Seg, 18 de Nov
×

Busca

governo - banestes

Cooperativismo


Cooperação que abre a mente e o mundo

Com suporte da cooperativa, após tentar a sorte no exterior, cafeicultor descobre o sucesso e prospera ao lado da família no universo dos cafés de qualidade

Por Leandro Fidelis
31/10/2019 10h00
Atualizado em 12/11/2019 18h50

Mara, Kênia, Juza e Jéssica do Carmo: personagens de uma história real de superação, sucessão familiar, empoderamento feminino e cooperativismo. (*Fotos: Leandro Fidelis)

Ele precisou tentar a sorte duas vezes na Europa para descobrir que a chance de uma nova vida havia ficado para trás, no lugar onde nasceu, cresceu e constitui família.

Na estrada poeirenta que liga a BR-262 na altura de Ibatiba, no sul do Espírito Santo, ao distrito de Imbiruçu, na zona rural de Mutum (MG), todo mundo conhece o “Juza da Mara”. No interior, ainda é assim que as pessoas são identificadas, sempre associadas aos pais, aos maridos, mulheres... Não é diferente com Jozoé do Carmo (49), casado com a professora Mara Barboza (54), com quem teve três filhas: Jéssica (26), Kênia (25) e Silvia (23).

O agricultor mora na propriedade onde começou a trabalhar aos oito anos, na Cabeceira do Imbiruçu, a 7 km da rodovia federal e a 60 km da sede do município.

Tudo na vida do “Juza” foi cedo. Casou-se aos 20 anos e herdou 3 hectares dos 21 divididos entre dez irmãos.

A vida na roça nunca foi fácil. A família mantinha apenas a cultura de subsistência (milho e feijão), sem nenhuma tecnologia nos plantios e quaisquer perspectivas de sobrevivência no campo.

“Faltava gestão, conhecimento e tecnologia. Minha mulher colocava dinheiro do salário da escola para fazer carreador. Café oscilava muito de preço, não existia controle de doenças...”, recorda-se “Juza”.

Por volta de 1994, quando não havia linha de telefone na localidade- apenas um rádio comunicador para acessar o mundo externo- “Juza” apostou num pequeno comércio em Imbiruçu.

Além de ser ponto de venda do café dos vizinhos, a mercearia foi pioneira no comércio de frango congelado e refrigerantes na embalagem Pet, duas novidades para aquele espaço e tempo.

*Assista vídeo do comercial gravado em VHS do antigo comércio do “Juza da Mara”!


Porém, a iniciativa não vingou. “Com 23 anos, imaturo, não deu muito certo”, lembra.

Dez anos depois, “Juza” aproveitou um movimento migratório de moradores e parentes da região para a Europa. A promessa era de emprego na colheita da uva na França.

Os primos da mulher já estavam em Paris e incentivaram o agricultor a fazer o mesmo. “Juza” deixou a mulher e as três filhas na sede do município, para Mara cursar faculdade, e partiu.

Ele viajou duas vezes para o Velho Continente por meio de “coiotes”. Na primeira vez, foram 40 dias entre a capital francesa e o interior do país, mas o sonho do “Juza” era entrar mesmo na Inglaterra.

Mas sem a documentação legalizada, acabou deportado juntamente com outros companheiros nas proximidades do Canal da Mancha.

“Vi tudo o que era a imigração na Europa”, conta.

A segunda empreitada ocorreu em 2005. Começou pela Suíça, e a tentativa de entrar na Inglaterra por Londres falhou novamente, porque ele “já estava fichado pela polícia”. Ficou 24 horas sob o poder das autoridades locais e retornou escoltado ao Brasil.

“Não ganhei nenhum centavo lá fora. Quando voltei, vi que meu lugar era aqui. Amo meu Brasil de paixão, meu Imbiruçu, o Mutum... Pensei: quem vai fazer a diferença somos nós. Vou fincar o pé aqui”, conta.


A volta forçada ao Brasil coincidiu com o auge da colheita do café.

E a virada dessa história começa aqui, com este sonzinho típico da roça: o moedor manual de café em funcionamento. Ouça!

Juza diante da Torre Eiffel, em Paris. (*Arquivo pessoal)

O início da produção de qualidade

De volta à Cabeceira de Imbiruçu, Jozoé do Carmo, nosso “Juza”, sugeriu ao pai associar-se à Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Lajinha (Coocafé). Era 2006, ano de safra baixa no sítio.

Deu pouco café, mas de peneira boa e excelente qualidade, “um milagre”, como relata.

Por conta disso, o patriarca comercializou 250 sacas através da cooperativa e recebeu uma diferença recorde de R$ 18 mil. O fator qualidade, para o qual o agricultor ainda não havia se atentado, foi determinante.

“A gente nem pensava em qualidade e que poderia fazer esse dinheiro, mas veio a Coocafé e disse: seu café vale mais’”.


Abria-se, então, uma porta para um novo mundo: o da produção de cafés de qualidade.

OUÇA "JUZA" CONTANDO SUA HISTÓRIA COM A QUALIDADE DO CAFÉ E O COOPERATIVISMO!


