experientes passaram a dar voz e a ouvirem mais compradores e consumidores sobre a necessidade de novas práticas sustentáveis na propriedade. É assim que a cadeia flui, como as ondas do mar.

O surfe e a cafeicultura não têm ligação direta. Talvez pela relação mais próxima com a natureza, ex-surfistas como Clayton Barrossa Monteiro (foto acima) estejam mais abertos a produzir alimentos saudáveis. A filosofia “viver a vida sobre as ondas” vai de encontro com a produção e o consumo de cafés orgânicos, cultivados em sistemas agroflorestais ou de manejo integrado.

E o entorno do Pico da Bandeira, na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, está ensinando como agradar consumidores exigentes de café de todo o mundo e que pagam mais pelo valor agregado da sustentabilidade. Em Alto Caparaó (MG), Clayton e Willians Valério colocaram o município na calçada da fama dos cafés de excelência brasileiros. O primeiro foi campeão do “Coffee of the Year (COY)” (Melhor Café do Ano) nas edições de 2014 e 2015 da Semana Internacional do Café (SIC), enquanto Willians venceu a mesma competição em 2019, ambos na categoria Arábica.

Muito além dos troféus, dos microlotes vendidos acima do valor de mercado e das placas que ostentam os resultados dos cafeicultores na chegada da cidade, a dupla troca e difunde boas práticas na região antes famosa pela péssima qualidade dos grãos.

Proprietário da Fazenda Ninho da Águia, em Alto Caparaó (MG), Clayton conseguiu estabelecer uma rede de compradores internacionais que só podem assinar contrato mediante visita prévia à propriedade. O resultado são os cafés “Ninho da Águia” encontrados nas principais cafeterias da Europa. Uma realidade bem diferente de quando tudo começou, há 25 anos.

Nascido em São Paulo capital, o ex-surfista das praias do Litoral norte paulista já frequentava Alto Caparaó, terra natal do pai, Aídes Gomes Monteiro, mas até 1996 nunca tinha produzido café. Foi um êxodo urbano.

“Era surreal naquela época sair da cidade e vir pra roça. Eu vim porque meu tio falou que com café você trabalhava seis meses e ficava os outros seis sem fazer nada. Eu era surfista e pensei: fico os seis meses na fazenda e o outro semestre na praia”, recorda Clayton.

(*Foto: Leandro Fidelis- *A imagem tem direito autoral)

Neorrural

Os primeiros meses foram de aprendizado com o tio, “cara caprichoso com os cafés. Secava bem seco, colhia no pano...”. Naquele primeiro ano nem se falava em cafés de qualidade no município. E Clayton nem bebia café. Mas o ex-surfista se dedicou bastante. E os seis meses de férias anuais se tornaram 25 anos.

“Se somar tudo não dá um semestre de folga, mas nasci para fazer isso. Era um desafio a cada dia, apesar do preconceito de outros produtores, descrentes da minha capacidade por eu ser da cidade grande. Precisei me inserir muito no estilo de vida local para começar a ter respeito”, conta.

O pulo do gato foi reverter uma prática cultural em família. Via o tio colhendo, vendendo e deixando o pior café para consumo próprio. Então Clayton passou a deixar o “mais bonito” para beber.

“Sem ter muita ideia do que eu estava fazendo, a minha noção de comparação com outro café ficou lá no teto. Sempre que tomava café em outro lugar eu dizia: o meu é melhor. Por volta de 2001, passei a levá-lo para as cafeterias de São Paulo. Os donos se negavam a comprar devido à fama ruim do Caparaó, optando pelos grãos do Sul de Minas e da Mogiana. Percebi ali que tínhamos um potencial para fazer os melhores cafés do Brasil e do mundo, só precisava saber o manejo correto”.

E o novo cafeicultor não desistiu. Aprendeu a torrar, provar, classificar e fazer colheita seletiva, porém lhe faltava credibilidade junto a outros produtores para se unirem na promoção dos cafés do Alto Caparaó.

