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Cafés especiais


Um case chamado Caparaó

Produtores locais protagonizam movimento pela garantia da identidade dos cafés da região

Por Leandro Fidelis
1/08/2019 22h12
Atualizado em 14/08/2019 12h42

As lavouras de Arábica em Irupi têm a Serra do Caparaó como pano de fundo.(*Fotos: Leandro Fidelis)

Além da agregação direta de valor, a produção de cafés especiais possibilita o crescimento do turismo, como é o caso do Caparaó, região do entorno do Pico da Bandeira, a terceira montanha mais alta do Brasil. Nos últimos anos, um crescente número de propriedades passou a receber a visita de especialistas do mundo inteiro por conta das particularidades dos grãos produzidos acima de 1.000m de altitude.

De acordo com o agrônomo João Pavesi, a descoberta da zona cafeeira situada entre Espírito Santo e Minas Gerais ocorreu em 2013 com o Prêmio Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café). O excelente resultado chamou atenção do governo capixaba e de cafeterias do país e do exterior.

“Os cafeicultores começaram a participar mais intensamente de episódios com provadores do mundo inteiro, e as cafeterias da Europa, Ásia e Oceania descobriram nossa existência”, diz.

A visibilidade para o lado capixaba do Caparaó, ainda que no contexto da produção de nano e microlotes de especiais, vem ganhando corpo, com os valores sendo proporcionais à melhoria de aspectos sensoriais e de pontuação. Cafés que são verdadeiros artigos de luxo. Uma saca pode alcançar R$ 3 mil sem ser submetida a concurso ou leilão.

Um segundo momento da entrada do Caparaó na rota dos cafés gourmet foi incentivado por concursos municipais e regionais. Os produtores começaram a melhorar ainda mais os processos e a buscar capacitação. A partir de 2012, os campi do Ifes Alegre e Venda Nova estimularam os produtores a provarem os próprios cafés, e o mercado interno passou a adquirir mais grãos especiais capixabas.

“Produtores que há 15 anos não achavam ser possível fazer café especial começaram a desacoplar das cotações de cafés comerciais commodities”, pontua o agrônomo.

Colheita do catuaí amarelo em Forquilha do Rio, Distrito de Pedra Menina (Dores do Rio Preto)

A vocação do Caparaó para os cafés finos ficou ainda mais visível nas últimas edições da Semana Internacional do Café. A conquista do primeiro e do segundo lugar da categoria Arábica em 2018 foi a mais recente. A família de José Alexandre Lacerda, de Forquilha do Rio, no distrito de Pedra Menina (Dores do Rio Preto), cravou o seu nome dentre os principais produtores de cafés especiais do Brasil.

“Hoje, na crise que vive a cafeicultura com preços baixos e altos custos de produção, com certeza investir em especiais vale muito a pena. No especial, conseguimos ter margem de lucro bem melhor e participação até a xícara do café, o que é gratificante para o produtor”, afirma Lacerda.

Os grãos do Caparaó mostram superioridade também em outros segmentos de concursos de qualidade. É o caso da competição promovida pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, sigla em inglês) entre cafés de colheita tardia. Em 2018, dos 20 melhores cafés brasileiros, 15 eram da região.

A façanha se repetiu este ano com a segunda edição. Dos 22 finalistas, 15 também eram provenientes do entorno do Pico da Bandeira.

“Isto está consolidando a imagem do Espírito Santo, assim como a do lado mineiro. São cafés de butique, acima de 88 pontos”, destaca Pavesi.

João Pavesi (no destaque) dedica-se a pesquisas na área de cafeicultura. (*Divulgação)

Numa perspectiva otimista, o especialista considera possível que, na próxima década, das atuais 2,46 milhões de sacas produzidas no Caparaó, 10% do volume total seja de cafés especiais. A meta se baseia na adesão de novos produtores a este tipo de produção.

“Temos meta de 246 mil sacas de especiais com ágio de pelo menos R$ 200 por saca. Isto injetaria R$ 50 milhões por ano na mão de pequenos produtores da região”.

A garantia da identidade para os Cafés do Caparaó está na construção e no reconhecimento da Indicação Geográfica, protagonizada desde o princípio pelos cafeicultores locais. Nos últimos quase cinco anos, um grupo de especialistas e produtores dedicou-se à avaliação dos municípios e à documentação histórica, cultural e social da cafeicultura na região para a obtenção do selo de Denominação de Origem.

A candidatura ao registro reconhecido internacionalmente foi depositada neste ano no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O projeto conta com suporte do Sebrae e dos principais parceiros da cadeia da cafeicultura do Estado. O apoio do Sebrae estende-se ainda para as IGs das Montanhas do Espírito Santo e do Conilon Capixaba.

“Se o governo não encampar essa divulgação, vai dificultar muito à região colocar café com valor agregado que valha a pena o investimento dos produtores. O marketing tem que ser feito de forma geral para nos livrar da pecha de produtor de cafés ruins. A tendência de aumentar a oferta de cafés especiais se dá de forma parceira, com os elos da cadeia confiando uns nos outros. Ainda está muito tímida a participação do governo do Estado”, avalia João Batista Pavesi Simão.

*Com a colaboração de Uilson de Castro Souza e Cristiano Faria de Castro.



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