Os técnicos da cooperativa passaram a frequentar o sítio dos Carmo, realizando análise de solo para melhorar a produção e trazendo insumos a preços mais acessíveis. Em 2008, a produção da família saltou de 250 para 400 sacas.

Juza” associou-se à Coocafé naquele mesmo ano, incluindo 3 hectares da propriedade no contrato. Começou a participar dos programas sociais, baixou o custo da produção e melhorou a qualidade.

Também passou a figurar entre os finalistas dos concursos da Emater-MG e da própria cooperativa.

“Dormi pobre e acordei rico, sem dinheiro né? (risos). Com a qualidade do café, comecei a ver o que era riqueza”.

O consultor técnico da Coocafé, que atende a família do Carmo, André Honorato avalia como o cafeicultor “virou o jogo” na atividade.

“A família do Jozoé do Carmo é pioneira na cafeicultura de montanha na região. São sócios participativos da cooperativa e evoluem cada dia mais, pois estão sempre buscando formas de melhorar a qualidade e a produção de café e a qualidade de vida da família. Tratam a propriedade como empresa produtiva e sustentável, conseguindo, assim, virar o jogo diante das dificuldades”, diz.


E ao investir no mercado de cafés de qualidade, o dinheiro foi entrando, a família comprou um “Uninho” novo...

O carro foi o transporte necessário para levar as filhas para estudar, como você vai conferir no próximo capítulo. É porque o nosso “Juza” nem imaginava que outra importante contribuição para o sucesso dos negócios era sua própria prole...


Chegada da tecnologia determinou carreira das filhas

O gosto pela roça e o incentivo da qualidade pela cooperativa traçaram o destino profissional das duas filhas mais velhas do “Juza da Mara”.

As irmãs Jéssica, Kênia e Silvia fizeram curso agrotécnico no Ifes campus Santa Teresa em épocas diferentes. Durante dez anos, a cidade da região serrana capixaba esteve no caminho da família Do Carmo. E foram a cafeicultura e o salário de professora da Mara que arcaram com algumas despesas do trio.

Desde que ingressaram na área, as meninas passaram a trazer novidades, enquanto a Coocafé mostrava os caminhos promissores do café de qualidade e incentivava a família a participar dos concursos da cooperativa. Há 11 anos, elas mantêm contato com os técnicos da cooperativa.

“Passamos a ficar finalistas nos concursos e a driblar as oscilações de preço do café commodity para continuar nos negócios”, diz “Juza”.

A família conta que a Coocafé começava a mudar a realidade de Imbiruçu, onde existem pequenas propriedades e mais de 400 famílias são associadas à cooperativa.


“Difícil não ter família associada. Se não fosse a Coocafé, não teríamos a quantidade de insumos e tecnologias de hoje”, ressalta Kênia.

Já aos 15 anos, Jéssica dava assistência técnica à família e trabalhava na safra de café.

“Não é que jovem não gosta de roça, ele não gosta de pobreza. Todas as férias eu vinha para casa e, se quisesse dinheiro para ir às festas, tinha que colher café”, lembra a jovem.

Para ela, a atividade não oferecia boas perspectivas. Com o incentivo da cooperativa para produção de cafés de qualidade, acabou percebendo se tratar de algo lucrativo.

OUÇA ESTA HISTÓRIA NA VERSÃO DA JÉSSICA!

As possibilidades na nova cafeicultura acabaram influenciando na escolha profissional de Jéssica e Kênia. Enquanto a caçula Silvia escolheu medicina e continua a faculdade em Mossoró (RN), as irmãs mais velhas estudaram agronomia: Jéssica, em Viçosa, e Kênia, em Santa Teresa.

Com a cabeça fervilhando de informações, a dupla não teve muita facilidade no início para implementar as novidades junto ao pai.

“As ideias divergiam muito. Eu me sentia a Tia Anastácia (em referência ao personagem de Monteiro Lobato no “Sítio do Pica-Pau Amarelo”), só varria e lavava quando estava em casa, sabendo que a propriedade era laboratório para nós”.

“Sempre houve divergência mas, com o tempo, as meninas foram me ajudando a crescer”, confirma o pai.

Jéssica nem pensava em pesquisar café, mas pegou gosto. Produziu um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a propriedade, mas o “Juza da Mara” relutava em compartilhar os dados econômicos para o diagnóstico, cujo objetivo era colocar o sítio em condições de comercializar café até com a China.

Barreiras rompidas, aos poucos, Jéssica foi desenvolvendo novas tecnologias no quintal de casa. Um exemplo é a redução de 5 litros de água para lavar 1 litro de café para 200ml/litro no lavador.

“A ideia sempre foi melhorar a propriedade, de modo ambientalmente correto e dinheiro no bolso”, afirma Jéssica.


Ao contrário da irmã e colega de profissão, Kênia sempre gostou de café.

“Eu fazia almoço para uns quinze companheiros na época da colheita”, lembra.

Em 2008, ela fez um curso de degustação e classificação de café na cooperativa, passou a ser secretária do Núcleo de Homens e participou do início do grupo feminino da cooperativa.