(*Foto: Georgia Thomé/Divulgação- *A imagem tem direito autoral)

“Fiquei dez anos só apanhando. Não tinha para quem vender. Informação era impossível e não sabiam provar café natural no Brasil. Além disso, os compradores exigiam um volume mínimo. Eu e um amigo até tentamos formar uma associação para fechar um primeiro contêiner, mas os produtores locais não me davam ouvidos”, lembra.

Em 2011, a águia voou para a sustentabilidade. Clayton certificou a fazenda pelo selo “Certifica Minas” como livre do uso de agrotóxico e ficou sabendo dos concursos estaduais de qualidade. No ano seguinte, ele se inscreveu na disputa promovida pela Emater-MG e ganhou como melhor café natural do Estado. “Comecei a ter credibilidade, mas ainda ouvia: ‘foi sorte, nunca mais ganha’”.

Puro despeito. Os cafés do “Ninho da Águia” continuaram a classificar entre os primeiros de Minas Gerais nos quatro anos seguintes. Já em 2014 e 2015, a repercussão dos grãos especiais produzidos na fazenda foi nacional, com as vitórias consecutivas no COY. “Aí mudou tudo. Começou a vir a galera toda aqui para saber como eu tinha feito. Aí o respeito passou a ser diferente, mas ninguém considerou que nos primeiros concursos eram necessárias dez sacas para participar, não um lotinho”, diz.

Relacionamento

A produção atual é de 300 sacas por ano, sendo de 70% a 80% de cafés especiais. A 2,7 km da sede de Alto Caparaó, a fazenda, de 55 hectares, tem 25 ha cultivados com café, em altitudes entre 1.250m e 1.400m. A maior parte é de área de preservação e pasto.

Os trabalhos de Clayton tornaram a propriedade referência. A “Ninho da Águia” é a primeira fazenda do município a receber turistas interessados em cafeicultura. “Nosso trabalho é de educação, aqui não é cafeteria. Os turistas conhecem todo o processo de colheita e pós-colheita, torrefação, o sistema de agroecologia e bebem água de nascente. Vendo uma experiência. Eu confio tanto no produto que não cobro entrada, nem degustação”.

Clayton Monteiro faz vendas diretas para estrangeiros, o “direct trade”, sob a condição de visitarem a fazenda todo ano. A parceria garante o café “Ninho da Águia” na prateleira da mais premiada cafeteria europeia, a “The Barn Cafe”, em Berlim (Alemanha), além de outros estabelecimentos europeus (Paris, Praga, Londres, Dublin e Roma) e ainda Estados Unidos, Japão e Austrália. A pandemia não permitiu os compradores irem à propriedade, nem Clayton, à Europa, para onde vai uma vez por ano conhecer cafeterias e participar de feiras internacionais. “O café é você criar relacionamento de verdade”, afirma.

Ao comparar as ondas do mar com a produção de cafés especiais, Clayton acredita estar na crista da “sétima onda”.

“Estamos surfando ainda, muito à frente tanto em sustentabilidade quanto em parcerias de longo prazo, de uma ponta à outra. Tenho relações sólidas com torrefações e cafeterias do Brasil. Estamos juntos em qualquer situação”, diz ao comentar, também, como ficaram os negócios durante a pandemia.

(*Foto: Leandro Fidelis- *A imagem tem direito autoral)

Para o cafeicultor, será determinante uma relação mais próxima entre produtor e consumidor dos grandes centros. “A grande indústria distanciou muito o produtor do consumidor final. Por isso, incentivo os cafeicultores a certificarem as propriedades e a rastrearem a produção, porque o consumidor final vai exigir isso. Uma hora ninguém vai comprar café não certificado”.

O investimento é a longo prazo, avalia. “Talvez o produtor não consiga enxergar que está ganhando muito, mesmo que leve tempo. O comprador vê aqui todo o processo, é a melhor auditoria que existe”. O próximo projeto do ex-surfista é criar uma escola de café e agroecologia para filhos de produtores. É muita onda!


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