OUÇA KÊNIA CONTAR SUA TRAJETÓRIA NA CAFEICULTURA!

Kênia passou as férias de julho durante os oito anos entre o Ensino Médio e o curso superior na panha e na despolpa de café com a família.

O período foi determinante para levantar informações para o TCC e conectar-se com os professores de referência em cafeicultura dos campi do Ifes de Ibatiba e Venda Nova do Imigrante e da universidade em Santa Teresa.

Sempre perspicaz, a engenheira agrônoma implantou em casa o sistema de reuso de água via úmida, testou o primeiro protótipo de fornalha sem fumaça, na última safra; além do tempo de fermentação com resultado na qualidade do grão em altitudes de 870m a 1.100m e novos métodos de secagem.

A irmã Jéssica destaca a existência de um ciclo.

“Meu pai produz, é da iniciativa privada. A universidade valida os resultados, os pesquisando e publicando, promove a formação e o conhecimento, enquanto nós fazemos a extensão”.

Atualmente, Jéssica e Kênia comandam uma empresa de consultoria com sede em Manhumirim (MG). A dupla tem clientes em toda a região e na área limítrofe com o Espírito Santo e realiza serviços através do Senar-MG.

Além disso, elas realizam assistência técnica e gerencial junto a mais de 30 mulheres ligadas ao café.

As irmãs também são sócias da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA) e ajudaram a criar a Associação das Mulheres do Café da Região das Matas de Minas, com oito meses de fundação e 64 municípios envolvidos. Todas as associadas têm marca própria de café especial e se uniram para criar um canal de venda.

Juza” se diverte ao comentar a maioria feminina em casa e na cafeicultura e enaltece a contribuição da Coocafé nos negócios.

“Estou A-MANDO delas (risos). Hoje temos novos horizontes, não tenho medo de crise. Em parceria na família e com apoio da cooperativa, com todos juntos, é muito mais fácil. Sou grato eternamente à Coocafé. Verdadeira gratidão”, diz o cafeicultor, atualmente integrante do Conselho Consultivo da Coocafé.

A produção de qualidade trouxe novo horizonte para todos e despertou até o interesse do patriarca em continuar os estudos.

Juza” acabou de concluir o Ensino Médio pelo programa EJA (Educação de Jovens e Adultos) e pensa em cursar administração e aprender inglês.

“Meu recado é: vai para escola para você ir para a roça. É minha nova ideologia. Roça não é lugar de gente burra. A prova são as minhas filhas. O que fiz com elas não foi gasto, foi investimento”.

Café resgata nome original do arábica

A história da família do Carmo ganhou novo capítulo com a criação da marca Jasminum Cafés Especiais. O produto recebeu o primeiro nome da espécie arábica.

São grãos de alta qualidade produzidos no sítio da Cabeceira de Imbiruçu e com o selo Matas de Minas Gerais, em processo para o reconhecimento da Denominação de Origem pela certificação da Indicação Geográfica.

Segundo Jéssica e Kênia, elas descobriram o nome Jasminum arabiam em um livro de 1713 do acervo da Biblioteca Nacional.

“O nome do pesquisador era Antonio de Jussieu. Achamos ele parecido com o apelido da nossa família, que é IEL, daí escolhemos o nome Jasminum Cafés Especiais”, revela Kênia.

O café Jasminum contempla grãos de pontuação elevada. Na safra de 2018, o lote de especiais atingiu 83 pontos na bebida. E três sacas de grão verde deste mesmo lote foram comercializadas com a Austrália.

A matriarca Mara é peça fundamental para a marca, pois é responsável pelo pós-colheita, separando os lotes ou catando os grãos seletivamente. Já teve lote catado a dedo que alcançou 84,75 pontos, enquanto outro maior, de dez sacas, chegou aos 83,25.

A torrefação do Jasminum Cafés Especiais ainda é terceirizada.

“Nossa premissa é trabalhar qualidade e com a constância da qualidade em cada lote”, ressalta Jéssica.

O diretor de Produção e Comercialização da Coocafé, Pedro Araújo, considera a família de Jozoé do Carmo um “case” de sucesso e destaca o apoio da cooperativa a iniciativas empreendedoras na cafeicultura.

E se depender de “Juza”, outros capítulos dessa história ainda virão.

“Estamos com o pé no chão. Temos consciência de que não vamos parar, e olhar os negócios a longo prazo”.

A família Do Carmo é exemplo de persistência, superação e de como a educação pode mudar vidas. A roça há muito tempo deixou de ser um lugar distante do mundo. O campo está conectado, com tecnologia e inovação, e promovendo qualidade de vida.

“Só vou para a Europa agora se for a passeio”, finaliza “Juza da Mara”.

*Divulgação



Comentários Facebook

Entre em contato


28 3553-2333
28 99976-1113
jornalismo@safraes.com.br

Acompanhe-nos nas Redes Sociais


SafraES

© 2018 SafraES.
Todos os direitos reservados.

© 2019. Todas as postagens do site SAFRA ES podem ser reproduzidas gratuitamente, apenas para fins jornalísticos, mediante a citação da fonte: Site Revista SAFRA ES.
Produção / Cadetudo Soluções Web